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Campo Grande, Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018

27/06/2018 08:27

A cada etapa vencida no câncer, Sabrina resolveu comemorar para seguir em frente

Thailla Torres
Sabrina casou no meio do tratamento, uma das comemorações pelo desafio vencido com amor. (Foto: Arquivo Pessoal)Sabrina casou no meio do tratamento, uma das comemorações pelo desafio vencido com amor. (Foto: Arquivo Pessoal)

Aos 32 anos, Sabrina Lemos é daquelas pessoas que carregam um jeito doce na hora de falar e uma força, muitas vezes, irreconhecível para quem tanto busca um jeito de lidar com os problemas da vida. Há um ano e três meses, ela descobriu o câncer de mama no instante que estava prestes a viver um dos momentos mais importantes da vida com o casamento, a compra de uma casa nova e a chegada da família. Mas a doença mudou os planos, fez ela e o marido rever os caminhos. Mas longe de deixar a peteca cair, a mulher sorridente resolveu dar volta por cima, com amor e comemoração a cada etapa vencida no tratamento e como conquistou essa determinação ela conta aqui no Voz da Experiência.

Ao lado da tia, quando recém tinha raspado a cabeça. (Foto: Arquivo Pessoal)Ao lado da tia, quando recém tinha raspado a cabeça. (Foto: Arquivo Pessoal)

Descobri o câncer em março do ano passado. Senti que havia algo estranho desde janeiro cansada, indisposta, com dores no corpo e todo fim de tarde me sentia febril. Pensei em deixar para fazer exames em abril, mas meu marido pegou tanto no meu pé para ir ao médico, que resolvi antecipar o check-up.

Foram vários exames de sangue, sem nenhuma reposta. O médico até cogitou ser emocional e toda vez que eu saia do consultório sem resultado nenhum para os meus sintomas, aquilo me dava uma angústia.

Um dia, fui tomar um banho quente, porque era o que me relaxava no fim do dia, e ao sair do banheiro percebi um líquido diferente saindo do meu mamilo, era sangue.

Ali começou a minha história com o câncer. Na hora fiquei um pouco apavorada e sentia que tinha algo muito diferente no meu corpo. Passei por um ultrassom e havia 95% de chance de ser câncer de mama.

Foi aquela loucura imediatamente. Fiz a biopsia e quando o médico chegou com o resultado do exame, confirmou que estava em estágio avançado, foi um dia muito difícil.

Naquele instante chorei muito, durante horas, porque é um choque psicológico muito forte. A primeira luta é ser diagnosticada porque você só consegue pensar: porque comigo?

O câncer de mama também é muito invasivo e tira seu chão, porque naquele momento você só pensa o pior. Eu ia casar naquele ano, estava olhando casa para comprar e, de repente, houve uma reviravolta na minha vida.

Fui fazer os exames para ver se o tumor não havia espalhado, ele estava 7 centímetros e eu corria o risco de ter metástase. Minha família então insistiu para que eu fizesse todo o tratamento em Barretos (SP). Com tanta informação, por um momento eu não sabia qual caminho tomar.

Sabrina encarou a luta e assumiu o lenço durante um período difícil da doença. (Foto: Arquivo Pessoal)Sabrina encarou a luta e assumiu o lenço durante um período difícil da doença. (Foto: Arquivo Pessoal)

Depois da descoberta, a informação mais impactante é que iriam retirar minha mama e ainda não era possível saber sobre reconstrução. Isso é outro choque psicológico e um buraco que abre. O subconsciente parecia trabalhar o tempo todo como se estivesse sendo punida, é um turbilhão de sentimentos.

Por outro lado, o câncer é a doença que muda você e todos a sua volta, principalmente, quando se dá início a quimioterapia. E nesse momento que tudo se transforma, algo floresce na gente, uma forca que muitas vezes a gente não imagina que possui.

Ainda me emociono de lembrar o que já passei, das palavras do médico, do meu marido dizendo que eu aguentaria, que eu era forte e, ele tinha razão, porque mesmo na dor e na pior fase da doença, eu pude ser forte.

Quando comecei as quimioterapias, em 15 dias meu cabelo caiu. Lembro que dizia que não rasparia a cabeça, porque no meu imaginário, o semblante careca seria como se eu estivesse definhando. Até que não teve jeito e resolvi cortar o cabelo. Meu marido segurou nas minhas mãos e raspou a cabeça junto comigo.

Chorei muito quando me vi no espelho, não por perder o cabelo, mas por tudo naquele momento. Resolvi então fazer uma peruca com o cabelo das minhas irmãs, primas e até o meu. Mas a primeira vez que me olhei no espelho com peruca não me reconheci, resolvi então assumir minha careca.

Foi o primeiro passo de amor ao meu corpo e que me deu forca. Percebi que apesar de ter a doença, eu precisava olhar tudo aquilo que vivia com amor e me amar independente de como estou.

As coisas se tornaram muito mais fáceis quando, no meio do caminho, descobri o poder incrível do amor. Confesso, cogitei desistir porque acreditei em alguns momentos que não iria aguentar, mas o poder do amor da minha família foi maior.

Foi então que passei fazer uma comemoração a cada etapa vencida dentro do hospital. A ideia foi compartilhada com meu marido que fazia de tudo para me ver animada, apesar das dores e dos sentimentos.

Terminei a quimioterapia e lá mesmo oficializamos o noivado. Depois da cirurgia, fizemos um evento em família e quando começou radioterapia, marcamos o casamento em Barretos e oficializamos nossa união no dia 5 de junho. Cada momento, uma comemoração. Mas tudo isso só deu certo graças ao amor. Digo isso porque o processo em cada etapa não e nada fácil.

A cirurgia é a etapa mais difícil, é um misto de medo com outros sentimentos. Me assustei muito depois que me vi com a prótese, é estranho e fiquei dias mal até me adaptar. Depois veio as 25 sessões de radioterapia, que também são dolorosas e exigem uma força imensa.

Em meio a dor física, o coração precisa aguentar a saudade da família que ficou longe. Ao mesmo tempo, dentro do hospital, a doença me ensinou muito.

Seria hipocrisia dizer que sou grata a doença, não, ninguém e grato ao câncer. Mas uma coisa não posso negar, muitas coisas mudaram dentro de mim e hoje consigo me enxergar de outra forma. Aqui cada história é mais emocionante que a outra. Fiz questão de conversar com pessoas de todo Brasil e vi como um gesto de amor pela dor do outro faz toda diferença. Tem horas que fica difícil imaginar como isso é possível, mas até nos momentos de dor há beleza, mas isso só se pode enxergar com o amor.

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