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Campo Grande, Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017

21/08/2017 06:10

Ex-escrava, Alice nunca passou pela escola, mas aos 98 anos ensina como poucos

Thailla Torres
Nem um passado difícil é capaz de tirar o sorriso dela que toda manhã encanta a família. (Foto: Rafael Brites)Nem um passado difícil é capaz de tirar o sorriso dela que toda manhã encanta a família. (Foto: Rafael Brites)

Todos os dias, lembrando de um passado difícil, Alice Brites, de 98 anos, deixa uma lição de vida aos filhos. Mãe de 7, avó de 28 e com 41 bisnetos, a sul-mato-grossense é protagonista na vida da família quando narra quatro décadas de trabalhos forçados, um esforço e tanto para mudar o futuro de quem ama.

A leitura clara que ela faz do passado, para a família as vezes é tão desconcertante que parece mentira. Mas ninguém abre mão de escutar a senhorinha falando com vontade de continuar vendo tudo diferente, sempre sorrindo como quem nasceu protegida da tristeza.

Nascida em Maracajú, hoje vive com a família em Sidrolândia. Com baixa visão, precisa do auxílio dos filhos, mas ouve de tudo e tem uma saúde que até impressiona diante da idade. Por telefone, quem narra a história de Alice é a neta, Amélia Brites Teixeira Monteiro, de 47 anos, orgulhosa em poder mais uma vez falar da avó, isso porque recentemente ela foi homenageada no Dia das Mães na Câmara de Vereadores do município.

Todo dia, no café da manhã, Alice lembra do passado. (Foto: Rafael Brites Teixeira)Todo dia, no café da manhã, Alice lembra do passado. (Foto: Rafael Brites Teixeira)

Alice trabalhou 60 anos sem tempo pra si. Ainda na infância foi levada para um fazenda onde por anos viveu em regime de escravidão. "Não tinha voz e nem decisão. Era obrigada a fazer todo o trabalho pesado em um sistema sofrido. Era como as criadas dos patrões, o que eles mandavam, ela tinha que fazer", recorda Amélia.

Todos os dias, quando Alice toma o primeiro café vem as lembranças. As palavras saem como lição de vida para que os filhos trabalhem com dignidade e terem voz diante de seus sonhos. "Ela acorda contando uma história. Lembra da fazenda, das roupas pesadas dos patrões que lavava e torcia na beira do rio. Tinha que deixar tudo limpo a tempo para não sofrer", diz.

A avó não menciona violência naquele tempo, mas nem é preciso, diante do sofrimento que nunca conseguiu esquecer. "Isso nunca ouvimos dela, mas sei que foi um momento muito difícil e pesado. Ela só conseguiu se livrar disso quando conheceu o meu avô e foi embora com ele para outra fazenda".

Mesmo assim a vida continuou difícil. Alice teve sete filhos e o marido enfrentou um sério problema de saúde. Por causa da dificuldade para sustentar a família, era ela quem trabalhava lavando roupa para garantir comida na mesa.

As filhas eram quem lhe ajudava em casa, até que um dia dona Alice cansou. "Ela decidiu ir embora, tentar um novo emprego e mudar de vida. Mas sem estudo, tudo o que conseguiu foi trabalhar em uma casa de família em Campo Grande. Separou do meu avô e foi trabalhar para cuidar dela".

Os filhos sempre deram apoio e reconhecem o esforço da mãe que mesmo sem nunca ter chegado a escola, incentivou todo mundo a estudar. "Até hoje é analfabeta. Mas tem uma inteligência que impressiona. As vezes ela fala umas coisas sobre a vida, sobre como devemos nos comportar que escola nenhuma falaria. Acho que sabendo ou não escrever, ela ensina melhor que muita gente", se orgulha.

Alice com a filha e a neta. (Foto: Rafael Brites Teixeira)Alice com a filha e a neta. (Foto: Rafael Brites Teixeira)

Por isso, no café da manhã filhos e netos sorriem toda vez que Alice começa a contar uma história. O final da conversa faz qualquer adulto sentir o olho lacrimejar. "Ninguém abre mão de escutar. Toda hora alguém serve o cafézinho e incentiva ela a contar algo. Acho que é a maneira que ela encontrou de desabafar e a gente dá toda atenção".

Entre um sorriso e outro, também surge a tristeza. Alice de chora de saudade do filho caçula, único que já faleceu. "Desde quando ele partiu, ela se emociona. Bate uma saudade forte porque não era pra ser dessa forma. Nenhuma mãe deveria enterrar um filho".

As causas da morte ainda são questionáveis para a família. "Ninguém sabe ao certo porque ele morreu. Estava doente, ficou dias na UPA e acabou falecendo. Infelizmente, não temos uma resposta", lamente.

Um dos bisnetos, Rafael Bites Teixeira, é quem grava algumas conversas e aproveita as manhã para fotografar a bisavó. "Ela brinca toda vez que a gente conversa que não é para eu contar a ninguém se ela morrer, porque não quer ninguém triste", conta Rafael.

Carinhosa, Alice fala como ninguém sobre bondade. "Ela ensina muito sobre como ser uma pessoa correta com os outros. Fala que devemos ser pessoas boas e que viemos para fazer o certo. A gente aprende muito com o caráter dela. Porque mesmo diante de tanto sofrimento, ela conseguiu tirar uma lição de tudo e passa isso diariamente pra gente".

Aos 98 anos, ele não tem duvidas que a felicidade que dona Alice carrega é estar ao lado de quem gosta. "Depois de uma vida difícil a recompensa dela é o amor. Acho que isso a mantém viva e lúcida. Mês que vem é aniversário dela, e a gente fica ainda mais feliz em comemorar mais um ano juntos".

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