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Campo Grande, Terça-feira, 21 de Agosto de 2018

18/12/2016 07:10

Fiquei sozinho depois que perdi minha rainha, diz Sebastião sobre o grande amor

Thailla Torres
Sebastião lembra da partida do grande amor e diz que perdeu sua rainha. (Foto: Thailla Torres)Sebastião lembra da partida do grande amor e diz que perdeu sua rainha. (Foto: Thailla Torres)

A cena é de quem vive solitário em uma casinha simples na Vila Margarida. Do imóvel dos fundos, feito de madeira, vem o seu Sebastião, um homem de pouco sorriso e palavras medidas. No primeiro contato, ele diz o que lhe faz falta: "Perdi minha rainha", afirma com os olhos no chão, em tom de saudade. Foram 44 anos juntos, até que um dia a morte os separou e impediu o senhor de viver o sonho das bodas de ouro.

"Acho tão bonito os 50 anos de casamento, mas a vida me tirou ela antes", afirma. Sebastião Pedro de Paulo, tem 75 anos. Pela estrutura e o jeito de falar, até parece ter menos. Foi por acaso que a gente bateu na casa dele em busca de outra informação. A parada acabou surpreendendo ao ouvir sobre o carinho da esposa que partiu.

A mulher amada é Neuza Silva de Paula, que faleceu aos 72 anos, em janeiro, vítima de uma infecção. O homem, de poucas palavras, parece um pouco arredio pelo interesse na história, que para nós significa muito diante de tantos amores passageiros.

Aos poucos ele topa dar entrevista, ali mesmo no portão. O convite para continuar a conversa e olhar o albúm de fotografia, só veio depois.Durante os anos de trabalho, Sebastião foi carpinteiro, servente de obra e marceneiro. Paralelamente, tentava a carreira de músico e era conhecido como Joazito do acordeon. Neuza era quem o acompanhava em todas as apresentações.

Juntos, tiveram três filhas, que também cresceram vendo o pai na busca de alcançar o sucesso. "Já toquei com Délio e Delinha", se orgulha. Hoje, é a música que faz ele matar a saudade. "Ela gostava quando eu tocava", frisa. E agradece por ter a gaita como companheira nos dias de solidão. "Já fico muito sozinho, ainda bem que minha música me diverte".

 

Neuza e Sebastião. (Foto: Arquivo Pessoal)Neuza e Sebastião. (Foto: Arquivo Pessoal)

O imóvel onde vive é uma casa de madeira construída por ele no início do casamento. No terreno ao lado, está a residência de alvenaria, onde viveu com Neuza uma vida e onde ela também esteve nos últimos dias. Nenhum dos lugares passou por reforma, mas Sebastião voltou para a casa de madeira depois que ela se foi. "Voltei para não ficar sozinho e não deixar abandonada a marcenaria que fica ali", afirma.

Nascido em Corguinho, ele conta que a conheceu na região onde morava com a família. "Meu pai tinha uma chácara. E pessoal de fazenda, sabe como que é, dificilmente casava com pessoas de fora. Sempre ia se envolvendo com as pessoas mais próximas", diz o sortudo, que encontrou ali o amor da vida toda. "A gente começou a se aproximar, depois uma conversinha de leve e de amizade virou namoro", recorda. 

Os motivos que o fez tão feliz, foi o jeito alegre e guerreiro de Neuza, que aparenta fazer falta até hoje. Era ela que na maioria do tempo cuidou dele, enquanto esteve ali. "Nunca houve motivo para me queixar. Eu sou calmo, ela não era tanto. Mas sempre fazia bem e tem aquele ditado que quando um não quer, dois não faz, então... era assim com a gente. Não tinha nem o que falar", lembra.

Sebastião ao lado de Neuza e as três filhas. (Foto: Arquivo Pessoal)Sebastião ao lado de Neuza e as três filhas. (Foto: Arquivo Pessoal)

Sintonia parece que não faltava. "A gente sempre combinou bem, hoje não existe mais casal assim, sem separação e nem briga", acredita.

A cumplicidade é até justificada nos signos que Sebastião leva ao pé da letra. "Diz que capricorniano combina muito com gemiano. Acho que é por isso que a gente se dava muito bem. Está comprovado que gêmeos combina, conheço várias pessoas que se dão bem", afirma.

Na casa ao lado de Alvenaria, nada mudou. Sebastião não deixou retirar nem as roupas do lugar desde que sua rainha partiu. Na sala, é recebido com móveis antigos e bastante empoeirados. No quarto onde ela vivia, ainda estão as roupas, o andador e a cama bagunçada. Por conta da desordem, ele pede que não tire fotos.

Na casinha de madeira onde a família começou, portas estão sempre fechadas. Na casinha de madeira onde a família começou, portas estão sempre fechadas.
A pintura desgastada na madeira, é sinal da falta de cuidados.A pintura desgastada na madeira, é sinal da falta de cuidados.

Ali, ainda frequenta a filha caçula, Luciana Rosa de Paula, de 37 anos. Ela recorda a cumplicidade dos pais e comenta a escolha de Sebastião em viver sozinho na casa de madeira. "Se tornou o cantinho dele. Ali tem toda uma história deles dois", diz.

A luta do pai pelo reconhecimento na música ela acredita que também faz parte da tristeza dos dias de hoje, por não ter alcançado um sonho. "Ele sempre foi músico e sempre gostou. Até hoje ele sente bastante por não ter conseguido gravar o CD", conta.

Depois da partida, a solidão se tornou permanente. "A gente entende que as pessoas acabam partindo, mas o que fica é a saudade. No caso deles, sempre foram muito companheiros. Somos uma família católica e de muita fé, isso também foi passado por ela. Então o que fica pra gente é a saudade e a lembrança da força que ela sempre teve", recorda a filha.

Dos últimos momentos, ao lado da rainha, Sebastião detalha até os gestos. "Era muito guerreira e a gente estava ali naquela expectativa que ela saísse do hospital. Mas ela foi perdendo a voz e não conversava mais, só acenava. Na época, eu estava arrumando a cozinha e eu contava isso pra ela, só fazia o gesto com as mãos, assim aplaudindo", descreve.

Na despedida, na porta de casa, justifica o jardim sem gramado e com as plantas em desordem. "Era ela que cuidava", explica, ao lembrar da música que faz os dias, serem melhores. "Minha gaita não está aqui, deixei na casa de um amigo, mas toco aos domingos em um Sarau lá no Estrela do Sul", diz como quem faz um convite.

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