Guardiã da bandeira do Estado, Silla ajudou a contar a história de MS
Artista plástica fez parte da comissão que elegeu um dos maiores símbolos de Mato Grosso do Sul
A casa onde a arte era rotina, o som de instrumentos atravessava madrugadas e onde parte da história de Mato Grosso do Sul ganhou forma, ficou mais silenciosa nesta semana. Tarsila Passarelli Barroso, a Dona Silla, morreu na última terça-feira (13), aos 96 anos, deixando um legado de cultura, memória e identidade sul-mato-grossense.
Artista plástica, musicista e professora, viveu a efervescência cultural de Campo Grande nas décadas de 1970 e 1980. Também foi uma das integrantes da comissão responsável por escolher a bandeira do Estado, logo após a criação de Mato Grosso do Sul, em 1977. Segundo o filho, o analista de sistemas Germano Barroso de Souza Filho, além da participação ela se tornou peça-chave no processo.
“Ela conhecia profundamente a história daqui, os personagens, as famílias. Acabou sendo uma das grandes fontes de informação da comissão”, relembra Germano.
Segundo ele, o processo de escolha da bandeira foi intenso e, por vezes, exaustivo. Um concurso público foi aberto em 1978 e recebeu propostas de todo o Brasil e até do exterior. Sem estrutura física adequada, os integrantes da comissão se reuniam onde era possível. Muitas dessas reuniões aconteceram justamente na casa da família, no bairro Amambaí.
No começo, os encontros eram semanais. Com o aumento das inscrições, passaram a ser diários e se estendiam até a madrugada. “Chegava malote com dezenas de propostas. Eles analisavam uma por uma, vendo se respeitavam as regras da heráldica. Eu ajudava levando café, chamando gente, acompanhando tudo”, conta Germano.
A busca era por algo único. Muitas ideias lembravam bandeiras já existentes, como a do Reino Unido ou dos Estados Unidos. A escolhida, que hoje representa o Estado, passou por ajustes até chegar ao formato atual, incluindo a troca de uma cor marrom por azul, em referência à origem em Mato Grosso.
Para Germano, há uma certeza que o emociona até hoje: “Essa bandeira nasceu dentro da sala da casa dos meus pais”, destaca.
A relação de dona Silla com a bandeira ia além da história, era afetiva. O filho lembra de momentos simples, mas carregados de significado. “Eu estava com ela na rua e ela dizia: ‘olha ela lá, querida’. Eu perguntava o que era e ela apontava para a bandeira”, conta.
Ver o símbolo tremulando era motivo de orgulho constante. Para a família, cada hasteamento carregava um pouco da história vivida dentro de casa.
Filha e neta de músicos, dona Silla cresceu em meio a instrumentos e saraus. Esse ambiente seguiu firme na vida adulta. Em casa, nunca faltavam música, poesia ou conversas entre artistas e intelectuais da cidade.
Ela tocava violão, acordeão e piano, além de se dedicar à pintura, ensinando técnicas em tela, porcelana e gravura. Formou alunos, incentivou novos talentos e ajudou a movimentar a cena cultural de Campo Grande, inclusive organizando exposições.
“Ela tinha um jeito acolhedor, era muito carismática, simpática, gostava de cozinhar, de reunir gente, de cuidar dos animais. Lá em casa sempre teve de tudo”, lembra o filho.
Dona Silla teve três filhos e construiu uma família marcada pela mesma sensibilidade artística que herdou.
Nos últimos anos, ela seguia lúcida, mas uma infecção urinária agravou rapidamente o quadro de saúde. Ela passou os últimos dias internada e cercada por familiares e amigos, em um ambiente de cuidado e afeto.

“Foi tudo muito tranquilo, com muita paz. Sem dor, sem desespero. Ela deu alguns suspiros e partiu. Foi uma passagem serena”, afirma.
Entre telas, memórias e histórias, Silla deixa também um símbolo que segue vivo no cotidiano de milhões de sul-mato-grossenses. “A gente passa e vê a bandeira lá, tremulando. É emocionante. Representa a paz, a força, a riqueza do nosso povo”, finaliza o filho.
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