Consultor diz que falta de mão de obra no agro é problema de gestão de pessoas
Especialista afirma que produtor precisa investir na retenção de trabalhadores tanto quanto em tecnologia

A dificuldade para contratar e manter trabalhadores tem sido apontada por produtores rurais como um dos principais gargalos do agronegócio em Mato Grosso do Sul. Em um momento de expansão de atividades como a pecuária, a silvicultura, a citricultura e a produção de grãos, a disputa por mão de obra qualificada se intensifica. Para o psicólogo e consultor em educação organizacional Aldo Aguilar Bianco, porém, o problema vai além da escassez de profissionais disponíveis.
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A análise foi apresentada durante a divulgação dos resultados do Benchmarking da Estação de Monta 2025/2026, promovido pelo Grupo Aliança Assessoria e Consultoria Pecuária, em Campo Grande.
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Com 35 anos de experiência executiva em instituições financeiras, como Itaú e Itaú Private Bank, e há mais de duas décadas atuando como consultor do setor agropecuário, Bianco defende que a principal dificuldade das propriedades está na forma como as pessoas são geridas. "O problema não é falta de gente. É falta de investimento em gestão de pessoas", resume.
Segundo ele, existem propriedades rurais que conseguem manter colaboradores por cinco, dez anos ou mais e ainda têm fila de interessados em trabalhar. Em outras, a rotatividade é constante. A diferença, afirma, está na maneira como o trabalhador é recebido, valorizado e desenvolvido.
"O produtor cuida muito bem do animal, acompanha toda a cadeia produtiva. Agora ele precisa olhar para o ser humano com a mesma atenção, porque todo esse processo exige o toque humano", afirma.
Na avaliação do consultor, muitos empregadores ainda atribuem a dificuldade de contratação exclusivamente à falta de mão de obra, quando o problema pode estar dentro da própria propriedade.
Para ele, o trabalhador permanece onde encontra respeito, diálogo, oportunidades de aprendizado e reconhecimento. "É um ser humano que chega com uma marmita e um sonho para realizar. Quando ele se sente acolhido, cria raízes", afirma.
Bianco ressalta que a realidade do campo mudou. Mesmo trabalhadores com baixa escolaridade têm acesso à informação por meio do celular e conhecem as oportunidades oferecidas por outras empresas e propriedades rurais. "O que faz ele ficar não é apenas o salário. É como ele é tratado."
Outro ponto destacado pelo especialista é o papel da liderança direta dentro da fazenda. Segundo ele, quem determina a permanência do colaborador não é necessariamente o proprietário, mas o gestor que acompanha o trabalho diariamente. "O funcionário não trabalha para o dono da fazenda. Ele trabalha para o gestor que está com ele todos os dias."
Por isso, ele defende que encarregados, gerentes e líderes de equipe sejam preparados para exercer uma gestão baseada em diálogo, empatia e desenvolvimento das pessoas. "A conexão e a empatia são fundamentais. Se nós não nos colocarmos no lugar da pessoa que tem um sonho para realizar, ela não compra o propósito da empresa."

Bianco afirma que um dos maiores custos ocultos das propriedades rurais está na alta rotatividade de funcionários. Segundo ele, em muitas fazendas os trabalhadores deixam o emprego antes mesmo de completar 90 dias, obrigando a empresa a repetir processos de contratação, treinamento e desligamento. "Demitir custa caro. Rescisões, ações trabalhistas e novas contratações representam um custo que muitas vezes passa despercebido."
Na avaliação do consultor, boa parte desse dinheiro poderia ser direcionada para investimentos em capacitação, desenvolvimento de equipes e melhoria do ambiente de trabalho. Ele também defende que os produtores acompanhem indicadores de retenção de pessoas com o mesmo rigor utilizado para monitorar índices zootécnicos e financeiros da propriedade.
O especialista destaca que nem todos os colaboradores estão no mesmo estágio de desenvolvimento profissional. Segundo ele, há quem esteja começando e precise aprender praticamente tudo, trabalhadores em fase de desenvolvimento, profissionais experientes e aqueles considerados estratégicos para o negócio.
Por isso, afirma, embora todos devam ser tratados com respeito, reconhecimento e valorização, os planos de desenvolvimento e remuneração precisam considerar essas diferenças.
"Você não pode tratar todos os graus de maturidade da mesma forma. O respeito é igual para todos, mas o reconhecimento precisa considerar o nível de desenvolvimento de cada profissional."
Sucessão é continuidade, não apenas herança
Além da gestão de pessoas, Bianco também abordou outro desafio comum nas propriedades rurais: a sucessão familiar. Na visão do consultor, o termo sucessão já não traduz completamente o desafio enfrentado pelas famílias do campo. "Eu prefiro falar em continuidade dos negócios da família."
Segundo ele, preparar a nova geração vai muito além da transferência patrimonial. É necessário formar líderes capazes de preservar os valores construídos pelo fundador e, ao mesmo tempo, profissionalizar a gestão da propriedade.
"O continuador pode ser até melhor que o fundador, desde que exista um processo estruturado de formação."
Para Bianco, garantir a continuidade do negócio familiar depende da combinação entre planejamento, desenvolvimento das pessoas e fortalecimento da cultura da empresa rural. “Gestão hoje não é apenas gerar resultado. É gerir pessoas e processos. O resultado vem como consequência."

