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Meio Ambiente

Rios cheios em MS contrastam com seca extrema na Bacia do Paraguai

Chuvas elevaram afluentes do Pantanal, mas recuperação é desigual e déficit hidrológico ainda preocupa

Por Inara Silva | 21/10/2026 19:42
Rios cheios em MS contrastam com seca extrema na Bacia do Paraguai
Rio Paraguai permanece abaixo das medianas em Ladário, Forte Coimbra e Porto Murtinho (Foto: Divulgação/SGB)

As chuvas recentes elevaram os níveis dos rios Miranda e Aquidauana acima da faixa histórica de normalidade em Mato Grosso do Sul, mas ainda não são suficientes para caracterizar uma recuperação hidrológica de toda a Bacia do Paraguai.

RESUMO

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As chuvas recentes elevaram os rios Miranda e Aquidauana acima da faixa histórica em Mato Grosso do Sul, mas não bastam para indicar recuperação da Bacia do Paraguai, segundo boletim do SGB divulgado em 21 de outubro. O Miranda atingiu 6,70 metros, e o Paraguai marcou 1,25 metro em Ladário, ainda dentro da normalidade. O Cemaden aponta seca hidrológica extrema em 12 meses. O SGB prevê nova queda do Paraguai e o El Niño pode dificultar a recuperação do Pantanal.

O contraste aparece no boletim divulgado nesta quarta-feira (21) pelo SGB (Serviço Geológico do Brasil) e é explicado por pesquisadores que apontam diferenças na distribuição das chuvas, no tempo de resposta dos rios e nos efeitos da seca acumulada.

Enquanto o Rio Miranda, na estação de Miranda, atingiu 6,70 metros, quase 4,70 metros acima da mediana histórica para 21 de outubro, o Rio Paraguai registrou 1,25 metro em Ladário, 53 centímetros abaixo da mediana para a mesma data. Apesar dessa diferença, o nível do Paraguai permanece dentro da faixa considerada normal pelo SGB.

A situação ajuda a compreender por que o Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) identificou seca hidrológica extrema em grande parte da bacia, mesmo diante da elevação recente de afluentes no Pantanal sul-mato-grossense. O diagnóstico, referente a setembro, considera as condições de chuva e vazão acumuladas em 12 meses e não significa que todos os rios estejam enfrentando a mesma situação.

Segundo o boletim do SGB, o Rio Aquidauana também apresenta nível elevado. Na estação Palmeiras, em Dois Irmãos do Buriti, a medição chegou a 2,93 metros, contra uma mediana histórica de 1,67 metro para a data. Já o Rio Paraguai permanece abaixo das medianas em Ladário, Forte Coimbra e Porto Murtinho, embora dentro das respectivas faixas de normalidade.

Recuperação desigual - Em resposta ao Campo Grande News, o SGB informou que as chuvas do início de outubro provocaram uma recuperação parcial e espacialmente desigual dos rios da bacia. O órgão ressalta que ainda não existem evidências suficientes para afirmar que essa recuperação esteja consolidada.

Conforme o boletim de 21 de outubro, nos últimos 28 dias as áreas de contribuição monitoradas dos rios Aquidauana e Taquari acumularam, respectivamente, 202 e 205 milímetros de chuva. Na região do Alto Paraguai, o acumulado foi de 111 milímetros.

Os volumes também variaram nos últimos sete dias, evidenciando que as chuvas não atingiram todas as regiões com a mesma intensidade. A diferença interfere diretamente na quantidade de água que chega aos rios e na velocidade com que seus níveis se alteram.

O SGB explica que, além da distribuição das chuvas, a umidade do solo, a vegetação, a infiltração e a capacidade de armazenamento de água influenciam a resposta de cada bacia.

Segundo o Serviço Geológico, no Pantanal, esse processo é ainda mais complexo. Parte da água que chega aos rios se espalha pelas planícies inundáveis e fica temporariamente armazenada antes de seguir seu percurso. Por isso, a elevação de um afluente não provoca necessariamente uma subida imediata e equivalente no Rio Paraguai.

O órgão acrescenta que as chuvas no sul de Mato Grosso do Sul tendem a repercutir mais rapidamente em Porto Murtinho. Já as precipitações no Mato Grosso podem levar, em média, até um mês para produzir efeitos no nível do Paraguai em Ladário, dependendo da região onde ocorreram.

Rios cheios em MS contrastam com seca extrema na Bacia do Paraguai

Seca acumulada - Em entrevista ao Campo Grande News, a hidróloga e pesquisadora Elisângela Broedel, do Cemaden, esclarece que não existe contradição entre a elevação recente dos rios sul-mato-grossenses e o diagnóstico de seca hidrológica extrema na Bacia do Paraguai. Segundo ela, a diferença está relacionada à distribuição espacial das chuvas e aos períodos considerados no monitoramento.

O Cemaden utiliza o TSI (Índice de Seca Bivariado Chuva-Vazão), que combina informações de precipitação e vazão para avaliar as condições hidrológicas em diferentes escalas temporais.

O monitoramento referente a setembro de 2026 identificou seca hidrológica extrema, na escala de 12 meses, nas áreas de contribuição das estações de Ladário e Porto Murtinho, abrangendo grande parte da Bacia do Paraguai.

Entretanto, a pesquisadora informa que as avaliações de 3 e 6 meses já apresentam condições de seca menos críticas, refletindo a melhora observada em períodos mais recentes. Na escala de 12 meses, porém, os déficits acumulados continuam suficientes para manter a classificação extrema.

A pesquisadora ressalta que essa classificação não significa que a seca seja homogênea em toda a bacia. As condições podem variar entre as porções norte e sul e também entre os diferentes afluentes.

As sub-bacias dos rios Miranda, Aquidauana e Taquari, por exemplo, não são classificadas individualmente pelo TSI. Embora integrem a área de contribuição monitorada em Porto Murtinho, não é possível atribuir a cada uma delas a condição de seca extrema com base nesse indicador.

Essa distinção também explica por que os níveis do Rio Paraguai podem estar dentro da faixa histórica de normalidade, segundo o SGB, enquanto o Cemaden identifica seca extrema na avaliação acumulada. Os dois monitoramentos utilizam indicadores diferentes e não descrevem a mesma condição.

Rios cheios em MS contrastam com seca extrema na Bacia do Paraguai

Previsão - Apesar das chuvas recentes, o boletim do SGB indica que o comportamento dos rios continuará variável nas próximas semanas. Para os próximos sete dias, a previsão é de 18 milímetros de chuva, em média, na bacia, com maior volume esperado na região do Miranda, de 43 milímetros, e menor em Barra do Bugres, no Mato Grosso, de 5 milímetros.

Em Ladário, o Rio Paraguai registrou 1,25 metro nesta quarta-feira, com redução de dois centímetros em sete dias. As projeções indicam nova queda de 13 centímetros até 28 de outubro e de 22 centímetros até 4 de novembro, quando o nível poderá chegar a 1,03 metro.

O boletim também apresenta uma estimativa de longo prazo, baseada na comparação do comportamento atual do rio com registros históricos desde 1900. Nesse modelo, a projeção central indica um nível mínimo de 1,01 metro em 11 de novembro. No cenário mais desfavorável entre os anos históricos selecionados, a cota poderia chegar a 52 centímetros em 29 de novembro.

El niño - Para o Cemaden, a recuperação hidrológica do Pantanal sul-mato-grossense também dependerá das chuvas dos próximos meses. Segundo Elisângela, os modelos climáticos globais indicam que as anomalias positivas de precipitação associadas ao El Niño tendem a se concentrar na região Sul do Brasil.

Nesse cenário, o Pantanal de Mato Grosso do Sul poderá enfrentar condições menos favoráveis à recuperação hidrológica, embora ainda existam incertezas sobre a quantidade e a distribuição das chuvas.

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