Na UFMS, agricultor e professora trocam saberes para produzir medicamentos
Farmácia Viva cultiva 70 espécies e prepara produção de fitoterápicos para distribuição pelo SUS em 2028
Confira a galeria de imagens:
Aos 63 anos, João Batista Lima conhece os cuidados com a terra pela experiência acumulada ao longo da vida. No Grande Horto de plantas medicinais da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), em Campo Grande, ele coloca esse conhecimento em prática no cultivo de espécies que poderão ser transformadas em medicamentos.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
A Farmácia Viva da UFMS, em Campo Grande, une o conhecimento rural de João Batista Lima à pesquisa científica para cultivar plantas medicinais e produzir fitoterápicos. Das 70 espécies do horto, guaco, erva-baleeira, capim-cidreira e colônia foram escolhidas para atender ao SUS. A equipe já desenvolveu protótipos, mas aguarda adequações nos laboratórios e licença sanitária. A previsão é iniciar a distribuição dos medicamentos em 2028.
Ao lado dele está a professora e farmacêutica Soraya Solon, responsável pela coordenação do projeto Farmácia Viva na universidade. Enquanto João compartilha o que aprendeu no campo, Soraya contribui com o conhecimento científico necessário à produção de fitoterápicos. Na convivência diária, os dois também aprendem um com o outro.
- Leia Também
- Edital prevê R$ 53 mil em equipamentos para Farmácia Viva
- MS recebe R$ 1 milhão para programa de plantas medicinais no SUS
A troca entre o conhecimento tradicional e o científico acontece diariamente em uma área de 7 mil metros quadrados destinada ao cultivo. Enquanto João cuida das plantas, Soraya coordena as atividades do projeto na universidade, que incluem o cultivo, o processamento, a manipulação, a dispensação e o controle de qualidade das matérias-primas utilizadas na preparação de medicamentos fitoterápicos.
João conta que aprendeu a trabalhar com plantas ainda criança, a partir da experiência no meio rural e dos ensinamentos transmitidos por pessoas mais antigas. Entre os conhecimentos que preserva está a observação das fases da Lua para orientar o plantio e a poda, prática tradicional que continua utilizando.
"A própria natureza ensina a gente a trabalhar", conta.
Segundo ele, a Lua crescente é o período que prefere para plantar, enquanto reserva a minguante para a poda. A prática faz parte dos conhecimentos populares que acumulou ao longo da vida.
Ciência e sabedoria popular - Apesar da experiência, João reconhece que o trabalho na universidade ampliou seus conhecimentos. Algumas das plantas cultivadas no horto eram desconhecidas para ele. De outras, sabia da existência, mas não conhecia os nomes. O contato com a professora e com as atividades do projeto permitiu que aprendesse a identificar novas espécies.

A aprendizagem também acontece no sentido contrário. Soraya afirma que, no início da implantação do horto, não dominava as técnicas práticas de cultivo e produção de mudas. Foi com a experiência de João e em um curso específico que passou a compreender melhor essa etapa do trabalho.
A professora reconhece a importância dele para os resultados alcançados. "Nós só existimos como existimos por causa dele", afirma.
Plantio - O projeto previa inicialmente o plantio de 125 unidades de cada uma das quatro espécies selecionadas para a produção de fitoterápicos. Segundo Soraya, João conseguiu ampliar esse número para 240 plantas de cada espécie.
A coordenadora explica que a equipe também recebe orientação de um engenheiro agrônomo com experiência em Farmácia Viva. O acompanhamento técnico complementa o conhecimento prático aplicado ao cultivo e auxilia no planejamento da produção.
O horto ocupa atualmente 7 mil metros quadrados de um hectare disponibilizado pela UFMS. A área restante ainda depende da ampliação do sistema de irrigação. Além das espécies destinadas à produção de medicamentos, o espaço recebe atividades de ensino e extensão, com participação de estudantes de diferentes cursos, crianças e idosos.
Do cultivo à produção - A Farmácia Viva MS é desenvolvida em parceria entre a SES (Secretaria de Estado de Saúde) e a UFMS, com apoio da Fapec (Fundação de Apoio à Pesquisa, ao Ensino e à Cultura). O projeto recebeu cerca de R$ 1 milhão em recursos federais (R$987.302,26), destinados à estruturação das atividades de cultivo, colheita, processamento, manipulação e controle de qualidade dos fitoterápicos.
Embora o horto reúna 70 espécies medicinais, quatro foram selecionadas inicialmente para a produção de medicamentos destinados ao SUS (Sistema Único de Saúde): guaco, erva-baleeira, capim-cidreira e colônia.
A escolha levou em consideração as necessidades de saúde da população de Mato Grosso do Sul, além das características das plantas e da viabilidade de cultivo.
Segundo a supervisora do projeto pela SES, Márcia Gutierrez, a definição das espécies foi precedida de um levantamento epidemiológico para identificar quais produtos poderiam atender às demandas da população.
O guaco foi selecionado para a produção de xarope, considerando a ocorrência de problemas respiratórios e a utilização desse fitoterápico nos serviços de saúde. A erva-baleeira será utilizada na preparação de um gel com ação anti-inflamatória, pensado como uma opção complementar para pacientes com problemas articulares.
Já o capim-cidreira e a colônia estão previstos para preparações de plantas secas destinadas ao uso medicinal em chá, conforme as indicações estabelecidas para cada espécie. Márcia explica que a proposta busca ampliar as possibilidades de tratamento disponíveis na rede pública, respeitando as indicações terapêuticas e os critérios de segurança dos medicamentos.
Para que as plantas cultivadas no horto se transformem em fitoterápicos, o trabalho precisa cumprir uma série de etapas. Depois da colheita, o material passa por seleção, limpeza, secagem e armazenamento. As amostras são submetidas a análises físico-químicas e microbiológicas antes de serem liberadas para a preparação farmacêutica.
Soraya explica que os procedimentos permitem verificar a qualidade das matérias-primas e garantir a rastreabilidade dos lotes, desde a origem das plantas até a preparação final. O projeto também envolve laboratórios e serviços de controle de qualidade, incluindo o Laboratório Central de Saúde Pública.
Atualmente, a equipe realiza testes de processamento e já desenvolveu protótipos de xarope de guaco, gel de erva-baleeira, além das ervas secas de capim cidreira e colônia. Os produtos, entretanto, ainda não estão autorizados para distribuição regular aos pacientes.
Produção vai atender ao SUS - A meta do projeto é produzir anualmente 40 mil frascos de xarope de guaco, 16 mil bisnagas de gel de erva-baleeira, 800 embalagens de 100 gramas de capim-cidreira e outras 800 de colônia. A previsão informada pela SES é que os fitoterápicos comecem a ser disponibilizados à população em 2028, após a conclusão das etapas estruturais e sanitárias.
Para iniciar a produção regular e a dispensação dos fitoterápicos, a Farmácia Viva ainda precisa concluir adequações na estrutura dos laboratórios e obter a Licença Sanitária. Segundo Márcia, o projeto já recebeu a Certidão de Regularidade Técnica do CRF/MS (Conselho Regional de Farmácia de Mato Grosso do Sul), documento necessário para o processo de regularização. A Vigilância Sanitária também realizou uma visita técnica e apresentou as exigências que precisam ser atendidas para poder autorizar a produção de medicamentos.

A professora Soraya explica que parte das adequações envolve mudanças na estrutura física dos laboratórios, como portas, ralos e torneiras. Embora equipamentos de cultivo e processamento já tenham sido adquiridos, ainda há materiais necessários às atividades de manipulação e controle de qualidade.
Conforme Soraya, além da produção de medicamentos, a Farmácia Viva pretende funcionar como referência estadual para apoiar municípios interessados em desenvolver hortos de plantas medicinais. Ela afirma que os municípios de Itaporã e Rio Verde já demonstraram interesse em iniciativas desse tipo.
A proposta inclui orientação técnica, produção de mudas e atividades educativas voltadas ao uso seguro das plantas medicinais, além da formação de profissionais de saúde para a utilização dos fitoterápicos.
Enquanto aguardam a autorização da Vigilância Sanitária, o trabalho continua. Para João, que trabalha há cerca de dois anos e meio com as plantas medicinais no local, acompanhar o desenvolvimento das espécies e vê-las transformadas em preparações farmacêuticas é motivo de satisfação.
"Eu fico feliz", diz, ao falar sobre o guaco que ajudou a cultivar e que já deu origem a um protótipo de xarope.
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.
















