Treinar todo dia faz bem? Especialistas explicam quando o corpo pede descanso
Nas academias hoje, busca equilibrada não é só por aparência, mas por autonomia na velhice
O resultado da academia nem sempre aparece primeiro no espelho. Ele também pode estar na facilidade para subir uma escada, carregar compras ou se levantar de uma cadeira. Entre o desejo de mudar a aparência e a preocupação em envelhecer com autonomia, o desafio é fazer do treino um cuidado que respeite os limites do corpo.
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A prática de musculação em Campo Grande revela diferentes motivações, unindo a busca por estética ao desejo de autonomia na velhice. Enquanto jovens buscam resultados visuais, idosos focam na prevenção da sarcopenia para manter a mobilidade. Especialistas alertam que o fortalecimento deve respeitar os limites individuais e evitar o overtraining. O equilíbrio entre exercícios e recuperação é essencial para garantir saúde muscular, prevenir doenças e assegurar a qualidade de vida.
Sirlei Machado, de 73 anos, comemora uma conquista na academia: conseguir fazer agachamento. Depois de uma vida de trabalho como vendedora, ela encontrou na aposentadoria tempo para cuidar dos músculos e preservar a autonomia.
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“Hoje eu já consigo fazer agachamento bem direitinho. Tenho só uma dor no quadril que me impede de fazer algumas coisas, mas minha personal é muito querida e entende as minhas limitações”, relata.
Ela começou a fazer caminhadas quando entrou na terceira idade, mas parou ao ser diagnosticada com um melanoma. “Campo Grande é muito quente e a médica recomendou evitar o sol. Aí preferi ir para a academia”, conta. Após encarar alguns meses de musculação sozinha, decidiu contratar uma personal trainer, que a acompanha há seis meses.
Sirlei diz que não chegou a perceber dificuldades nas tarefas do dia a dia, como subir escadas ou se levantar. O esforço é justamente para preservar essa capacidade e prevenir a sarcopenia, condição que envolve perda de força e de massa muscular ao longo do envelhecimento.

Contraste - Com 50 anos a menos que dona Sirlei, a esteticista Marisa Folhes faz musculação pensando em ter boa mobilidade na velhice, mas também quer resultados mais imediatos. “Criar corpo sem engordar muito”, resume.
A jovem pratica musculação todos os dias, há 2 anos, e conta com acompanhamento de nutricionista. Ela diz que, às vezes, exagera nos treinos e cede à pressão estética. “É que eu me cobro”, admite. O relato, porém, não significa que ela tenha um diagnóstico de overtraining, síndrome relacionada ao desequilíbrio entre esforço e recuperação.
A amiga Juani Bastos, de 22 anos, trabalha na mesma clínica de estética que Marisa. Ela diz que vê muitos clientes buscando tratamentos rápidos que nem sempre entregam o esperado. Por outro lado, acredita que a busca por um corpo padrão acaba motivando algumas pessoas a mudar o estilo de vida.
“Às vezes faz até bem se preocupar com a aparência. Eu conheço pessoas que tinham obesidade, por exemplo, e por causa dessa preocupação acabaram tomando hábitos mais saudáveis na vida, como ir para a academia. Mas quando é exagerado, a pessoa está com uma distorção de imagem, são outros quinhentos. Na clínica, aparece gente buscando essa visão do perfeito, que não existe. Temos que situar a pessoa, dizer até onde ela pode alcançar, onde ela não pode”, pondera Juani.
Qual a motivação? - A vontade de ganhar músculos pode nascer do espelho ou do desejo de manter força e autonomia - e essas motivações podem caminhar juntas. Enquanto prevenir a sarcopenia significa preservar a capacidade muscular para atividades como levantar da cadeira e carregar compras, aumentar o treino sem recuperação suficiente pode comprometer o próprio desempenho.
Quando esse desequilíbrio se prolonga, uma das possibilidades é a síndrome de overtraining, que envolve queda persistente de rendimento e pode vir acompanhada de fadiga e alterações de humor. Não se trata apenas de sentir cansaço depois da academia, nem de uma consequência exclusiva da busca estética: o diagnóstico exige avaliação e descarte de outras causas.
Equilíbrio - Entre preservar a mobilidade e buscar mudanças na aparência, a atividade física precisa considerar as condições e os limites de cada pessoa. O geriatra Marcos Blini destaca a importância dos exercícios de força para ganhar saúde e disposição, tanto entre jovens quanto entre idosos.
“Pouco não é bom porque a pessoa precisa de uma ‘poupança de músculos’. Assim, caso ela for internada, terá mais chances de manter a mobilidade após a alta e não precisar de muletas, cadeira de rodas”, explica o médico.
O boom da indústria de bem-estar e a onda de compartilhamentos de treino, alimentação, corpo e suplementação nas redes sociais parecem produzir um bom efeito por um lado, apesar de pressionar por outro.
“Uma coisa muito interessante é que a adesão à atividade física está mais fácil para os meus pacientes. Às vezes, nem preciso sugerir. Ele chega no consultório já querendo começar alguma”, conta o geriatra. Ele acredita que isso seja influência dos discursos sobre corpo e saúde que circulam na internet e nas conversas do dia a dia.
Aparência e força - A personal trainer Giovanna Nantes explica que a aparência não conta toda a história quando se fala de fortalecimento. O tamanho dos músculos, sozinho, não mostra como a pessoa se sai nos movimentos.
“Você pode treinar todos os dias em alta intensidade, ter um bíceps de 40 cm e ainda assim ser incapaz de fazer uma flexão no chão. Bem como um senhor de idade, ex-militar, e com perda de massa muscular avançada fazer 12 flexões padrões no chão”, compara.
Na rotina de trabalho, Giovanna usa a bioimpedância para estimar a composição corporal e ajudar a planejar os exercícios. A avaliação, porém, não substitui a observação da força, dos movimentos e das limitações de cada aluno.
Para a profissional, conhecer essas necessidades ajuda a definir a intensidade e o volume do treino. “Uma intervenção em treinamento físico precisa ter um olhar de dentro pra fora”, pontua.
Emagrecimento - Giovanna conta que também tem atendido pessoas que precisam se recuperar de um emagrecimento sem acompanhamento adequado. Por vezes, segundo ela, isso ocorre após o uso de canetas emagrecedoras por conta própria.
“Esse emagrecimento leva à perda de massa gorda e magra, causando flacidez e perda de desempenho, com cansaço e pouca disposição para atividades diárias, desânimo, pouco tônus muscular, diminuição da força de pressão manual, dores que aparecem ou voltam a aparecer”, detalha a profissional de educação física.
A perda de massa muscular nem sempre está associada à velhice ou ao emagrecimento. Também pode ocorrer em pessoas com excesso de peso. “Chamamos de obesidade sarcopênica”, explica o geriatra, que destaca a necessidade de associar os cuidados com a alimentação à atividade física.
Para Sirlei, o treino segue no ritmo das próprias possibilidades. Com acompanhamento e respeito à dor no quadril, ela mantém o esforço para continuar realizando os movimentos que hoje consegue fazer sozinha.
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