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A longa jornada da ciência público adentro

Por Peter Schulz (*) | 01/07/2022 08:30

Volta e meia, pequenas lembranças nos levam a revisitar a jornada de uma longa carreira. No meu caso, uma dessas memórias é dos anos 1990, no começo da minha trajetória docente no Instituto de Física da Unicamp. Em um belo dia, um colega proeminente mostrou-nos um envelope pardo, grosso, cujo remetente era um engenheiro militar de alta patente reformado, endereçado à direção do Instituto. Todos riram do conteúdo e, como ninguém dedicou mais atenção a ele, o envelope ficou esquecido na minha mesa de trabalho e acabou sendo descartado em alguma das limpezas periódicas das pilhas de documentos acumulados. Sim, cientistas, grandes ou pequenos, são acumuladores natos.

O conteúdo do envelope trazia um projeto tecnicamente consistente de um “revolucionário” sistema de sinalização em instalações estratégicas. Até aí apenas algo incomum: por que enviar para um instituto de física e não para uma faculdade de engenharia? O mais inusitado era uma carta que acompanhava o tal projeto na qual o autor solicitava que o nosso instituto recomendasse o projeto para o prêmio Nobel de Física daquele ano! Volta e meia eu me lembro desse candidato ao folclore da nossa instituição, tentando especular sobre as motivações que o teriam levado a fazer tal pedido. Uma pista está na lista de prêmios Nobel. O de 1912 foi concedido a Nils Gustav Dahlén (1869-1937, físico sueco que depois fundou uma fábrica de fogões) "pela invenção da válvula solar projetada para ser utilizada combinada com acumuladores de gases em faróis e boias", algo ligado a equipamentos estratégicos de sinalização marítima.

Então, poderia ter pensado nosso engenheiro: por que não o meu sistema? Outra pista talvez seja uma autoestima um pouco elevada com uma pitada de aperreação em função da falta de reconhecimentos outros. O Nobel seria um belo troco contra possíveis desafetos. Mas essas são especulações para um conto e me afastam da visita às minhas lembranças que mencionei no início. Como já disse, ri do “causo” e talvez tenha guardado o envelope para um acervo de anedotários que nunca compus. Obviamente, na época, ninguém se deu o trabalho de responder ao engenheiro. Hoje, no entanto, eu teria respondido com uma longa carta, explicando como a ciência funciona.

Como campo de conhecimento institucionalizado, na ciência, a validação, legitimação e o reconhecimento não acontecem, como talvez na literatura, por meio de concursos literários, aos quais anônimos podem submeter contos inéditos e, eventualmente, receber um prêmio, que, às vezes, acaba alavancando uma próspera carreira nas letras. O nosso personagem era um cientista marginal, lembrando um dos inúmeros comportamentos e ações que querem ser ciência, mas não são. Mas cuidado, há uma sutileza que em geral parece escapar nessas discussões que tentam demarcar o que é ciência e não é. Vejamos o conceito de ciência marginal (fringe science), que eu empresto da Wikipédia:

“As teorias da ciência marginal são muitas vezes propostas e defendidas por pessoas que não possuem experiência ou formação acadêmica tradicional, ou por pesquisadores de fora do mainstream da disciplina. O público em geral tem dificuldade em distinguir entre a ciência e os seus imitadores, e, em alguns casos, um ‘desejo de acreditar, ou uma desconfiança generalizada em especialistas, constitui um potente incentivo para aceitar reivindicações pseudocientíficas”.

Não sei se é o caso do nosso personagem, afinal o que ele propunha parecia consistente com o mainstream da engenharia, mas ele aponta para outra “marginalidade”: uma possível ciência fora do espaço institucional e desconhecedora das tradições e práticas nesse âmbito. Era o que eu teria tentado explicar em uma longa carta, juntamente com dicas de como trilhar o caminho para ser ouvido dentro do espaço institucional, mas avisando delicadamente que o Nobel consistia em um delírio.

A definição usual de ciência marginal menciona o conceito de ciência como conhecimento e seus métodos, mas deixa de lado a ideia de ciência como uma organização de atividades próprias e de como ela funciona e é regulada. E aqui uma auto advertência: já escrevi sobre o tema várias vezes, então preciso evitar autoplágio e, principalmente, não repetir o que já foi esmiuçado por tantos outros e que, por ignorância, desconheço. Mas não consigo evitar imaginar a analogia entre ciência marginal e poesia marginal, ou teatro marginal, como o “off-off-Broadway”, ou o Fringe Festival de Edimburgo. Seria possível um cientista marginal assim como Paulo Leminski foi um poeta marginal? Cuidado, não é assim que funciona a ciência, mas sim, às vezes acontece, como já escrevi sobre os territórios da ciência[I]. Mas eis então a pergunta fundamental: qual é o entendimento do público sobre ciência? O público sabe como e onde se faz ciência?

Na mesma época em que o causo do envelope aconteceu, o Public Understanding of Science (entendimento público de ciência) começava a ganhar um espaço maior na comunidade acadêmica, sendo aliás o título de um comentário importante publicado na revista Nature em 1989[II]. Mas afinal: por que deveríamos nos preocupar sobre o entendimento público de ciências? Dadas há mais de 30 anos, são quatro as respostas para essa pergunta. Todas consistentes, elas seguem compartilhadas hoje em dia:

“dado que a ciência é a maior realização da nossa cultura, o público merece conhecê-la; a ciência afeta o nosso cotidiano, assim o povo precisa saber sobre isso; muitas políticas públicas envolvem ciência e elas só podem ser genuinamente democráticas se elas resultam de um debate público bem-informado, e, finalmente; a ciência recebe financiamento público e tal financiamento é (ou deveria ser) baseado, pelo menos, em um mínimo conhecimento público sobre ciência.”

Os autores do comentário na Nature acrescentam uma citação de Issac Asimov sobre as diferenças entre entendimento e ignorância sobre ciência que são, nas palavras do escritor, “a diferença entre respeito e admiração, por um lado, e ódio e temor, por outro.” Portanto, segundo a tese do comentário ilustrado aqui, “o bom senso sugere que a comunidade científica seria insensata em presumir um contínuo apoio do público que conheça pouco sobre o que os cientistas fazem”. Esse parágrafo inicial, em certo do tom de manifesto, introduz o objetivo do texto como um todo: a apresentação de uma ampla pesquisa sobre percepção pública de ciência realizada no Reino Unido em 1988.

Os resultados dessa pesquisa são similares aos de várias outras feitas periodicamente desde então, inclusive no Brasil: o interesse e confiança na ciência são grandes, mas o conhecimento de conceitos científicos básicos é insuficiente, enquanto o conhecimento sobre quem e onde se faz ciência é menor ainda. Uma observação: nesta pesquisa não havia perguntas que ajudariam a entender melhor a percepção do nosso personagem, candidato ao Nobel, sobre ciência como organização. Era assim em 1989 no Reino Unido e é assim no Brasil 30 anos depois, em 2019, data da última pesquisa feita aqui. Esmiuçar isso valeria um texto a parte, mas eu me detenho em um dos autores desse artigo na Nature, John R. Durant.

Em 1992, Durant lançou uma revista científica com revisão por pares chamada exatamente Public Understanding of Science, que este ano, por sinal, completa três décadas de existência. No editorial, ele justifica o lançamento pela necessidade de reunir em um periódico científico as crescentes contribuições acadêmicas sobre percepção pública da ciência espalhadas em revistas dedicadas a outros temas. Contribuições com fortes articulações interdisciplinares e “não paroquiais”: consolidava-se assim uma área de pesquisa. Mas o editorial deixa escapar que a motivação para o lançamento da nova revista também era a preocupação dos cientistas com a percepção de seu trabalho, os cortes de financiamento na era Margaret Thatcher (primeira-ministra do Reino Unido de 1979 a 1990) e a emergência de novas iniciativas de avaliação da pesquisa, mais baseadas em indicadores do que em percepções. Ou seja, o peso da resposta (iv) à pergunta “Por que devemos nos preocupar com o entendimento público de ciências?” foi enorme: defender a ciência de ataques. No entanto, as atividades nessa área claramente transbordaram esse propósito legítimo, mas conscrito: lidar com o suporte do público à ciência precisa de avanços nas outras três respostas à pergunta, que parafraseio em uma só: o público precisa estar bem-informado e ser participante em relação à ciência para juntamente com a comunidade acadêmica, garanti-la como bem público.

Ao acessar, mesmo que parcialmente, o primeiro número da revista de Durant, leio parte do artigo escrito pelo físico e ensaísta Jean Marc Lévy-Leblond, afinal o título é instigante: “Sobre incompreensões sobre incompreensões” e fiquei imaginando o conteúdo do restante do artigo. O que asseverava a primeira página, lá em 1992?

“Quando discutimos o entendimento público de ciência, uma séria, mas costumeira falácia é a de igualar o ´público’ com ‘leigo’, isto é, ‘não-cientistas’. No entanto, é preciso reconhecer que todos nós, cientistas e não-cientistas igualmente, compartilhamos uma ‘incompreensão pública de ciência’ mútua. De fato, dado o presente estado da especialização científica, ignorância sobre um particular domínio científico é quase tão grande entre cientistas, trabalhando em outro domínio, quanto entre leigos. Em outras palavras, não existe uma lacuna única de conhecimento geral entre cientistas e não-cientistas, mas existe, em vez disso, uma multitude de lacunas específicas entre especialistas e não especialistas em cada campo.

Ciência não é uma grande ilha separada do continente da cultura, mas é um vasto arquipélago de ilhotas, frequentemente mais distantes uma das outras do que do continente. [...]Seria bem interessante, em relação a isso, submeter cientistas aos testes de letramento científico infligido usualmente aos leigos. Em contrapartida, é crucial destacar que, se cientistas não são, definitivamente, peritos universais, não-cientistas também não são ignorantes universais”.

A provocação vale algumas noites de insônia para entendermos melhor, entre outras coisas, as ilhotas da anti-ciência, mas deixo isso de lado, pois ao ler essa página de Lévy-Leblond, lembrei que a mesmíssima formulação, derivada dos estudos insulares, é utilizada em artigo de 2009, de outra autora, sobre “Uma perspectiva histórica sobre a ciência e seus ‘outros’”. O artigo é justamente sobre o esmaecimento da demarcação entre divulgação, popularização, comunicação de ciência e a dita cuja em si.

Não consigo deixar de lado a sensação de que, em resposta aos ataques que estamos sofrendo neste governo - uma desconstrução da ciência maior do que no Reino Unido na década de 1980 - estamos repetindo e não superando questões colocadas há tanto tempo. Em nova analogia geográfica, a ilhota do ‘Entendimento Público de Ciência’ parece ainda mais afastada, tanto do continente, quanto das outras ilhotas. Por outro lado, a resposta à pandemia de Covid-19 por parte da comunidade científica é genuinamente mais preocupada com o bem público.

Esses ciclos de ataques e reações lembram o filme “Feitiço do tempo” (EUA, 1993)[VI], de como não conseguimos escapar das armadilhas e de como os novos tempos e suas novas ferramentas não nos deixam fugir do dia da marmota. É sobre isso que nos adverte Peter Weingart na edição comemorativa dos 30 anos da revista Public Understanding of Science: “Confiança ou atenção? Midiatização da ciência revisitada”. Esse exagero de redes sociais, que não existiam lá nos anos 1990, pode na verdade piorar as coisas, borrando demarcações que não deveriam ser borradas: “um olhar mais atento revela o autorreferenciamento da comunicação institucional [das universidades] derivando sua fundamentação de ‘públicos imaginários’. [...] o esmaecimento entre comunicação de ciência e [a simples] persuasão [ou marketing] são conflitos entre cientistas e administração e possivelmente uma perda de confiança na ciência”.

Precisamos remar mais entre as ilhotas e entre essas e o continente, além de escrever muitas cartas para aqueles que perguntam.

(*) Peter Schulz foi professor do Instituto de Física "Gleb Wataghin" (IFGW) da Unicamp durante 20 anos. Atualmente é professor titular da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, em Limeira.

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