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A pandemia e o desemprego: preservar vidas é essencial

Por Aldo Paviani (*) | 07/08/2020 09:18

Há quatro meses, em razão da crise provocada pela covid-19, temiam-se as mudanças estruturais no mundo e no Brasil. Em nosso país, sabe-se que ao menos em um setor da vida econômica haverá mudanças, que preocupam os trabalhadores, o setor privado e as instituições públicas. As pessoas receiam ser infectadas, perder o posto de trabalho ou morrer. As empresas, pela queda do faturamento, tentam sobreviver demitindo funcionários ou fechando as portas em razão da quarentena. O comércio pouco vende porque possíveis compradores se mantêm em distanciamento social, em casa. No país, superou-se o primeiro milhão de infectados – 1,36 milhão – e mais de 58 mil mortes, ontem, 29 de junho. No âmbito federal, houve má gestão da pandemia, com quadro da crise viral muito grave. A tendência da curva será continuar se elevando.

Em Brasília, não foi diferente. A apressada abertura de shoppings e alguns ramos comerciais e de esportes aumentou a quantidade de infectados pela covid-19 e não restou ao GDF outra solução senão decretar estado de calamidade pública. Todavia, já se perderam, no total, 550 vidas. Divulga-se que o DF havia sido a unidade da Federação com a maior taxa de doentes recuperados – 71% ou 32 mil pessoas. Ao final de junho, o total de infectados atingiu 45 mil pessoas, prevê-se que poderá chegar a 50 mil em julho. A razoável recuperação significa bom atendimento médico, hospitalar e a rapidez em que se iniciam os tratamentos. Há receio do avanço da epidemia, pois o sistema hospitalar público tem 62% dos leitos de UTI ocupados e, nos particulares, elevou-se a 92%.

A argumentação para medidas restritivas tem apoio na lógica e na ética: a vida de seres humanos e a saúde pública são mais importantes do que os negócios, que sofreram e terão ainda perdas com a covid-19 por falta de faturamento e até falências. Isso ocorrerá até que surja vacina eficaz ou a curva das infecções seja fortemente declinante para liberar o funcionamento de comércio em Brasília. Por seu lado, a população deverá ser mais disciplinada, sendo obediente ao lema "fique em casa".

Quanto ao desemprego no DF: aPED (Diesse/Codeplan/Setrab) de abril demonstrou que, na população economicamente ativa (PEA), de 1,6 milhão de pessoas, havia 1,27 milhão de ocupados e 334 mil sem emprego, ou 20,7% da PEA, uma das mais altas taxas de desemprego no Brasil, atrás apenas de Salvador. A PED demonstra ainda que a população das regiões administrativas (RAs) mais pobres possuem taxas superiores à média: o grupo de mais baixa renda apresentou taxa de 30,1%. São as seguintes RAs desse grupo: Fercal, Itapoã, Paranoá, Recanto das Emas, Scia-Estrutural e Varjão.

O grupo de média-baixa renda, com 25,1%, é composto pelas seguintes RAs: Brazlândia, Ceilândia, Planaltina, Riacho Fundo, Riacho Fundo II, SIA, Samambaia, Santa Maria e São Sebastião. Nessas 15 RAs, as taxas de desemprego superam a média do DF e, para melhorarem as respectivas situações de falta de vagas de trabalho, merecem tratamento especial de expansão das atividades econômicas para ocupar os respectivos contingentes de desempregados.

No grupo de alta renda-Grupo 1 (Plano Piloto, Jardim Botânico, Lago Norte, Lago Sul, ParkWay e Sudoeste/Octogonal) – , a taxa estava muito abaixo da média de todo o DF e diminuiu de 8,6% para 8,2% na comparação entre o semestre de fevereiro de 2019 a julho de 2019 e o de março de 2019 a agosto de 2019. À época, a média de desemprego do DF era de 18,3%. Esclareça-se que o Grupo 1 só é contabilizado semestralmente.

No Grupo 2 (média-alta renda), a taxa em abril foi de 15,8%, quase a metade da taxa encontrada para o DF (30,1%). Compõem esse grupo: Águas Claras, Candangolândia, Cruzeiro, Gama, Guará, Núcleo Bandeirante, Sobradinho, Sobradinho II, Taguatinga e Vicente Pires.

A avaliação por grupos demonstra que as populações das RAs mais pobres – Grupo 3 e 4 – têm menos possibilidade de manter trabalhadores ocupados por falta de atividades econômicas para manter as pessoas empregadas. Essas RAs são merecedoras de um olhar atento para o dado socioeconômico importante, uma vez que, passada a onda da covid-19, as atividades retornarão.

Pode-se imaginar que os efeitos da pandemia nos empregos no DF e no Brasil deverão ser preocupantes, passada a crise pandêmica. No balanço da situação atual, o mais desejável é que se preservem vidas com empenho total. Mas, como estão as demais morbidades? Por exemplo, acidentes de trânsito com mortes?

(*) Aldo Paviani é professor emérito da Universidade de Brasília e pesquisador associado do Departamento de Geografia e do Núcleo de Estudos Urbanos e Regionais (NEUR/CEAM/UnB). Graduado em Geografia e História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e livre docente/doutor pela Universidade Federal de Minas Gerais. Tem experiência em Geografia Urbana, atuando principalmente nos temas: urbanizaçaão em Brasília, gestão do território, planejamento urbano, exclusão socioespacial e emprego/desemprego em áreas metropolitanas.

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