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A pandemia nos pequenos negócios do agro brasileiro

Por Daiana Blaskowski, Ângela Rozane Leal de Souza e Letícia de Oliveira (*) | 20/09/2020 13:01

Sob o âmbito econômico, o negócio agro ou o agronegócio muitas vezes é visto como uma atividade de grandes produtores e empresários das cadeias produtivas. O agronegócio, porém, é também atividade dos pequenos e médios negócios, incluindo da agricultura familiar às fazendas corporativas, que produzem e comercializam produtos convencionais e orgânicos.

As cadeias produtivas do agronegócio contemplam a produção e a venda de produtos agrícolas e pecuários, incluindo as atividades primárias, de processamento, de apoio, de comercialização (insumos, equipamentos, assistência técnica, agroindústria e transporte) e as vendas ao consumidor final. Da observação empírica do slogan “o agro não para” – amplamente divulgada durante a pandemia da covid-19 –, emerge uma questão: por que o agronegócio brasileiro não pode parar? Pressupõe-se que a resposta a essa questão seria a de que os negócios do agro não podem parar porque precisam garantir a produção e a distribuição de alimentos essenciais para a sobrevivência da população.

Persistem, entretanto, inquietudes que precisariam ser dissipadas, em especial aquela que trata do que estaria por trás do engajamento dos empreendedores do agronegócio além do simples fato de garantir que nenhum alimento falte à mesa das famílias brasileiras.

Para identificar a percepção dos agentes do agronegócio frente às ameaças da pandemia, realizamos, em abril deste ano, um levantamento online em que se utilizou a metodologia de amostragem Snowball (bola de neve) – quando um questionário é enviado para algumas pessoas e se solicita que estas repassem aos seus conhecidos que também tenham ligação com o agronegócio. Assim o questionário foi enviado por e-mail, aplicativos de mensagens e redes sociais.

A pesquisa obteve 413 respondentes, atuantes nas mais diversas atividades que compõem o agronegócio, tais como produtores agrícolas e pecuários, assistentes técnicos ou de manutenção, fornecedores de insumos ou equipamentos, e transportadores de mercadorias. Embora a maior parte dos respondentes tenha sido da região Sul (49%), foram obtidas respostas das regiões Sudeste (19%), Centro-oeste (15%), Nordeste (10%) e Norte (7%).

Dos respondentes da pesquisa, 68% disseram ter medo de contrair a covid-19.  Quando questionados sobre suas apreensões, 52% revelaram que possuíam receio de ficar doentes e 70% temiam por seus familiares.

Outra das respostas encontradas foi que os pequenos negócios do agro não possuem recursos financeiros suficientes para se manter em período de lockdown, o que compromete o sustento das próprias famílias dos trabalhadores envolvidos. Identificou-se a incerteza acerca de honrar as obrigações financeiras (40%), a dificuldade de vender produtos ou prestar serviços (38%), a possibilidade de perder colaboradores (34%) e a incerteza no recebimento dos produtos vendidos ou serviços prestados (26%). Vale frisar que em tal questão de propósito mais aberto somente 9% relataram não ter medo algum em relação à pandemia da covid-19.

Subsequentemente, observou-se, com relação às opções dos empreendedores do negócio agro caso sua atividade fosse afetada pela pandemia, que pouco mais de um quarto (27%) teriam reservas financeiras. Enquanto 16% teriam que vender seu patrimônio, 13% necessitariam contrair empréstimos bancários, 10% desenvolveriam outra atividade rural, 10% poderiam contar com a ajuda de familiares e 9% precisariam migrar para uma atividade urbana. Adicionalmente, 15% responderam que não dispunham de quaisquer opções dentre as apresentadas.

Cabe apontar que os respondentes informaram o tempo que teriam condições de manutenção financeira, caso as atividades fossem afetadas: 18,5% revelaram que conseguiriam se manter por três a seis meses; 34,7% do total declararam que o prazo seria de um a três meses; e 24,9% disseram até um mês.

Verificou-se, assim, uma vulnerabilidade dos pequenos atores nos negócios do agro brasileiro, os quais, mesmo sendo responsáveis por 25,9% do PIB do país e possuindo 93,4 milhões de agentes nos seus diferentes segmentos, não dão condições aos trabalhadores para que tenham reserva financeira, mesmo para situações de emergência.

Tal fragilidade financeira resulta, ademais, das sérias perdas individuais e familiares, acarretando, também, perdas aos reinvestimentos no setor e, por consequência, sua precarização, inclusive no que se refere ao crescimento e à adoção de melhores práticas produtivas.

Destaca-se, ainda, a necessidade de capital de giro, pois sua falta acaba inviabilizando os pequenos do agronegócio. Assim, além de esses atores poderem ser prejudicados pela redução das vendas em razão da pandemia, muitas vezes há também a necessidade de concessão de prazos de pagamento maiores para os clientes e, consequentemente, necessidades mais amplas de capital de giro.

Desse modo, enquanto as vendas têm prazos variados para seu recebimento e os volumes de vendas podem ser menores, as despesas a serem cumpridas pelos pequenos do agro permanecem, tais como gastos com insumos, salários e impostos. Tal cenário chama atenção para a vulnerabilidade dos pequenos do agronegócio brasileiro, o que a pandemia do covid-19 só fez ser exacerbada.


(*) Daiana Blaskowski é doutoranda em Agronegócios , Ângela Rozane Leal de Souza e Letícia de Oliveira são professoras universitárias ds área, na UFRGS

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