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Autismo - Valorize as capacidades e respeite os limites!

Por Sílvia Ester Orrú (*) | 02/04/2024 13:30

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta o desenvolvimento da pessoa nesta condição e traz prejuízos na organização de pensamentos, sentimentos e emoções. Estão presentes dificuldades no âmbito da linguagem, no uso da imaginação, na socialização, além da existência de comportamentos restritos e repetitivos. O apego à rotina, interesses em temas e atividades específicas, rigidez cognitiva, literalidade e grande impacto sensorial são características presentes que podem tornar a vida da PcA muito desafiadora. Nos critérios para diagnóstico médico, o TEA tem sido compreendido em 3 níveis de suporte, sendo que o nível 3 é a sua manifestação mais grave. Os níveis 2 e 3 apresentam déficits mais acentuados na comunicação bem como maiores chances de terem outras condições clínicas associadas.

Inúmeras pessoas com diagnóstico de TEA têm experimentado todo tipo de indiferença social por parte dos governos municipais, estaduais e federal, principalmente pela ausência de tratamentos médicos especializados, terapêuticos e acesso gratuito a tratamento medicamentoso de ponta pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

 Essa indiferença, preconceito e discriminação afeta a PcA em sua saúde física e mental. No caso do nível 3 de suporte, a maioria das pessoas se encontram invisibilizadas e esquecidas pela sociedade, muitas vezes, trancafiadas dentro de suas casas experimentando a mais horrenda exclusão social. Aquelas no nível 2 de suporte são as que se encontram em maior evidência social, são mais facilmente reconhecidas em razão dos comportamentos se mostrarem mais visíveis no cotidiano. Muitas famílias lutam para que escolas e demais espaços se ajustem às demandas de seus filhos no nível 2 de suporte.

A PcA que se encontra no nível 1 de suporte também apresenta as mesmas características presentes na definição do TEA, entretanto, necessita de menos suporte. Contudo, sua vida não é tão leve como muitos imaginam. Apesar de terem preservada sua oralidade e possuírem uma inteligência considerada na média e até acima da média, elas precisam lidar com dificuldades que costumam estar ocultas para as outras pessoas, o que costuma trazer muito sofrimento psíquico ocasionado, especialmente, por sobrecargas sensoriais e emocionais – tudo para tentarem se comportar dentro das expectativas da sociedade. Na luta por se ajustarem às normas sociais que foram padronizadas sem nenhum respeito às diferenças e subjetividades das pessoas, as PcA nível 1 de suporte desenvolvem uma capacidade de mascarar seus sentimentos e suas dificuldades, desde a infância, como estratégia de sobreviver as crueldades (des) humanas: bullying, estresses que poderiam ser evitados com mais empatia, isolamento social pela família, colegas no espaço escolar, acadêmico e laboral. Embora a PcA nível 1 seja autônoma em diversas atividades, o impacto do autismo e, principalmente, seu mascaramento, atravessam duramente suas vidas de modo que necessitam de acesso a terapias e acompanhamento médico para tratar e prevenir o desencadeamento de depressões, bem como outros problemas de saúde mental e física pelo esgotamento vivido.

O Dia Internacional da Consciência sobre o Autismo de 2024 tem como tema a valorização das capacidades das PcA e o respeito aos seus limites. Dentro da Universidade, talvez do seu lado, haja um colega estudante ou servidor que é atravessado pelo Autismo Nível 1 de suporte. Talvez você nunca o tenha percebido, mas ele está aí!

O desafio das sociedades mais complexas é a aceitação e o acolhimento da Diferença como valor humano inegociável. O desafio da Universidade é se (re) inventar para valorizar as capacidades da pessoa atravessada pelo Autismo, respeitar seus limites, transcender à cristalização das práticas conservadoras excludentes, para a elaboração de uma outra Universidade e sociedade possível e tão necessária para todos nós, pois Somos Todos Diferentes!

(*) Sílvia Ester Orrú é professora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília e coordenadora do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Aprendizagem e Inclusão (LEPAI). Graduada em pedagogia, mestre e doutora em educação com pós-doutorado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.

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