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Campo Grande, Quinta-feira, 17 de Outubro de 2019

26/02/2014 09:58

Banco Central não é retranqueiro

Por Antoninho Marmo Trevisan (*)

A cada reunião do Copom, como a desta terça e quarta-feira (25 e 26 de fevereiro), os empresários, trabalhadores, investidores e todos aqueles com intenção de financiar algum bem ou fazer aplicações financeiras ficam ansiosos pela divulgação da Selic. Os encontros do Comitê de Política Monetária (Copom) até parecem jogo da Seleção Brasileira neste ano da Copa do Mundo, mobilizando a atenção nacional. Ultimamente, contudo, os encontros não têm causado surpresa, pois o resultado é sempre favorável aos juros altos.

Nesse intrincado jogo contra o recrudescimento da inflação, o Banco Central e o Copom não podem ser taxados de retranqueiros pela imprensa e a toda agalera... Fechar-se na defesa da Selic elevada é o que lhes resta num cenário em que União, estados e municípios demonstram total indisciplina tática quanto à política fiscal. O Governo Federal corta despesas aquém do desejável e anunciou o cumprimento da meta de superávit primário aos 45 minutos do segundo tempo, enquanto prefeituras e governos estaduais sequer conseguiram cumprir tal objetivo, nem na prorrogação. E, de quebra, liberaram-se os supersalários no Congresso Nacional.

Gastando acima do que deveria, o setor público brasileiro aumenta sua dívida e tem de pagar mais pela sua rolagem no mercado financeiro. Cria-se um grave círculo vicioso! Toda essa pressão recai sobre o Banco Central, que adota as medidas necessárias para atender a sua prioridade absoluta, ou seja, impedir o aumento da inflação, o pior de todos os males. Infelizmente, essa tática defensiva tem efeitos colaterais inevitáveis. Dentre eles, o que mais afeta e incomoda a torcida brasileira é o modesto placar do PIB, com ínfima performance em 2013.

Há direta correlação entre a expansão da produção e a geração de riqueza com a variação da taxa de juros. Quando alta, esta é como uma bola de efeito, que vai ziguezagueando entre os mercados, setores de atividade, bancos, investidores e todos os elos da economia, e acaba entrando no gol. Não há como conciliar juro alto e crescimento substantivo.

Em 2014, a manutenção da Selic em patamares elevados é ainda mais preocupante, pois se soma a outros fatores conjunturais que conspiram contra nosso PIB. O primeiro deles é a drástica redução nos índices pluviométricos neste verão, ameaçando os níveis das barragens das hidrelétricas, ressuscitando a ameaça de apagões e/ou do encarecimento da energia elétrica. E, como se sabe, esse é um dos fatores inibidores de investimentos. Há que se considerar, ainda, a nova política monetária dos Estados Unidos, que passa a atrair mais interesses do capital internacional, reinvertendo o fluxo dos investimentos, que buscaram muito o Brasil após a crise mundial de 2008. Outro fator a ser levado em conta é o ano eleitoral, que sempre aguça as especulações entre os agentes do mercado, ao léu das pesquisas e dos debates.

Assim, em meio às incertezas, é natural que as projeções e expectativas sejam permeadas de ceticismo, como a do avanço de apenas 1,9% da produção industrial em 2014, conforme o Boletim Focus do Banco Central. Este, além de informar o mercado e defender a meta inflacionária com as unhas e os dentes dos juros altos, não tem alternativas, pois a linha burra da incontinência fiscal deixa o crescimento do PIB sempre impedido...

(*) Antoninho Marmo Trevisan, presidente da Trevisan Escola de Negócios, membro do Conselho Superior do MBC - Movimento Brasil Competitivo e do CDES - Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República.

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