O rebanho dos originais
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RESUMO
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O filósofo Gillianno Mazzetto reflete sobre como a busca por originalidade paradoxalmente gera uniformidade, impulsionada pelo mimetismo digital e pela necessidade de pertencimento. Citando Byung-Chul Han e Hartmut Rosa, ele argumenta que algoritmos reforçam identidades rasas e que a verdadeira singularidade exige suportar o silêncio e a incompreensão, não o aplauso, concluindo que originalidade é a coragem de não ser compreendido.Todos queremos ser únicos e é exatamente por isso que estamos todos ficando iguais.
Repare no gesto. Alguém decide ser diferente, grava um vídeo com uma música específica, um corte de câmera específico, uma frase de efeito específica. Em quarenta e oito horas, trinta milhões de pessoas fazem a mesma coisa, cada uma delas convencida de que está expressando algo profundamente pessoal. A trend é isso: uma coreografia coletiva de individualidades. Um exército de exceções marchando no mesmo passo.
Já vivi algo parecido com isso. No início da minha carreira como cientista, ainda inseguro e sem saber muito para onde ir, quais coreografias públicas assumir, quais personagens respeitar. Neste contexto citava alguns autores que eu mal tinha lido, só porque na noite anterior vira alguém remeter-se a eles com segurança, e admirei aquela segurança mais do que a ideia em si.
Ninguém percebeu. Eu percebi. Comprei o livro que todos estavam lendo para provar que eu lia coisas que ninguém lia. Usei palavras que acabara de aprender para parecer alguém que já as sabia há tempos. Escolhi o restaurante, a viagem, a opinião, e em cada escolha havia uma plateia invisível a quem eu prestava contas. Levei anos para entender que eu não estava construindo um gosto. Estava construindo um álibi. Algo que na adolescência, fase na qual acreditamos que "o mundo melhor" nasceu conosco e tem em nós o protagonista, não pega tão mal, mas, à medida que amadurecemos, fica ridículo.
Byung-Chul Han tem uma expressão que dói: vivemos a expulsão do diferente. O que parecia uma explosão de diversidade é, na verdade, uma proliferação do mesmo. Multiplicamos as variações e eliminamos as alteridades. Há mil filtros e um só rosto. Há mil legendas e um só pensamento. O algoritmo não nos censura, ele faz algo mais elegante: nos entrega, todos os dias, uma versão levemente ajustada daquilo que já somos, até que confundamos repetição com identidade, surge aqui o mimetismo narcísico, ou, em outras palavras, a repetição monótona de nossas versões rascunhadas.
E aqui está a inversão que me interessa. Nós não imitamos por falta de personalidade. Imitamos porque o mimetismo é o caminho mais rápido para o reconhecimento, e reconhecimento, no fundo, é o que estamos comprando. Copiar é pedir licença para existir. É dizer ao mundo: veja, eu falo a sua língua, eu conheço o código, eu pertenço ao seu grupo ou modo de vida. A trend não é sobre criatividade. É sobre pertencimento disfarçado de ousadia.
Hartmut Rosa explicaria a pressa: vivemos numa sociedade que só se estabiliza quando acelera. Precisamos crescer, produzir e inovar não para ir a algum lugar, mas para não desmoronar. Correr, aqui, é a condição para ficar de pé. E numa vida assim, não há tempo para o lento trabalho de descobrir quem se é. Descobrir custa caro. Copiar sai de graça e chega antes.
O que Rosa chama de ressonância, aquela relação viva em que algo nos toca e nós respondemos, e ambos saímos transformados, exige justamente o que a trend não permite: demora, silêncio, risco. A ressonância não pode ser produzida sob demanda. Ela acontece quando paramos de nos oferecer ao mundo como produto e voltamos a nos oferecer como presença. Nada mais raro. Nada mais desconfortável. Porque existe um preço, e é sobre ele que quero falar com franqueza.
Quem é de fato diferente não recebe aplauso. Recebe silêncio, aquele silêncio educado, cortês, ligeiramente constrangido, que segue uma frase que ninguém esperava ouvir numa reunião. O original não é celebrado no presente; é celebrado depois, quando já virou referência e, portanto, já virou trend. No intervalo entre uma coisa e outra mora uma solidão específica, não a de quem está sozinho, mas a de quem está acompanhado e não é compreendido, o que dói mais.
Você fala, e as palavras chegam do outro lado com um leve atraso, como legenda mal sincronizada. Você propõe, e recebe aquele olhar que não é discordância, é estranhamento. E aos poucos você aprende o gesto mais triste da vida adulta: baixar o volume da própria voz para caber na conversa.
Machado sabia disso. Seus personagens vivem essa exata condição, inteligentes demais para o convívio, vaidosos demais para a solidão, presos no meio, comentando o mundo de um camarote onde ninguém pediu que se sentassem. E então chegamos à pergunta que me tira o sono e talvez tire o seu.
Quantas das minhas convicções são realmente minhas? Não as que eu defendo em público, essas eu escolhi por razões que já examinei. Falo das outras. Das que estão embaixo. Do que considero elegante, do que considero ridículo, do que me dá vergonha e do que me dá orgulho. Quantas dessas eu construí, e quantas eu simplesmente absorvi de um ambiente que nunca me perguntou se eu concordava?
Não tenho a resposta. Desconfio que ninguém tenha. Mas suspeito que a maturidade comece exatamente no dia em que a pergunta se torna insuportável o bastante para não ser mais adiada.
Ser diferente não é fazer diferente. Fazer diferente é técnica, e isto se copia. Ser diferente é suportar a temperatura da própria singularidade quando ninguém aplaude, e continuar ali, sem plateia, sem métrica, sem prova.
Talvez originalidade não seja a coragem de ser visto.
Pode ser que seja a coragem de não ser compreendido.
Pense nisso.
(*) Gillianno Mazzetto é filósofo e doutor em psicologia.
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