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É seu aniversário e você tem direito a um pedido: qual seria?

Por Cristiane Lang (*) | 29/01/2026 08:30

Se hoje fosse meu aniversário e eu tivesse direito a fazer um pedido, eu fecharia os olhos por um instante — não para desejar algo grandioso, mas para escutar com cuidado aquilo que em mim ainda deseja. Porque os pedidos não nascem do nada: eles são o retrato fiel de quem somos em cada fase da vida, e mudam à medida que nós também mudamos.

Na infância, os pedidos vinham embrulhados em barulho. Queriam brinquedos, festas, cores demais. Queriam tudo e queriam agora. Desejar era um gesto puro, sem cálculo, sem medo, sem culpa. Acreditava-se que o mundo cabia inteiro na palma da mão e que bastava pedir para receber.

Na juventude, os pedidos mudaram de tom. Já não eram coisas, eram urgências. Amor que ficasse, sucesso que provasse valor, caminhos que dessem certo rápido. Desejava-se intensidade, reconhecimento, pertencimento. Muitas vezes, desejava-se o que os outros desejavam também, confundindo vontade própria com expectativa alheia. Havia pressa até no sonho, como se errar fosse imperdoável.

Depois, vieram os pedidos silenciosos. Aqueles feitos de madrugada, sem testemunhas. Pediu-se para não doer tanto. Para que algumas ausências não deixassem ecos tão longos. Pediu-se força, mas em segredo, como quem tem vergonha de admitir cansaço. Os desejos começaram a ser atravessados pela realidade, pelas perdas, pelas frustrações e pelas primeiras renúncias.

Com o tempo — esse escultor paciente — os pedidos foram ficando mais honestos. O que antes parecia essencial foi perdendo o brilho. O excesso cansou. O barulho virou peso. Já não se pedia para ganhar, mas para não se perder. Já não se pedia para mudar o mundo, mas para atravessar os dias com dignidade. Desejava-se o suficiente.

Chega uma fase em que o desejo deixa de ser expansão e passa a ser cuidado. Deseja-se paz, não como clichê, mas como chão. Deseja-se saúde como quem entende sua fragilidade. Deseja-se lucidez para escolher batalhas, leveza para soltar o que pesa e coragem para sustentar o que importa. Deseja-se acordar sem ansiedade, dormir sem o peito apertado, viver relações que não exijam máscaras.

E então aprendemos, quase sem perceber, que nossos desejos mudam porque nós mudamos. O que ontem fazia sentido hoje já não cabe. Alguns desejos caem sozinhos, outros precisam ser abandonados com certo luto. Há sonhos que não fracassaram — apenas cumpriram sua função de nos trazer até aqui.

Hoje, se eu pudesse fazer um pedido, ele seria simples e profundo: que eu continue mudando. Que meus desejos acompanhem quem eu me torno. Que eu não me agarre a sonhos vencidos só por nostalgia. Que eu saiba reconhecer quando um pedido já cumpriu seu papel e precisa ser substituído por outro mais maduro, mais real, mais meu.

Porque crescer não é deixar de pedir. É aprender o que vale a pena desejar.

(*) Cristiane Lang, psicóloga clínica, especialista em Oncologia pelo Albert Eisntein. 

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.