Experiência, história e verdade: homenagem a Carlo Ginzburg
A perda de Carlo Ginzburg é gigantesca e muito sentida no Brasil. A obra do historiador falecido ontem, aos 87 anos, teve expressiva repercussão no meio acadêmico brasileiro. Nascido em abril de 1939, em uma família judia, filho de Leone Ginzburg, professor de origem russa – ativista antifascista morto, em 1944, após torturas em prisão romana controlada pelos nazistas – e de Natalia Ginzburg, grande romancista italiana do século XX, o historiador manteve em seus escritos as marcas deixadas pelas experiências de seu tempo e de sua vida pessoal. Em seus textos, condicionam-se reciprocamente experiência e método histórico.
O ativismo antitotalitário, herança paterna, e a preocupação com a linguagem, herança materna, não levaram Ginzburg a flertar com as perspectivas relativistas. Pelo contrário, o historiador, desde os anos 1980, colocou-se contra o que resumiu pela etiqueta “pós-modernismo”, origem dos inúmeros “negacionismos” que brotaram em meados do século passado e que ainda vicejam nos dias de hoje. Para Ginzburg, reconhecer a dimensão construtiva e imaginativa do trabalho historiográfico não deve significar a eliminação das fronteiras entre relato histórico e relato ficcional.
Ginzburg persistiu batendo nesta tecla: o historiador usa a retórica para provar que algo aconteceu de tal forma e não de outra, a boa interrogação dos variados testemunhos do passado (materiais, literários, plásticos, orais), por meio do método crítico, permite o estabelecimento de verdades históricas. Eis uma das funções cívicas do historiador em tempos de fake news e discursos negacionistas: estabelecer representações verdadeiras do passado, verificáveis e atestáveis, garantias que são de um espaço público democrático.
Merece destaque uma obra especial do autor aqui celebrado: ao analisar um processo judicial na Itália do período posterior aos “anos de chumbo”, Ginzburg desvela um universo de conexões entre os ofícios do juiz e do historiador e encontra – com uma surpresa que ele compartilha com o leitor – marcantes semelhanças entre os processos inquisitoriais que analisou durante toda a sua carreira e um processo criminal na Itália de fins do século XX (trata-se de “O juiz e o historiador – considerações à margem do processo Sofri”).
Sua obra enriqueceu de modo significativo a pesquisa e a narrativa historiográfica nos últimos 50 anos. Desde seus primeiros textos sobre a religião popular na Europa do início da época moderna, ele não parou de oferecer novas diretrizes e ferramentas para o trabalho do historiador: ler as fontes a contrapelo, considerando seus silêncios e as circunstâncias em que foram produzidas; construir o acesso ao universo mental coletivo mediante pequenos rastros, sinais, pistas ou trajetórias individuais; dar todas as chances aos sentidos atribuídos aos textos e as obras de artes pelos seus leitores, espectadores e ouvintes, desvinculando os significados do monopólio autoral para valorizar diferentes apropriações sociais e a circularidade entre cultura erudita e popular; entre várias outras inovações.
Para além da produção de importantes livros monográficos – como “O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição” e “História noturna” – Ginzburg foi também um grande ensaísta. Aliando o rigor historiográfico ao talento literário, ele produziu ensaios memoráveis – presentes, em sua maioria, nas coletâneas “Mitos emblemas sinais”, “Olhos de madeira” e “O fio e os rastros”. Nesse último livro, Ginzburg faz alusão à história da colonização europeia no Brasil. O historiador, ao recuperar as circunstâncias que marcaram a produção do ensaio “Os canibais”, de Montaigne, ilumina um aspecto pouco abordado nas relações entre as sociedades europeias e os habitantes do “novo mundo”.
Uma expedição francesa transportou, no século XVI, três indígenas brasileiros para a corte do rei da França, em Rouen. Michel de Montaigne, com a curiosidade aguçada por esse contato com integrantes de um povo tão diferente, menciona o estranhamento causado naqueles indígenas pelos costumes, hierarquias e desigualdades tão típicos do antigo regime europeu.
Ginzburg analisa esse estranhamento – tema que o acompanhou em toda a sua trajetória acadêmica – com o olhar do historiador que testemunhou todas as catástrofes da era contemporânea e que tem completa consciência da parcialidade e historicidade de classificações tão enganosas quanto “civilização” e “barbárie”. Esse é apenas um exemplo (entre muitos) no qual Ginzburg faz aparecer, nos textos e documentos do passado, que decifrou e interpretou com grande rigor crítico, o frescor das questões que hoje nos provocam e nos pedem respostas.
(*) José Otávio Nogueira Guimarães é chefe do Departamento de História da Universidade de Brasília.
(*) Cristiano Otavio Paixão Araujo Pinto é professor da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília.
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