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Irá a pandemia alterar velhos hábitos de consumo?

Por Sonia Coutinho, Vivian Blaso, Edson Grandisoli e Pedro Jacobi (*) | 10/07/2020 15:55

As raízes históricas e econômicas da humanidade se baseiam no uso do meio ambiente, principalmente por meio da exploração de produtos florestais, da agricultura e da pesca. Soma-se a este padrão o consumo de recursos naturais renováveis e não-renováveis, como a água, os minérios, as fontes de energias, entre outros, pelo setor industrial.

Os atuais modelos de consumo, produção e descarte são a principal causa da degradação global do meio ambiente e instabilidade do processo de desenvolvimento. A extensão do consumo pode ser considerada tanto do ponto de vista do atual modelo, quanto de seu volume, ou seja, a quantidade de bens e serviços consumidos.

Há também falta de equilíbrio entre as várias regiões do mundo, com pequenas proporções de pessoas em países desenvolvidos consumindo a maior parte dos recursos mundiais, em contraposição a grande maioria da população mundial privada, em diferentes níveis, desse processo.

Esse modelo de civilização depende, para seu desenvolvimento e continuidade, da existência dos ecossistemas, fato que se relaciona tanto ao estoque de recursos naturais quanto a sua capacidade de metabolizar resíduos. Em conjunto, estes são os chamados de serviços ambientais que os ecossistemas fornecem à humanidade (Millennium Ecosystem Assessment, 2005).

Apesar destes fatos, o homem sempre alterou o seu meio na busca de seus interesses, convertendo campos e florestas em plantações agrícolas, mudando o curso de rios e acelerando processos de extinção em massa. Estas alterações, apesar de trazerem benefícios econômicos em curto prazo, acabaram por impor em um prazo mais longo altos custos ao meio ambiente e às sociedades (como a miséria e emergência de novas doenças, como a que o mundo vivencia com a covid-19).

Neste momento, muitos tornam-se conscientes do real valor desses recursos e do grande custo socioeconômico gerado pelo mau gerenciamento do meio ambiente.

Devido à pandemia da covid-19, há constante alerta por parte de economistas e organizações internacionais de desaceleração da economia e recessão global. Estudos sobre consumo e alterações sociais para os impactos da pandemia no Brasil ainda são prematuros, mas outros países podem nos trazer alguma luz sobre o tema.

Durante a Pandemia, segundo Chassagne (2019), tivemos uma “versão rápida e não planejada do ‘decrescimento’ econômico – a transição que alguns acadêmicos e ativistas há décadas dizem ser necessária para lidar com as mudanças climáticas e deixar um planeta habitável para as gerações futuras”. Lições aprendidas com a China, que teve o início da pandemia em dezembro de 2019, caminhando para sua superação em meados de março de 2020, já podem ser trazidas.

Mudanças já estão surgindo, mas não se sabe se se tornarão permanentes.

De forma positiva, tem-se observado compras locais, apoiando pequenos comércios locais. Chassagne (2019) utiliza a expressão “go slow, go local” para demonstrar que a covid-19 forçou uma redução imediata de como nos deslocamos e vivemos. Conexões locais são criadas, compras são feitas localmente, trabalha-se em casa e limita-se o consumo ao necessário.

Em contrapartida, segundo Baker et al. (2020), nos EUA, os gastos domésticos aumentaram cerca de 50% entre 26 de fevereiro e 11 de março, permanecendo elevados até 27 de março, com um aumento de 7,5% em relação ao início do ano. Também houve aumento nos gastos com cartões, o que é consistente com as famílias que gastaram à crédito para armazenarem bens.

Felizmente, com o decorrer da pandemia, as compras para armazenamento se reduziram. Muitas pessoas perceberam que não precisam tanto quanto costumavam gastar e temem a recessão que se aproxima. Muitas famílias têm ido às lojas apenas para o essencial, e o restante tem sido realizado on-line.

Para quem se aventura a sair de casa, a compra física é controlada nos mercados, com entrada de um número máximo de pessoas, uso de máscaras, uso obrigatório de sacolas fornecidas pelo estabelecimento, não podendo ser usada sacola própria, em alguns locais. Observa-se, neste ponto, um retrocesso ao banimento da sacola plástica e um aumento expressivo do uso de embalagens descartáveis de todos os tipos.

Os setores mais impactados foram as companhias aéreas, que reduziram o número de voos e tiveram quedas nas receitas. Prevê-se que, no futuro, as pessoas irão reduzir as viagens desnecessárias e considerar métodos de comunicação on-line.

No Brasil, de uma forma geral, todas as empresas aéreas foram impactadas. O número de voos semanais, em março de 2020, passou de 14.781 para 1.241 em três companhias aéreas. Este número de voos representa uma malha aérea emergencial acordada para manter o deslocamento de materiais, profissionais de saúde e de pessoas que necessitavam viajar.

Com a redução de mobilidade, analista do Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo de Helsinque, Finlândia, estima que a pandemia possa ter reduzido as emissões globais em 200 megatoneladas de dióxido de carbono até o momento, à medida que as viagens aéreas foram interrompidas, as fábricas fecharam e a demanda de energia caiu.

Nas primeiras quatro semanas da pandemia, somente o consumo de carvão na China caiu 36% e a capacidade de refino de petróleo, 34%.

Há décadas o mundo não respira um ar tão puro quanto nessa época de distanciamento social. Mas há previsão de aumento do consumo de veículos e, por conseguinte retorno da poluição.

Se as vendas de veículo caíram 79% na China durante a COVID-19, com a estabilização da pandemia no país, as vendas de automóveis poderão subir. Uma pesquisa da Ipsos no país apontou uma mudança no perfil de comprador de carros.

O medo de contaminação pela COVID-19 no transporte público tem feito com que muita gente considere ter um veículo no lugar a usar o transporte público. Metade dos interessando em comprar um carro, querem automóveis com climatização dotada de filtragem do ar e interior com materiais antibactericidas. A maioria pretende comprar carros pela internet e que sejam entregues com limpeza antibacteriana.

Uma locadora em São Paulo reduziu o aluguel mensal do carro de R$ 1.500 para R$ 900 para atingir os usuários de transporte coletivo e veículos de aplicativo, que preferem evitar o risco de contágio nesses modais.

O setor de saúde e beleza, que mais crescia, agora com o COVID-19 cedeu lugar a produtos para o cuidado com a casa. Desinfetantes e cremes para as mãos fazem parte da lista de produtos para cuidados pessoais e de beleza durante a pandemia.

Segundo pesquisas da Kantar, em março 2020, houve um aumento de 27% na compra alimentos mais nutritivos e saudáveis, de 20% alimentos básicos e produtos de limpeza, e 20% em remédios para gripes e resfriados sem prescrição médica – 330.000 lares compraram vitaminas.

No Reino Unido, desde o início da pandemia, cerca de 3 milhões de pessoas encomendaram vegetais direto de agricultores locais pela primeira vez, o mesmo ocorreu na Alemanha e na França de acordo com o relatório “The Future 100” da Wunderman Thompson Intelligence (2020).

O comportamento humano relacionado ao consumo é bastante complexo e depende da influência de diversos fatores. A pandemia da COVID-19 aponta novos rumos e padrões que podem, ou não, se estabelecer ao longo dos próximos anos. É importante, entretanto, considerar que podemos aprender e repensar sobre nosso atual padrão civilizatório focado no consumismo extremo de um lado, e miséria permanente de outro, modelo que vem se acentuando nos últimos anos conectado a uma nova onda neoliberal fortemente excludente.

Como à população mais vulnerável não é esperado um outro normal, que não o que já vivenciam há muitos anos. Para as classes consumidoras, seria fundamental que as lições aprendidas na pandemia fossem efetivamente incorporadas e que um maior número de pessoas passe a agir de forma mais simples, coletiva, solidária, inclusiva e corresponsável.

(*) Sonia Maria Viggiani Coutinho, Vivian Aparecida Blaso Souza Soares César, Edson Grandisoli e Pedro Roberto Jacobi são pesquisadores do programa USP Cidades Globais, do Instituto de Estudos Avançados da USP.