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Não se educa calando

Por Daniel Medeiros (*) | 03/08/2020 14:41

Estudei no colégio militar de Fortaleza, entre 1975 e 1981. Antes, fiz o Fundamental I na escola municipal Jenny Gomes, no bairro Aerolândia. A mudança de uma escola para a outra foi parecida com a sensação que hoje tenho ao tirar um sapato de festa, depois de horas em pé. Poucas vezes repeti a alegria de ver meu nome na lista dos aprovados. O colégio militar, para um filho de sargento da aeronáutica e de uma dona de casa, era um luxo que poucos alcançavam, pois o número de vagas era pequeno e a concorrência enorme. No meu ano de ingresso, éramos 23 alunos por vaga. Com 11 anos de idade foi uma experiência e tanto e, devo dizer, nada agradável.

Minha experiência no colégio militar divide-se em duas partes claras e distintas. A parte formadora foi resultado da excelência de vários professores, da biblioteca enorme, dos espaços verdes (havia até um minizoológico dentro da escola), do ensino integral e dos colegas que me ajudaram muito a conviver e superar as dificuldades. A parte deformadora, resultado da disciplina excessiva, das punições desnecessárias, dos exercícios repetitivos, sem criatividade, e das regras bobas como o corte de cabelo, os sapatos e fivelas dos cintos brilhantes, e do medo de contrariar as regras bobas, cujo grau de exigência variava de comandante para comandante e, muitas vezes, de dia para dia, dependendo do humor dos que mandavam em nós.

A parte produtiva e formadora da minha experiência com o colégio militar foi resultado daquilo que é próprio ou deveria ser próprio em uma escola: profissionais adequados, ambiente planejado, laboratórios, materiais modernos, biblioteca atualizada, poucos alunos na sala, carga horária compatível com as exigências de aprendizado. E aí a conclusão óbvia: se todas as escolas públicas tivessem uma estrutura como a que eu tive no colégio militar, a educação no Brasil seria muito diferente. Pobre Jenny Gomes, a escola municipal que eu frequentei até a quarta série, nem dicionário tinha. Uma tristeza, apesar dos esforços dos professores em compensar a falta de condições adequadas e o excesso de alunos e alunas. Logo, o colégio militar era muito bom - não por ser um colégio militar, mas por, principalmente, ser um colégio com muitos recursos.

Meu melhor professor, nesse período , foi um major do Exército, professor Albuquerque. Até hoje lembro dele e de como, graças a ele, tive contato com a Literatura e com muitos dos segredos da Língua Portuguesa. Ele era um homem gentil e muito atento com os alunos que mostravam alguma vocação, sempre estimulando, ouvindo, oferecendo mais leituras desafiadoras. Com ele, conheci a personagem Baleia, o sanatório de Simão Bacamarte e o cortiço de Bertoleza. Ainda hoje lembro, com emoção, a indicação de um livro enorme que ele me fez, dizendo: “sei que você já é capaz dessas leituras de maior fôlego”, entregando-me uma edição de Vinhas da Ira.

Hoje, acompanho pesaroso o apoio de muitos ao projeto de escolas cívico-militares, o discurso de que é preciso resgatar a disciplina nas escolas, os valores patrióticos e outras coisas mais, como se o benefício da escola fosse a disciplina, que é o poder dado a algum adulto para calar as crianças e os jovens, quando na verdade o que de fato gera aprendizado é a qualidade dos adultos em nos ouvir e depois falar para que os ouçamos, oferecendo-nos coisas com cuidado e carinho e não impondo-nos como quem sabe que não é bom e só com rudeza poderá ter sucesso.

Lembro-me agora do professor Teixeira, já avançado nos anos, pequenino e enrugado, que nos dava aulas de História no colégio militar. Civil, ia com um jaleco branco que se perdia bem abaixo de seus joelhos. Lembro-me que muitos meninos riam do jeito frágil e desconcertado dele. Mas bastaram poucas semanas para todos adorarem o professor Teixeira, pela narrativa maravilhosa de suas aulas, pela forma sempre educada com que se dirigia a cada um de nós, pela coerência de suas atitudes, pela compreensão por nossas falhas de jovens imberbes, imaturos. Ele era rigoroso, coerente e dedicado. Não tínhamos medo dele, porque o medo não educa. O medo só serve para nos afastar do mundo.

Essas são as lembranças que tenho do colégio militar, um período muito bom da minha vida, com exceção da parte na qual alguns imaginaram que poderiam me ensinar como quem quer ensinar pássaros a voar. Se as pessoas entendessem que educar é ouvir e estimular  as pessoas a serem o que elas são, e não o que os adultos querem que elas sejam, seríamos um outro país. Major Albuquerque, professor Teixeira, os senhores entenderam isso. Não por serem militares ou serem civis, mas por serem adultos capazes de entender a obrigação dos adultos com os mais jovens.

(*) Daniel Medeiros é doutor em Educação Histórica e professor no Curso Positivo.