A notícia da terra a um clique de você.
Campo Grande, Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2017

24/03/2014 14:13

O eterno país do futebol e do futuro que não chega

Por Marcos Morita (*)

Como todo menino brasileiro, sempre gostei de futebol e principalmente de Copa do Mundo. Colecionava as figurinhas um tanto toscas com as fotos dos jogadores, as quais acompanhavam os chicletes Ping Pong de tutti-frutti, hortelã e morango. Para agilizar a coleção costumávamos mascar várias gomas disputando quem fazia a maior bola, ou então batendo figurinha na entrada ou saída da escola, já que lá dentro era risco de perdê-las na certa. Chegar em casa, colá-las com cola Tenaz e preencher uma página inteira era a recompensa suprema.

A Copa que mais curti, acredito que cada um tenha a sua preferida, foi a de 82 na Espanha. Pela primeira vez pude torcer com os amigos fora de casa, tomando Guaraná e Coca-Cola à vontade, comendo pipoca e carregando minha bandeira improvisada. Como sou palmeirense, pintei a faixa branca de amarelo. Valia de tudo para a brincadeira estar completa. Valdir Peres, Oscar, Toninho Cerezo, Falcão, Sócrates, Zico e Éder, só para citar alguns, eram os grandes ídolos e Paolo Rossi, o grande vilão, despachando uma das melhores seleções que já tivemos.

Também sempre sonhava com uma Copa no Brasil, o que naquela época era algo impossível. Oito edições se passaram assim como a idade e os cabelos brancos. Agora serão os sobrinhos e filhos que poderão curtir a competição e aproveitar o tão desejado torneio em solo tupiniquim. Opa, mas espere um pouco. Tão desejado? Escândalos, superfaturamento, corrupção, desvio de recursos, atraso nas obras e os protestos do ano passado conseguiram tirar meu sonho de menino. Pesquisa realizada pelo Datafolha demonstra que a aprovação caiu de 79% para 52%, confirmando que não estou sozinho.

Como professor e executivo tinha esperança que os grandes eventos poderiam gerar crescimento econômico sustentável pelo menos até o final da década, levando de vez nosso titulo de pais do futuro. Ledo engano, comprovado nas manchetes e notícias econômicas. Ao contrário, sua aproximação, aliada ao Carnaval tardio e as eleições para governador e presidente em novembro tem trazido extrema preocupação aos empresários e colaboradores, os quais terão que trabalhar muito para tentar ao menos igualar os resultados do ano passado, o qual já foi bastante ruim.

Tomemos São Paulo como exemplo. Feriados nos dias 12, 17, 19, 23 e 26 de junho ou 5ª, 3ª, 5ª, 2ª e 5ª, sem mencionar as pontes e ressacas pós-feriados. O mesmo ocorrerá nas demais cidades-sede, cujas datas se repetirão apenas nos jogos da seleção canarinho. Será literalmente um mês perdido, no qual agendar reuniões com fornecedores, visitar clientes, viajar a negócios e faturar mercadorias será praticamente impossível, excetuando-se os produtos de primeira necessidade tais como linguiça, picanha, carvão, cerveja e pipoca, imprescindíveis para manter a turma animada.

Para tentar mitigar este risco iminente, planejamento, flexibilidade e negociação entre os membros do canal de vendas: importadores, fornecedores, fabricantes, distribuidores, atacadistas, varejistas, representes e consumidores finais, seja antecipando a produção, agendando entregas, estocando distribuidores e varejistas, efetivando promoções, efetuando manutenções preventivas, estendendo prazos de pagamento e concedendo descontos, evitando o corre-corre e o estresse de ultima hora.

Parodiando a fábula de cigarra e da formiga, as empresas e os empresários terão que trabalhar duro no verão e no outono, aguardando o inverno chegar. Se lembra da cena da formiga em sua casa quentinha, com comida estocada para toda a estação? Quanto as cigarras, continuarão cantando longe de Brasília em seus currais eleitorais, promovendo-se ou aos seus aliados até as eleições de novembro, após 52 dias de trabalho extenuantes no primeiro semestre o que representa uma redução de mais de 70% em suas atividades, definido por seu presidente de conduta ilibada, Renan Calheiros.

Com esta fábula adaptada à realidade brasileira, as notícias dos elefantes brancos em plena Amazônia ou no Pantanal e o legado que não será legado, torna-se cada vez mais difícil encontrar motivação e alegria para que esta seja a melhor Copa de todos os tempos, alardeada pelos patrocinadores da seleção em suas propagandas ufanistas. Bons tempos aqueles em que com espírito ingênuo, acreditava que poderíamos dominar o mundo através da bola. E já que o evento será inevitável, o jeito será torcer e comprar o álbum da Copa, mesmo sem o bafo, o chiclete de tutti-frutti e a cola Tenaz.

(*) Marcos Morita é mestre em Administração de Empresas, professor da Universidade Mackenzie e professor tutor da FGV-RJ. Especialista em estratégias empresariais, é colunista, palestrante e consultor de negócios. Há mais de quinze anos atua como executivo em empresas multinacionais.

Muito, pouco
No dia 3 de maio de 2016, foi promulgado o Decreto nº 8.737, que institui o Programa de Prorrogação da Licença-Paternidade para os servidores público...
A bolha da saúde brasileira está prestes a explodir
A crise econômica e o crescente índice de desemprego da população brasileira refletiram diretamente no setor da saúde. Recente estudo revelou que mai...
Marchinhas do coração
Sei que existem as marchinhas preferidas do coração. São as do passado ou do presente, mas não é delas que quero falar, e, sim, do sofrido coração br...
Reforma da Previdência: aprofundando o deserto na vida dos trabalhadores
O cinema enquanto “sétima arte” muitas vezes busca retratar realidades cotidianas na telona. Não foi diferente o filme “Eu, Daniel Blake”, ganhador d...



imagem transparente

Classificados


Desenvolvido por Idalus Internet Solutions