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06/02/2012 15:20

Os descendentes

Por Andrea Brunetto (*)

O filme com George Clooney, que assisti ontem lembrou-me muito do Havai, que é o personagem principal. Clooney é coadjuvante. A temática primária é um homem que espera a morte de sua mulher em coma e reaproxima-se das duas filhas. Clooney não está mal no filme, mas não é um grande filme. Nem entendi porque ele está concorrendo ao Oscar por essa atuação.

A única grandeza do filme é o paraíso havaiano. Todos os personagens são secundários ao cenário mostrado, suas praias intensamente azuis pela presença das algas, suas areias escuras, vulcânicas; os homens todos com camisetas floridas – e Mat King/Clooney nos conta que não devemos nos enganar: os mais sérios e importantes negócios são feitos com pessoas trajando estas roupas - suas rodovias contornando o recorte do mar, em todas as ilhas; a cadeia de montanhas que ficou mundialmente conhecida, pois aparece no filme “Parque dos Dinossauros”, marca presença duas ou três vezes no filme. A trilha sonora toda na lingua havaiana, essa lingua tão sonora, repleta de vogais que se repetem, pois eles têm poucas consoantes.

A trama se passa em dezenas de cenários desse paraíso - assim é chamado em vários momentos - que está em vias de desaparecer. O pedaço mais inóspito de terra está para ser vendido. Mat King/Clooney vem de uma família em que ele é o descendente do rei (king) Kamehameha I, que casou-se com uma branca e deu origem a uma mistura de raças. Mat King e seus primos – ávidos por vender a valiosa terra – são os descendentes dessa mistura.

Kamehameha I foi o havaiano que unificou todas as ilhas em 1810. Em uma dessas revoltas pela unificação foi morto o Capitão Cook, célebre navegador inglês. Kamehameha é citado várias vezes no filme, suas fotos aparecem na casa do pai de Mat King, quando ele retorna ao domicílio paterno buscando a resposta para o ser ou não ser do filme: vendo ou não vendo?

Mat King é o homem mais conhecido do Estado havaiano, todos que falam com ele sabem da venda a ser feita. É como se ela decidirá o que vai ser feito das memórias: transforma-se em um conglomerado de resorts de luxo ou mantêm-se a memória desse passado recôndito? Pergunta que o personagem de Clooney só vai nos dar a resposta na penúltima cena.

O filme lembrou-me muito uma viagem do passado. Cheguei ao Havai em 9 de setembro de 2003 e senti falta de um paraíso antêntico, dos havaianos que ainda falassem perfeitamente a lingua, do artesanato tipicamente havaiano, da comida tipicamente havaiana. Fui a um centro de cultura dos povos da Polinésia e tudo me pareceu uma Disneylândia.

Então entendi perfeitamente o dilema mostrado no filme. Assisti o filme com um misto de saudade desse paraiso de uma natureza belíssima, espetacular, e com uma decepção porque o capitalismo e a globalização, com seus resorts de luxo e objetos de consumo industrializados, destrói tudo, nossa autenticidade, nosso passado, nossa singularidade. Nem o Havai é mais o Havai.

(*) Andréa Brunetto é psicanalista e diretora do Ágora Instituto Lacaniano

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