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Pensei que fosse tristeza, mas era depressão

Por Jackeline Martini Pinheiro (*) | 23/09/2020 09:56

Em muitos momentos é encarada de forma pejorativa, como “frescura”, falta de coragem, falta de força de vontade e até preguiça. Mas a depressão tem se manifestado e se feito presente em nossos dias levando sofrimento a pessoas de todas as classes sociais, idade e gênero.

Os sintomas são muito difundidos e conhecidos pela maioria, vão desde a tristeza, pessimismo, baixa auto estima e falta de vigor físico. Até aí, muitos leitores podem ter se identificado com os sintomas, ou identificado algum conhecido, mas é importante lembrar que a depressão é reconhecida e categorizada como doença.

Considerada um distúrbio afetivo, ela faz com que o indivíduo perca sua capacidade de cuidar de sua vida e resolver situações consideradas corriqueiras.

Pensando pelo enfoque psicanalítico de Sigmund Freud, podemos entender a depressão como um fenômeno melancólico. Este tema é tratado no texto desse autor em contraponto ao sentimento de luto.

Vimos numa outra ocasião, que o processo de luto diz respeito a perda de um objeto de amor, isso gera o sentimento de tristeza, mas não afeta a auto estima do indivíduo e não tem tanto impacto em sua percepção do mundo.

 No entanto nos casos de depressão, que podemos chamar de melancólica para referenciar o autor, a pessoa com este tipo de sofrimento passa por alterações na forma como ela se vê e percebe o mundo, até mesmo o paladar é alterado. Ocorre uma verdadeira perda de apetite para a vida.

As estatísticas são alarmantes, a estimativa é de que para cada cinco pessoas no mundo, uma apresenta sintomas de depressão, ou seja, 19% da população mundial. Profissionais que atuam no cuidado dessas pessoas, já alertavam para esse momento há mais de dez anos atrás. Parece que chegamos à era na qual a depressão é de fato o mal estar no cotidiano.

Números do ano de 2013 do INSS apontam a depressão como responsável pelo afastamento de 61.044 pessoas dos seus postos de trabalho e a Organização Mundial de Saúde prevê que já na próxima década a depressão será a doença mais comum. Ou seja, um problema de saúde pública sem dúvidas.

Mas o que causa a depressão? Será que aqui em Mato Grosso do Sul, um estado onde até a capital tem um espírito de cidade do interior, também estamos expostos a esse mal? A resposta é que infelizmente sim.

Os estudos sobre as causas da depressão ainda não estabelecem um único determinante. Alguns apontam para os fatores hereditários, outros para fatores ambientais e ainda há a vertente que afirma que as causas são psicológicas.

Como é uma doença, como tal deve ser diagnosticada por um profissional e tratada com a mesma seriedade. Muitas vezes por falta de informação ou medo, as pessoas preferem não fazer o tratamento da doença por receio da medicação e até mesmo do psicólogo. E isso é um retrocesso no que diz respeito as possibilidades de tratamento.

Além da medicação é preciso também o acompanhamento psicológico, que nesses casos não é apenas um coadjuvante, mas também ator principal no processo de superação dessa nefasta doença que retira literalmente a alegria de viver daquele que por ela é acometido.

Fala-se de um esvaziamento afetivo do homem moderno como vetor para a depressão. Muitos são os avanços tecnológicos e científicos nas áreas de saúde e mesmo nas relações humanas em nosso tempo.

Muito se caminhou no sentido de buscar ferramentas e instrumentos que pudessem “nos ver por dentro”. São os aparelhos de imagem, ressonância e também os famosos ultrassom 3D, 4D...etc. Mesmo o útero é vasculhado e o rostinho do bebe pode ser observado meses antes do nascimento.

Vemos um excesso em todos os aspectos. Excesso de informação, excesso de alimentação, excesso de estresse, de trânsito, de trabalho, enfim, de estímulos. Assim, não seria um esvaziamento, mas o excesso de opções que a modernidade nos oferta e nós humanos “obsoletos” provavelmente não estamos “equipados” ainda para lidar com isso.

Vale ressaltar que não queremos dizer que a modernidade e os avanços são negativos, ou mesmo supervalorizar os tempos de outrora. Esse é o tempo em que vivemos, estamos expostos a esses estímulos e precisamos nos haver com eles.

Uma questão que pode servir para reflexão, é que talvez, nossa atenção não deva voltar-se tão somente para os sintomas da depressão, mas sim para a pessoa que sofre e dessa forma buscar ali na singularidade de cada um as causas para essa tristeza tão grande que não tem borda e na verdade trans-borda, toma toda a lente com a qual a pessoa se vê e vive a vida.

(*) Jackeline Martini Pinheiro é mestra em Psicologia Clínica pela Unicap (Universidade Católica De Pernambuco), professora universitária e psicanalista em Chapadão do Sul

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