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06/12/2017 15:05

Política, religião e futebol não se discutem?

Apontamentos sobre a pretendida neutralidade no ensino

Por Ascânio João Sedrez (*)

Há quem diga que os tempos atuais já têm polêmicas demais. Espera-se que os profissionais da educação sejam árbitros isentos ao apresentar o arcabouço das informações, dados e fatos acumulados ao longo dos milênios pela cultura escolar e científica. Contudo, é sabido, o conhecimento construído está carregado das marcas e dos contextos nos quais ele foi gerado e difundido.

Ao observar mais amplamente os processos de comunicação, vemos os discursos produzidos pelos inúmeros meios de comunicação, todos com pretensão de verdade. O leitor, ouvinte ou telespectador é sempre convidado a discernir, ponderar, mesmo quando as “notícias” são acompanhadas de dados e imagens “indiscutíveis”.

No cenário mais típico da educação escolar, da mesma forma, é imperioso, com honestidade intelectual, trazer muitas e amplas visões dos fatos e informações para que os estudantes formem um senso crítico e tenham condições estruturais de triar, questionar, ampliar, pesquisar, duvidar, aprofundar...

Para exemplificar, citamos os três temas do título, começando do mais aparentemente despretensioso e que tem gerado tantos dissabores: o futebol. Chegam a denominá-lo como ‘religião’ em função de atitudes passionais, irracionais e agressivas que acometem alguns dos torcedores... Por prudência, temos que lembrar, que as três atitudes mencionadas, nem por hipótese deveriam aplicar-se às religiões... A gravidade do que tem acontecido em relação ao futebol obriga os educadores a abordarem essas questões por ocasião das assembleias e outros momentos na vida escolar. A formação cidadã inclui a orientação sobre a convivência harmoniosa com os que têm “times” diferentes... incluindo os de futebol.

No campo da política, os cuidados são proporcionais à vantagem de uma abordagem plural, rica, crítica, com apelo fundamental aos discursos subjacentes. Ampliar horizontes, questionar axiomas fixados, desnaturalizar o assumido como normal e aceitável, também no campo da política, são atitudes mais do que urgentes. A suspeita que ronda a escola, especialmente com discursos aplicados a alguns componentes, deve sofrer um tratamento de choque com os ventos da abordagem transparente, da perspectiva crítica, num convite à participação política que vá além dos partidos e que se engaje com esforços concretos para o Bem Comum.

Vale destacar, por fim, a abordagem das questões religiosas no cenário escolar, tanto na escola pública quanto nas mantidas por instituições confessionais ou empresariais. Para nos inspirar, vale um pensamento de Albert Einstein: “Se os fiéis das religiões atuais tentassem sinceramente pensar e agir segundo o espírito dos fundadores dessas religiões, não existiria nenhuma hostilidade de base religiosa entre os seguidores dos diferentes credos.” (Mensagem à Conferência Nacional de Cristãos e Judeus, 1947). Como seria fundamental dialogar sobre isso em cenários tão dramáticos de intransigência, de animosidade, de ignorância misturada com medo!!!

A escola torna-se, assim, um grande cenário da democracia, da tolerância, da convivência construída com o conhecimento construído e partilhado. As dimensões da luta pelo Bem Comum (política), da busca pelo sentido mais profundo para o existir (religiosidade e religiões) e a saudável competição e entretenimento (esportes, incluindo futebol) são pautas sociais importantes e devem, com serenidade, ocupar nossos diálogos na vida escolar e na escola da vida.

Quem se beneficiará disso: nós e as futuras gerações que conviveremos, acolhendo a diferença, em diálogos abertos sobre todos os assuntos relevantes para nossas vidas.

(*) Professor Ascânio João Sedrez é Mestre em Ciências da Religião e Diretor do Colégio Marista Glória.

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