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Campo Grande, Domingo, 24 de Setembro de 2017

15/09/2017 13:40

Todo choque incomoda

Por Pedro Panhoca Silva

Que a arte muitas vezes foi feita para chocar, e não agradar, isso todos sabem. E esse recurso está longe de ser esgotado. A última polêmica ocorreu na exposição Queermuseu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, a qual foi cancelada antecipadamente no dia 10/09. Em meio às comemorações e lamentações, fica a dúvida se a arte foi vítima ou criminosa, se é que essa culpa pode lhe ser atribuída.

A ideia foi trabalhar a ideologia queer - cuja proposta é defender que a identidade de gênero é produto de um constructo social e não uma verdade biológica pré-determinada, questionando o binarismo de gênero - na primeira exposição voltada exclusivamente a ela na América Latina. Quase cem anos após a polêmica (e agora reconhecida como fundamental) Semana de 22, mantém-se a média de algo novo ao público geral receber mais críticas negativas do que positivas.
Protestos acusaram o incentivo à pedofilia, à zoofilia e à sexualização precoce infantil, cenas que aparecem em algumas poucas obras expostas dentre as quase 300, que pouco provocam. Porém, o estardalhaço causado por essa minoria de amostras foi o suficiente para se acusar a curadoria de não cumprir o edital e ofender diversos grupos da sociedade brasileira.

Esquerdistas ou direitistas, religiosos ou não, reacionários e revolucionários precisam entender que liberdade de expressão não significa liberdade de ofensa. “Frescura” e “peculiaridade” são, muitas vezes, paradoxalmente sinônimos e antônimos. Se cristãos e hinduístas se sentem ofendidos em seres misturados, como visto na obra Cruzando Jesus Cristo com Deusa Schiva (1996) têm todo o direito de não cancelar a exposição, mas de lutar pela retirada dessa obra específica. Já Oxumaré (1980) parece não incomodar tanto. Se Cena de Interior II (1994), que resgata um tema tratado pelo consagrado Hokusai em O sonho da mulher do pescador (1820), for forte demais ao gosto geral, também precisará ser removida. Nem sempre a arte agrada a todos, e fica seu registro para posteriormente ser elevada a cult, vanguardista ou muito à frente do seu tempo – se merecer.

Assim como o professor que prepara uma aula que não agradou, o engenheiro que projeta algo que falhou e o médico que receita algo que não surtiu efeito, a arte também erra. E o grande erro dessa exposição não foi ter usado o apoio financeiro da Lei Rouanet (fontes variam ao relatarem quanto foi de fato concedido, algo em torno de 800.000 a 1 milhão de reais), mas de não ter alertado o público quanto ao seu conteúdo. Como numa aula improvisada em que tudo dá errado, os professores que levaram seus alunos à exposição também são culpados e deveriam ter o conhecimento prévio antes de conduzirem seus alunos a tal. Quem busca proibir a exposição também erra, pois confunde princípios básicos como a censura e o boicote. Boicotar todos têm direito se não gostam, e quem é influenciado é porque acredita ser parte dessa ideologia. E, por fim, ter a exposição cancelada demonstra o reconhecimento que a falta de agrado imperou no final, seja na repercussão das mídias locais e virtuais, que ganharam forte impulso nas últimas semanas.

Se a intenção foi chocar e propor reflexão, a exposição foi um sucesso. O debate está longe de ser terminado, até porque grupos de pessoas favoráveis à exposição querem-na novamente na ativa e em outras cidades. Os dadaístas bem sabiam: quem expõe assume as consequências, e lições são aprendidas para que se agrade (ou choque) mais da próxima vez.

(*)Pedro Panhoca da Silva é mestrando em Literatura do programa de Pós-Graduação em Letras da Unesp, Câmpus de Assis e Sabrina Nascimento de Alencar é graduanda em Letras pela Universidade de São Paulo (USP).

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