Merendeira que perdeu visão transforma cozinha de escola em exemplo de superação
Cega desde os 15 anos, Luzia de Alcântara Santana trabalha há quase uma década na Escola Ernesto Garcia

Na cozinha da Escola Municipal Ernesto Garcia, o dia começa antes mesmo de o pátio ganhar o barulho das crianças. O cheiro de arroz no fogo, o tilintar das panelas e o movimento cuidadoso da equipe anunciam que a merenda está sendo preparada. No meio dessa rotina que alimenta centenas de estudantes, há quase uma década uma presença se tornou parte essencial da escola: a de Luzia de Alcântara Santana, de 40 anos.
RESUMO
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Luzia de Alcântara Santana, 40 anos, é merendeira concursada na Escola Municipal Ernesto Garcia há quase uma década. Apesar de ter perdido completamente a visão aos 15 anos, após uma infecção ocular, ela encontrou na cozinha sua realização profissional. Com uma equipe de quatro profissionais, Luzia mantém a organização como estratégia fundamental para seu trabalho. Sua presença na escola vai além do preparo das refeições, tornando-se um exemplo silencioso de superação para alunos e funcionários, demonstrando que diferenças não são impedimentos para conquistas profissionais.
Entre fogões e panelas, Luzia trabalha com a segurança de quem conhece cada canto da cozinha. Concursada da Rede Municipal de Ensino, ela atua na unidade há nove anos e meio, participando diariamente da preparação das refeições que chegam às mesas dos alunos. Para muitos deles, a merendeira já é uma figura familiar — alguém que faz parte do cotidiano da escola tanto quanto os professores e os colegas.
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A história de Luzia carrega também uma trajetória de superação. Ela nasceu com baixa visão e, aos 15 anos, perdeu completamente a visão após uma infecção ocular. A mudança foi brusca, mas não alterou sua vontade de seguir em frente. Pelo contrário. Foi justamente na cozinha que ela encontrou um caminho profissional que sempre fez sentido para sua vida.
“Eu me identificava com a profissão e tinha certeza de que daria conta”, relembra.
No início, preparar refeições para um grande número de alunos exigiu adaptação. Com o tempo, organização e confiança passaram a guiar a rotina. Na cozinha, cada utensílio tem seu lugar. Panelas, colheres e equipamentos permanecem sempre organizados da mesma forma — uma estratégia simples que garante autonomia e agilidade durante o trabalho.
Hoje, Luzia divide o dia a dia com uma equipe formada por quatro profissionais. Juntos, transformam ingredientes em pratos que alimentam não apenas o corpo, mas também o ambiente de acolhimento da escola.
Entre os alunos, a curiosidade aparece nos primeiros encontros. As crianças perguntam, querem entender como Luzia trabalha sem enxergar. Mas a surpresa dura pouco. Logo a convivência se torna natural, e a merendeira passa a ser apenas mais uma presença querida no espaço escolar.
“Eles perguntam, querem entender, mas depois tudo fica normal. Até os pais, às vezes, esquecem que eu tenho deficiência”, conta, com naturalidade.
Para Luzia, estar na escola significa muito mais do que preparar a merenda. A convivência diária com as crianças também se transforma em uma forma silenciosa de ensinar. Sem discursos, apenas com a própria presença, ela mostra que diferenças não são barreiras para viver, trabalhar e conquistar espaço.
“Tenho muito orgulho de fazer parte disso. Às vezes, o contato com alguém diferente pode marcar a criança para o resto da vida de forma positiva”, diz.
Ao falar da própria trajetória, Luzia prefere não destacar as dificuldades, mas o caminho que escolheu seguir. Para quem enfrenta desafios, sua mensagem é simples e direta — como as lições que nascem da vida real.
“Nunca desista. Não é fácil e muitos dias têm barreiras, mas ficar em casa não resolve. É preciso seguir o próprio caminho e buscar se realizar.”
E assim, todos os dias, entre panelas e temperos, Luzia segue preparando muito mais do que refeições. Na cozinha da escola, ela ajuda a alimentar histórias, valores e futuros.

