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Adib Massad morre como "lenda" e símbolo do "bandido bom, é bandido morto"

Fundador do GOF, que chegou a ser investigado por suspeita de ordenar execuções, foi sepultado nesta tarde

Por Marta Ferreira e Aletheya Alves | 04/03/2021 17:48
Cortejo fúnebre do coronel Adib Massad na tarde desta quinta-feira (4). (Foto: Kísie Ainoã)
Cortejo fúnebre do coronel Adib Massad na tarde desta quinta-feira (4). (Foto: Kísie Ainoã)

Foi sepultado nesta quarta-feira (4), em Campo Grande, o corpo de uma “lenda”. Na despedida ao coronel reformado da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul Adib Massad, morto aos 91 anos, esse foi um dos termos mais usados para definir o homem que, entre os anos 1980 e meados de 1990, era o símbolo de “tolerância zero”, a personificação do lema “bandido bom, é bandido morto”.

As homenagens foram muitas, começando com notas de pesar de todos os lados, de corporações de segurança aos políticos, com direito a decreto de luto por três dias no Estado. No velório, na Câmara de Vereadores de Campo Grande, o caixão foi cercado pela “câmara ardente”, como é chamada a guarda feita por quatro homens fardados, com os fuzis apontados para baixo, em sinal de reverência.

Esposa, Constantina Massad, se despedindo do coronel Adib. (Foto: Kísie Ainoã)
Esposa, Constantina Massad, se despedindo do coronel Adib. (Foto: Kísie Ainoã)

No funeral, honras militares, com salva de tiros. O cortejo de veículos foi extenso. As coroas de flores, pelo menos duas dezenas, exaltavam o “homem que honrou a farda da PM”, como descrito na nota de pesar da força de segurança.

A família, que ocupou o plenário da Câmara de Vereadores, em 20 cadeiras reservadas, estava consternada, obviamente, mas manteve tom contido.

Família em volta do caixão com coronel Adib, na Câmara de Vereadores. (Foto: Kísie Ainoã)
Família em volta do caixão com coronel Adib, na Câmara de Vereadores. (Foto: Kísie Ainoã)

Só a filha se manifestou.

Meu pai sempre foi um homem que ensinou princípios. Ele sempre dizia que a emoção não poderia governar nossas mentes”, declarou a produtora de beleza Liliane Massad boriero, 54 anos

De acordo com ela, o pai tinha o ensinamento também de que “nem todos os ciclos, se fecha ganhando, mas tempos oportunidades de acertar no outro ciclo”.

Ela diz ter aprendido a “amar a Deus e ao próximo” com Adib Massad e revelou que ele agia com os netos, são 8, da mesma forma que com os sete filhos.

Liliane Massad Boriero, 54 anos, relembrou que memória do pai fica como exemplo. (Kísie Ainoã)
Liliane Massad Boriero, 54 anos, relembrou que memória do pai fica como exemplo. (Kísie Ainoã)

“Quando netos chegavam na casa dele, o que ele achava correto se estendia à mãe e aos netos”.

Desde 2018, o coronel frequentava a igreja Assembleia de Deus da Família.  “É uma pessoa que deixou um legado, uma história, e uma família bem estruturada, fez história no nosso Estado, e zelou pela família. Ele era a família dele”, afirmou o pastor Jeremias Ferreira Mentes, líder religioso da comunidade.

Comandante Wagner Ferreira da Silva diz que Adib era considerado um pai. (Foto: Kísie Ainoã)
Comandante Wagner Ferreira da Silva diz que Adib era considerado um pai. (Foto: Kísie Ainoã)

Comandante da unidade criada e tornada famosa por Adib Massad,  Wagner Ferreira da Silva, relatou a dor de   perder uma referência.  “Até hoje, se vivência e experiência que nos trouxe. Muitos veem como pai que ensinou vários caminhos”, diz, “o DOF é modelo que não existia e tem sido copiado em vários estados, transcende Mato Grosso do Sul”, avalia.

Secretário de Estado de Justiça e Segurança Pública de MS, Antônio Carlos Videira reforçou o papel de Adib como exemplo para a polícia. "Ele não foi um pai só para mim, mas para todos que trabalhavam com ele. Se preocupava até com nossas finanças. Tivemos tempos difíceis, mas o maior legado que ele deixou foi o exemplo de homem e de policial".

Dois ângulos - A morte de Adib encerra trajetória que suscitava de um lado espécie de idolatria, de outro as acusações de propagar a cultura e a prática do extermínio de suspeitos de crime, em desrespeito aos princípios de direitos humanos internacionais e à legislação penal brasileira.

Na hora da morte, como se vê, o legado foi lembrado sempre com teor positivo, de alguém linha dura, implacável com a criminalidade na região de fronteira, onde atuou como fundador do GOF (Grupo de Operações de Fronteira), atualmente DOF. Comandou a unidade por 6 anos.

Adib atuou como fundador do DOF, antigo GOF. (Foto: Eliel Oliveira)
Adib atuou como fundador do DOF, antigo GOF. (Foto: Eliel Oliveira)

Mas nem sempre foi assim. Na década de 1990, organismos como a Comissão de Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e o Centro de Defesa dos Direitos Humanos Marçal de Souza carrearam pedidos de apuração de envolvimento dos policiais do GOF em execuções sumárias. Os corpos, segundo as informações de então, eram desovados, em reservas de água ou ainda numa pedreira abandonada.

Até a Câmara Federal produziu relatório sobre a violência na região e sobre indícios de envolvimento de militares com grupo de extermínio. Famílias de desaparecidos, que as diziam terem sido executados, foram ouvidas, inquéritos foram abertos, e encerrados sem apontar irregularidades na direção do “Coronel Adib”.

Policial da ativa por três décadas, ele foi reformado em 1994 e ainda permaneceu um ano no comando do GOF. Sua saída só ocorreu em 1995, depois de reportagem polêmica da rede de televisão SBT.

No material, Adib foi gravado sem saber admitindo a violência policial. Ele foi alvo de inquérito por determinação do Ministério Público de Mato Grosso do Sul, investigação arquivada em 1996.

Popularidade mantida - Neste mesmo ano, foi eleito vereador com 2.830 votos, o mais votado em Dourados. No primeiro ano do mandato, deu entrevista contando ir armado às sessões e declarando saudades das “barreiras nas estradas”.

Sua história já foi contada em livro e ele também é nome de comenda desde 2017. A horaria é dada pela Assembleia Legislativa a pessoas com serviços prestados à segurança pública.

Adid Massad morreu nesta terça-feira à noite depois de ficar internado no Hospital Unimed, em Campo Grande. A causa da morte foi falência múltipla de órgãos.

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