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Cidades

De "homem de 6 milhões de dólares" a fugitivo: 2020 termina diferente para Fuad

Apontado como cabeça de grupo criminoso, o "Rei da Fronteira" agora vive na clandestinidade

Por Marta Ferreira | 30/12/2020 12:51
Campo Grande News - Conteúdo de Verdade
Aos 39 anos, Fahd Jamil (primeiro à esquerda de casaco preto), em foto publicada pela revista Veja ao retratar prisão pela PF do PR. (Foto: Reprodução da Veja)
Aos 39 anos, Fahd Jamil (primeiro à esquerda de casaco preto), em foto publicada pela revista Veja ao retratar prisão pela PF do PR. (Foto: Reprodução da Veja)

O ano de 2020 até parece uma bolha no tempo diante das implicações da pandemia de covid-19, que para muitos embaralhou, adiou ou encerrou planos de vida. Mas ele termina com marco histórico em Mato Grosso do Sul no quesito combate ao crime. A operação Omertá, deflagrada há 450 dias, neste ano transformou a condição de novo nome poderoso: se em 2019,  Jamil Name “caiu” e ainda segue na cadeia como chefe de organização fora da lei em Campo Grande, foi a vez de o “Rei da Fronteira” terminar a temporada procurado pela polícia.

“Padrinho” ou “Rei da Fronteira” foi o status dado a Fahd Jamil Georges, 79 anos, durante anos e anos. Nesse tempo todo, o envolvimento dele com atividades ilegais era ignorado pelos agentes da lei, embora fosse comentário frequente e tenha sido relatado em mais de 200 peças enviadas ao antigo SNI (Serviço Nacional de Informações).

Para quem a memória não ajuda, esse era o órgão de “espionagem” criado durante os governos militares.

Nos documentos, “Fuad” é relatado com alguém altamente influente, ligado ao crime organizado, do contrabando de café e açúcar na década de 1990 ao tráfico de drogas e de armas mais para frente. A exploração da jogatina era outro negócio comandado pela família Georges, escreveram em relatórios sigilosos os agentes do SNI.

Página 26 da Veja em 23 de julho de 1980 fala de prisão de Fahd. (Foto: Reprodução do acervo da publicação)
Página 26 da Veja em 23 de julho de 1980 fala de prisão de Fahd. (Foto: Reprodução do acervo da publicação)

Apenas uma vez houve notícia de prisão de Fahd, há 40 anos, pela Polícia Federal do Paraná. Capturado em Campo Grande, ficou na penitenciária de Ahu, em Curitiba, prédio centenário desativado em 2006. Logo foi solto. A liberação foi festejada, retrata um dos únicos registros do episódio, a edição da revista Veja de 23 de julho de 1980.

Na capa da publicação, o assunto eram as Olímpiadas de Moscou, na então União Soviética, em tempos de Guerra Fria. Na página 26, o sul-mato-grossense é tratado como o "homem de seis milhões de dólares", valor equivalente, nos dias atuais, a trinta milhões de reais.

A acusação era de contrabandear café, ilícito comum nessa época e que foi atividade de origem de barões do tráfico de droga. No título, a alcunha de "Rei" já era conferida ao homem de 39 anos, dono de mansão de 3 mil metros quadrados com a característica diferenciada de ser réplica, na fachada, da famosa "Graceland", de Elvis Presley, o "Rei do Rock".

Jogatina - Contam os mais antigos que o “Padrinho” dividiu o antigo Mato Grosso quanto à exploração do jogo do bicho, delegando ao compadre Jamil Name cuidar do negócio irregular em Campo Grande.

As duas famílias conviviam como parentes, relação não confirmada pelos investigadores. Os filhos, "Jamilzinho", 43 anos, e Flávio Correa Jamil Georges, 42 anos, estão na mesma condição dos pais. Jamil Name Filho está preso em Mossoró (RN). "Flavinho", por sua vez, sumiu no mesmo dia que Fahd.

Fim de uma era - Foram quatro décadas sem ser incomodados ou perquiridos, até a Omertà ser desencadeada. Jamil, como se sabe, está preso desde setembro de 2019. A defesa tenta colocá-lo pelo menos em prisão domiciliar, sem êxito até agora. Em outra frente, o jogo do bicho enfrenta investida policial capaz de tirar os guichês da paisagem urbana de Campo Grande.

A empresa de título de capitalização da família Name também foi alvo da Omertà e está lacrada desde o começo do mês, com R$ 18 milhões bloqueados. Os sorteios, suspensos.

Na Avenida Monte Castelo, ficaram os vestígios de que ali havia uma banca do jogo do bicho. (Foto: Kísie Ainoã)
Na Avenida Monte Castelo, ficaram os vestígios de que ali havia uma banca do jogo do bicho. (Foto: Kísie Ainoã)

Procura-se - Fahd Jamil neste momento tem ordem de prisão em aberto, sob acusação de ser o cabeça de grupo criminoso atuante na região fronteiriça ao Paraguai, em Ponta Porã. No começo do ano, não aparecia em nenhuma ação penal. Era um homem livre.

Agora, são três ações contra ele, uma por corrupção ativa, outra por crimes contra o sistema nacional de armas e a última pelo homicídio do chefe de segurança da Assembleia Legislativa, Ilson Martins Figueiredo, de 62 anos. O fuzilamento foi durante emboscada na Avenida Guaicurus, em Campo Grande, no dia 11 de junho de 2018.

Segundo os indícios levantados, o sargento reformado da Polícia Militar foi vítima de vingança ao sumiço do filho mais velho de Fahd Jamil, Daniel Alvarez Georges, o "Danielito", aos 42 anos, em 2011.

Nunca se apontou culpado pelo desaparecimento de Daniel, dado oficialmente como morto só neste ano, em janeiro. Existem conjecturas de dissolvição do corpo em ácido mas, de concreto, nada.

Jamil Name e Fuad Jamil durante jantar festivo. No meio dos dois, o filho de Name, que é afilhado do "Rei da Fronteira" (Foto: Reprodução da internet)
Jamil Name e Fuad Jamil durante jantar festivo. No meio dos dois, o filho de Name, que é afilhado do "Rei da Fronteira" (Foto: Reprodução da internet)

Entretanto, as suspeitas acerca da autoria do crime recaiam sobre as pessoas de Claudio Rodrigues de Souza, vulgo “Meia Água”; Alberto Aparecido Roberto Nogueira, vulgo “Betão”; Ilson Martins Figueiredo e outras terceiras pessoas não identificadas”, descreve a peça acusatória sobre a morte do chefe de segurança da Assembleia Legislativa.

O texto prossegue contando que "Meia Água" foi assassinado em 18 de setembro de 2015, vítima de diversos disparos de arma de fogo, em Jandira (SP), e "Betão" morreu em 21 de abril de 2016 em Bela Vista (MS), ambos em situações de execução sumária semelhantes. A denúncia é assinada pelos promotores Douglas Oldegardo dos Santos, Moisés Casarotto e Wilson Canci Junior.

Nesse processo, são sete réus. Constam como acusados, além de “Fuad”, três apontados como integrantes da organização chefiada por Jamil Name e a outros três do grupo sob ordens de Fahd Jamil.

As duas maiores organizações criminosas de Mato Grosso do Sul, que têm comunicação entre si” foi a definição dada pelo delegado Márcio Shiro Obara, denunciado por receber propina de R$ 100 mil para encobrir ações fora da lei, de acordo com os autos.

O policial chegou a ficar preso por corrupção passiva e foi solto com monitoramento por tornozeleira eletrônica.

Nas palavras dos investigadores da Omertà, as milícias de Campo Grande e Ponta Porã agiam em consórcio para traficar armas, corromper agentes públicos de segurança e assassinar pessoas.

Atuavam na prática de ilícitos impelidos por questões pessoais e financeiras, dentre as quais se incluía a eliminação de seus desafetos ou rivais”, anota o Gaeco (Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado), braço do MPMS (Ministério Público Estadual) responsável pela Operação Omertà.

Para sustentar essa estrutura à margem da lei, havia sempre dinheiro envolvido, boa parte dele circulando de forma clandestina. A máfia, denota o material relatado à justiça, tinha gente com a tarefa específica de "transportador de dinheiro'

Imagem extraída de telefone celular de um dos envolvidos mostra transporte de dinheiro vivo em BMW. (Foto: Reprodução de processo)
Imagem extraída de telefone celular de um dos envolvidos mostra transporte de dinheiro vivo em BMW. (Foto: Reprodução de processo)

Na conta das mortes atribuídas às duas milícias, ainda que nem todas tenham elementos para responsabilização legal, o número de vítimas passa de duas dezenas.

Na representação solicitando ordem de prisão para 20 pessoas como parte da Omertà 3, denominada Armagedon, foram listados mais três episódios de execução na fronteira com caraterísticas semelhantes, além das mortes já citadas.

Outro caso em que os dois bandos agiram em conluio, indica a operação, é o assassinato de Orlando Orlando da Silva Fernandes, o “Bomba”. Ele foi metralhado no dia 26 de outubro de 2018.

Esse atentado, informa a força-tarefa, tem relação com a morte cinematográfica do traficante Jorge Rafaat, ocorrida em 2016, em Ponta Porã, com tiros de arma calibre .50.

Pela apuração policial feita, há indícios de que familiares de Rafaat e de Fahd Jamil solicitaram apoio para a organização criminosa liderada por Jamil Name e Jamil Name Filho para vingar a execução. O modo de atuação era similar, com levantamento dos dados e das rotinas das vítimas.

Viatura do Garras em frente à mansão da família Georges, na Vila Militar em Ponta Porã, no dia 18 de junho deste ano. (Foto: Divulgação)
Viatura do Garras em frente à mansão da família Georges, na Vila Militar em Ponta Porã, no dia 18 de junho deste ano. (Foto: Divulgação)

Agente duplo - Para esse trabalho, um dos principais colaboradores era o policial federal Everaldo Monteiro de Assis, 62 anos, preso desde a Omertà 1. Com mais de duas décadas de atuação, “Jabá”, como é conhecido, usava a estrutura pública de segurança para prestar serviços à bandidagem, dizem todas as peças acusatórias com seu nome.

Pen-drive encontrado com ele continha dados de vítimas executadas, numa espécie de fichário. O resumo tinha do telefone do alvo até o nome da mulher e da amante.

Transcrições de conversas por celular revelaram relação de proximidade de “Jabá” com membros das organizações.

Flavio Jamil Georges chamava Everaldo de “amigo” e recebia a recíproca. A investigação identificou transferência bancária de R$ 2,5 mil de "Flavinho" para “Jabá” no período investigado.

Ao ser confrontado com essa informação, o policial disse que trazia encomendas para a família do Nordeste, região da qual é originário. Em depoimento no dia 30 de junho deste ano, “Jabá” contou ter trazido 31 quilos de castanha para a família Georges de avião.

Para a força-tarefa, a explicação é "risível". A taxa para transportar a bagagem, entendem as autoridades, tornaria a encomenda inviável.

Conversa entre o policial federal Everaldo e Flavinho extraída de celular apreendido na operação Omertà. (Foto: Reprodução de processo)
Conversa entre o policial federal Everaldo e Flavinho extraída de celular apreendido na operação Omertà. (Foto: Reprodução de processo)

Para a Operação Omertà, sob ordens da quadrilha chefiada por Fahd Jamil, o policial federal criou “estrutura paralela criminosa para a obtenção de informações sigilosas em benefício da organização criminosa".

Até mesmo funcionários de empresas telefônicas eram corrompidos com esse fim, para fornecer extratos telefônicos e informações sobre localização de vítimas potenciais.

Ao todo, considerando o grupo fora da lei chefiado por Fahd Jamil, são 20 pessoas acusadas. O fugitivo tem mais de uma dezena de advogados representando-o.

Em pedidos à Justiça para se livrar da ordem de prisão, a justificativa apresentada tem sido a saúde frágil, com histórico recente de tratamento contra o câncer. Quanto às denúncias, a banca de advogados tem alegado falta de provas, mas em nenhuma das ações foram apresentadas ainda as peças que serão consideradas no andamento processual.

No estilo dos mafiosos dos tempos contemporâneos, as captações feitas pela equipe da operação Omertà identificaram só uma fala atribuída a Fahd Jamil, em mensagem de voz pelo WhatsApp.

Depois de usar o tratamento “meu irmão”, ele diz ao interlocutor para ficar tranquilo, que já foi colocado a par de situação não especificada.

Vou tomar minhas providências amanhã. Boa sorte para vocês”, conclui o "Padrinho", expõe os documentos da operação .

Por enquanto, os pedidos de habeas corpus em nome de Fahd Jamil Georges foram negados, tanto na Justiça Estadual quanto no STJ (Superior Tribunal de Justiça) e o ex-chefão poderoso da fronteira no momento está em lugar incerto e não sabido, como diz o jargão. De "homem de seis milhões de dólares", hoje vive clandestinamente.

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