Infectologista da UFMS diz que Nipah não representa ameaça imediata ao Brasil
Doença grave transmitida por animais reapareceu na Índia após quase duas décadas

O vírus Nipah voltou ao noticiário internacional após a confirmação recente de casos entre profissionais de saúde no estado de Bengala Ocidental, na Índia — uma região que não registrava ocorrências desde 2007. O reaparecimento acendeu alertas em diferentes países, mas, segundo especialistas, não há motivo para pânico no Brasil.
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De acordo com o médico infectologista do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS/Ebserh), Alexandre Bertucci, mestre em Doenças Infecciosas e Parasitárias, a chance de o vírus provocar surtos em território brasileiro é considerada muito baixa. Em geral, o risco estaria limitado à entrada pontual de casos importados, diretamente ligados a áreas onde há circulação ativa do patógeno, como a Índia.
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“A principal mensagem para a sociedade é evitar o alarmismo. Embora seja uma doença grave, com alta letalidade, o risco de transmissão e chegada do vírus Nipah ao Brasil é considerado muito baixo”, explica o infectologista.
O Nipah é classificado como uma doença zoonótica — ou seja, transmitida de animais para seres humanos. Seu principal reservatório natural são os morcegos frugívoros do gênero Pteropus, conhecidos como morcegos-das-frutas. A infecção pode ocorrer pelo contato direto com secreções desses animais, como saliva e secreções respiratórias, ou ainda pelo consumo de alimentos contaminados.
Além dos morcegos, outros animais podem participar do ciclo da doença. Os porcos, por exemplo, já atuaram como hospedeiros intermediários em surtos anteriores. Também há registro de transmissão entre humanos, especialmente em ambientes hospitalares, por meio do contato com secreções respiratórias e fluidos corporais — fator que explica a rápida disseminação observada em episódios ocorridos entre 2001 e 2008, principalmente em Bangladesh.
Um dos grandes desafios do vírus Nipah está no diagnóstico. Segundo Alexandre Bertucci, os sintomas iniciais são comuns a diversas doenças respiratórias, o que pode atrasar a suspeita clínica.
Os sinais costumam surgir entre três e 14 dias após o contato com o vírus e incluem febre, dor de garganta, tosse, dor de cabeça e falta de ar. Em parte dos pacientes, porém, o quadro evolui de forma rápida e agressiva, atingindo o sistema nervoso central. Tontura, sonolência excessiva, confusão mental e alteração do nível de consciência podem indicar encefalite aguda — inflamação grave do cérebro que pode levar à morte em até 75% dos casos.
Nas fases iniciais, o diagnóstico é feito por meio da identificação do vírus em amostras de sangue, urina, líquor e secreções da garganta e do nariz, exames que exigem estrutura laboratorial especializada.
Até o momento, não há tratamento específico nem vacina contra o vírus Nipah. O cuidado médico é baseado em tratamento de suporte, com hidratação, controle dos sintomas e monitoramento rigoroso das complicações respiratórias e neurológicas.
Por isso, a prevenção segue sendo a principal estratégia. Entre as medidas recomendadas estão o isolamento de casos suspeitos, a higienização frequente das mãos, o uso de máscaras, a evitação de contato com pessoas doentes e animais potencialmente infectados, além do cuidado com alimentos que possam ter sido contaminados. Em unidades de saúde, o reforço das normas de biossegurança é fundamental.
Nesse contexto, os hospitais universitários da Rede Ebserh têm papel estratégico. Segundo o infectologista, instituições como o Humap-UFMS atuam diretamente na vigilância, identificação precoce e resposta rápida diante de possíveis casos suspeitos.
“A contribuição dos hospitais universitários é essencial, principalmente na investigação de quadros de encefalite aguda associados a histórico de viagem ou vínculo epidemiológico com áreas de transmissão, além do acionamento imediato da vigilância em saúde”, destaca.
Por fim, o especialista reforça que informação de qualidade é a melhor aliada da população. Buscar dados em fontes oficiais, como o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OMS), ajuda a evitar desinformação, boatos e fake news — e garante que o cuidado venha antes do medo.

