ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
JUNHO, QUINTA  18    CAMPO GRANDE 26º

Cidades

Justiça proíbe nova ação da PM para retirar indígenas de fazenda

Decisão impede intervenção policial sem acompanhamento da Funai, MPF e Polícia Federal em área de litígio

Por Anahi Zurutuza e Helio de Freitas, de Dourados | 18/06/2026 14:14
Justiça proíbe nova ação da PM para retirar indígenas de fazenda
Policial militar durante ação na Fazenda Limoeiro, em Amambai, na tarde desta quarta-feira (Foto: Direto das Ruas)

A Justiça Federal proibiu que a PM (Polícia Militar) faça novas operações para despejo de indígenas na Fazenda Limoeiro, em Amambai, sem decisão judicial prévia e sem acompanhamento de órgãos federais. A ordem consta em decisão da 2ª Vara Federal de Ponta Porã, assinada nesta quinta-feira (18), no processo que discute a posse da área próxima à Aldeia Limão Verde.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

A Justiça Federal proibiu que a Polícia Militar realize operações de despejo de indígenas na Fazenda Limoeiro, em Amambai, sem decisão judicial e sem acompanhamento da Funai, MPF e Polícia Federal. A ordem foi assinada pela juíza Amanda Ferreira após ação policial com uso de bombas e balas de borracha contra guaranis-kaiowás. O Ministério dos Povos Indígenas reforçou a Força Nacional na região.

A juíza federal Amanda Duarte de Almeida Ferreira determinou que “nenhuma ação policial deverá ser adotada na propriedade sem decisão judicial prévia que a fundamente e sem que a operação seja acompanhada da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), MPF (Ministério Público Federal) e Polícia Federal, sob pena de responsabilização funcional dos agentes envolvidos”.

O despacho é de 1h de hoje, na mesma sentença que concedeu interdito proibitório para impedir novas ocupações da Fazenda Limoeiro. Ou seja, a ordem protege a posse alegada pelo produtor rural, mas não libera operação de retirada das famílias guarani-kaiowá em nova análise judicial.

A ação pede proteção possessória da Fazenda Limoeiro, localizada às margens da MS-156. Segundo a decisão, o autor apresentou escritura pública de compra e venda, certificado de imóvel rural, Cadastro Ambiental Rural, contrato de arrendamento e declaração do ITR (Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural) para demonstrar a posse.

A juíza também considerou que havia ameaça concreta à posse, com base em boletim de ocorrência e registros audiovisuais. A ocorrência teria motivado o acionamento da PM e posterior, tentativa de desocupação da área na tarde desta quarta-feira (17). Os guarani e kaiowá relataram que foram alvo de uma ação policial com uso de bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e disparos de balas de borracha.

A decisão registra, porém, que o juízo foi informado de que a situação estava controlada, sem feridos, e que houve notícia da prisão de um indígena que portava arma branca.

A liminar determina a expedição de mandado proibindo invasões na propriedade e em caso de descumprimento, fixa multa de R$ 5 mil por dia, a recair sobre pessoas identificadas como responsáveis e, de forma subsidiária, sobre lideranças ou representantes da comunidade que forem apontados como condutores da conduta coletiva. A multa não atinge a Funai nem a União.

A Justiça também deixou claro que a decisão tem caráter preventivo e não resolve a disputa fundiária. No despacho, a juíza afirma que existe controvérsia sobre ocupação tradicional da área e eventual procedimento administrativo, mas que não há demonstração de conclusão de processo demarcatório ou reconhecimento administrativo definitivo da área como terra indígena.

Ainda assim, a liminar não autoriza remoção compulsória de pessoas eventualmente presentes na área.

A PM de Amambai terá de encaminhar, em 48 horas, relatório sobre a ocorrência de 17 de junho. O documento deverá informar o motivo e horário do acionamento, efetivo empregado, número de pessoas encontradas no local, eventual identificação dos envolvidos, circunstâncias da desocupação, possível uso de força e situação atual da fazenda e das imediações.

A Funai também foi intimada a acompanhar o cumprimento do mandado e, em cinco dias, informar nomes de lideranças, representantes ou interlocutores da Aldeia Limão Verde eventualmente conhecidos pelo órgão, além de indicar meios adequados de comunicação com a comunidade.

Reforços – A decisão foi citada em nota divulgada pelo MPI (Ministério dos Povos Indígenas), que informou o reforço do efetivo da FNSP (Força Nacional de Segurança Pública) no Cone Sul de Mato Grosso do Sul. Segundo o ministério, a ampliação foi autorizada pelo MJSP (Ministério da Justiça e Segurança Pública) diante do aumento de conflitos fundiários no Estado e após nova intervenção da PM na região de Amambai.

A nota também informa que foi realizada reunião de emergência com representantes da Secretaria-Geral da Presidência da República, MPF, DPU (Defensoria Pública da União), Funai e CNJ (Conselho Nacional de Justiça). Os órgãos defenderam observância rigorosa da legalidade e de protocolos judiciais em ações de segurança envolvendo reintegrações de posse e direitos coletivos.

Outro lado – O caso ocorre no mesmo dia em que o governador Eduardo Riedel (PP) defendeu publicamente a atuação do Estado em conflitos fundiários. Durante evento na Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul), ele afirmou que Mato Grosso do Sul “não vai tolerar nenhum tipo de desordem” e disse que não há “um palmo de terra” onde o Estado não possa atuar para garantir ordem, institucionalidade e direitos.

Riedel citou conflitos em Sidrolândia e Amambai e defendeu que crime deve ser tratado como crime, independentemente de quem o pratique.