Vizinhos só no mapa: sem voo direto, Campo Grande a Cuiabá leva 5x mais tempo
Antes feito em 1 hora, o trajeto hoje pode levar até 6 horas

Campo Grande e Cuiabá são duas capitais vizinhas, unidas por uma forte relação econômica, mas que, na prática, ficaram muito mais distantes. O que antes era resolvido em 1 hora de voo direto agora pode levar até 6 horas, com conexões em São Paulo ou Brasília.
RESUMO
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A suspensão dos voos diretos entre Campo Grande e Cuiabá, operados pela Azul em julho do ano passado, tem gerado prejuízos econômicos e operacionais para empresários e trabalhadores dos dois estados. O trajeto, antes resolvido em uma hora, passou a exigir conexões em São Paulo ou Brasília, ampliando o tempo de viagem para até seis horas. Empresas fecharam filiais e profissionais passaram a optar pelo carro ou ônibus. A Fundação de Turismo de MS negocia a retomada da rota.
A realidade impacta principalmente empresários e trabalhadores que precisam se deslocar com frequência entre Mato Grosso do Sul e Mato Grosso.
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A alternativa aérea, em muitos casos, chega a consumir quase o mesmo tempo de uma viagem de carro, que leva entre 8 e 10 horas. De ônibus, é preciso reservar praticamente metade do dia para chegar à capital mato-grossense, em torno de 12h
Os dois estados mantêm vínculos estreitos principalmente nos setores de agronegócio, pecuária, agroindústria e logística. Mato Grosso se destaca na produção de soja, milho, algodão e carne bovina, enquanto Mato Grosso do Sul tem participação expressiva na produção de soja, milho e carne, além de cadeias como celulose, açúcar e etanol.
Nesse cenário, a ausência de uma ligação aérea direta deixa de ser apenas uma dificuldade para quem viaja a lazer e passa a representar um entrave para empresários, trabalhadores e empresas que mantêm negócios dos dois lados da divisa.
Conexão - A conexão entre Campo Grande e Cuiabá já foi uma rota aérea habitual. Companhias como Varig, Tam e Avianca ofereciam o trecho direto. Nos últimos anos, a esperança de manter a ligação direta ficou concentrada na Azul, que acabou suspendendo a operação em julho do ano passado. A decisão ocorreu em meio ao processo de recuperação judicial da companhia.
Pelo aplicativo da Decolar, uma passagem de última hora, com saída no dia 15 de agosto, pela Azul e conexão no Aeroporto Internacional de Viracopos, em São Paulo, custa R$ 1.481 somente a ida.
Para 1º de setembro, por exemplo, a opção mais barata encontrada para a ida custa R$ 756. De ônibus, o valor varia entre R$ 320 e R$ 445.
Viajar para Cuiabá faz parte da rotina do empresário Miro Ceolim desde 1990. Ao longo dos anos, porém, ele precisou mudar a forma de fazer o trajeto depois da suspensão dos voos diretos.
“É uma rotina que eu faço mais de uma vez por mês. Sempre fazia de avião, teve uma época que tinha três voos diários, três companhias diferentes. Esse voo costumava ser lotado e caro. Se deixava para comprar em cima da hora, não encontrava”, lembra. “Às vezes, os tempos de carro e de avião ficam muito parecidos”, completa.
Agora, Miro tem recorrido ao transporte de carro, uma alternativa que, segundo ele, aumenta tanto o tempo da viagem quanto a exposição aos riscos da estrada, que tem trecho sem duplicação.
“É difícil entender o porquê, a questão é muito mais de tempo do que outra coisa, além da exposição do risco que é andar na estrada”, ponta
A frequência das viagens mostra o potencial de demanda da rota. Segundo o empresário, pelo menos 100 trechos poderiam ser comprados por ele ao longo de 1 ano, já que costuma ir ao estado vizinho a cada duas ou três semanas. Se as viagens fossem feitas com a família, esse número poderia chegar a 200 passagens.
A dificuldade de deslocamento também afetou diretamente os negócios do advogado Carlos Marques. Ele mantinha uma extensão de seu escritório em Cuiabá, mas decidiu encerrar a unidade justamente diante das dificuldades para viajar até lá.
“Eu tinha uma base do escritório lá em Cuiabá, que acabei encerrando sobre tudo pela dificuldade, tem que ir para São Paulo, passa o dia inteiro para fazer uma audiência, reunião. Muitos colegas tem ido de carro pela dificuldade de voo”, disse.
Diante da situação, Marques passou a contratar advogados correspondentes para atender demandas no estado vizinho.
“Se tivesse o voo, eu teria mantido. Eu ia pelo menos uma vez por mês para Cuiabá. Depois, fui três, quatro vezes via São Paulo, demora demais, tem a conexão”.
O caso evidencia como a ausência da ligação aérea pode ultrapassar o incômodo de uma viagem demorada e influenciar decisões empresariais, inclusive a manutenção de estruturas físicas em outro estado.
A falta de voos diretos também impôs mudanças na rotina da Panan Refrigeração, que mantém operações nas duas capitais. A empresa está presente em Cuiabá há 34 anos e atua em Campo Grande há 45 anos, com deslocamentos, pelo menos, uma vez ao mês entre as unidades.
Para o sócio-proprietário Roberto Rech, a dificuldade de conexão entre os dois locais não faz sentido diante da proximidade e da intensa relação comercial.
“São duas capitais do Centro-Oeste e separaram mesmo, tem que ir para São Paulo, São Paulo, Cuiabá. Uma coisa que é tão comum o transporte aéreo, deixa a desejar, uma coisa que é absurda, que não dá para entender. Não é só ganhar dinheiro, é ganhar dinheiro e servir. Quantas empresas tem filial lá?, questionou.
A empresa precisa deslocar colaboradores entre as duas cidades, mas o transporte aéreo deixou de ser uma opção prática.
“Temos colaboradores indo daqui para lá, de lá para cá, tem que optar por ônibus ou de carro. A parte aérea ficou inviável, pelo custo e pelo tempo”, disse.
Demanda - A Fundtur-MS (Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul) reconhece a importância da ligação e informou ao Campo Grande News que a retomada do voo direto já vem sendo negociada há algum tempo.
“Já estamos conversando a um tempo, especialmente com a Azul, sobre a volta do voo, já que era a companhia aérea que operava a rota. Claro que é uma linha importante quando se pensa nas relações comerciais entre os estados”, destaca o diretor-presidente, Bruno Wendling.
Segundo ele, a recuperação das conexões aéreas não se limita a Cuiabá. “Curitiba também. E estamos trabalhando para recuperar pouco a pouco. Como o voo de Belo Horizonte (MG) que voltou a operar e havia sido cancelado durante a pandemia”, completou.
A Aena, empresa que administra o aeroporto de Campo Grande, informa que mantém diálogo constante com companhias aéreas para atrair novas rotas para a cidade. "O trabalho de ampliação da oferta de assentos inclui a prospecção de novas rotas, a busca pelo incremento do número de voos e por operações em aeronaves maiores", disse em nota.
O Campo Grande News entrou em contato com as companhias aéreas Azul, Gol e Latam sobre a demanda e retorno da rota, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.
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