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Cidades

Presos em 2015, irmãos "voltaram à Denar" clientes de policiais, diz Gaeco

Edimilson e Itamar Santos Pereira aparecem em conversas sobre cocaína apreendida pela delegacia que os prendeu

Por Anahi Zurutuza | 27/09/2026 11:53
Presos em 2015, irmãos "voltaram à Denar" clientes de policiais, diz Gaeco
Itamar dos Santo Pereira e Edmilson Santos Pereira quando foram presos em 2015 (Foto: Campo Grande News/Arquivo)

Em setembro de 2015, Itamar dos Santos Pereira e Edimilson Santos Pereira foram presos pela Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico) com mais de 30 quilos de cocaína em Campo Grande. Onze anos depois, os nomes dos irmãos reaparecem em uma investigação sobre a própria delegacia. Segundo o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), policiais passaram a oferecer drogas apreendidas ao grupo ligado aos dois, em negociações intermediadas por Lucas da Silva dos Santos, o “LK”.

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Irmãos presos em 2015 com 30 quilos de cocaína em Campo Grande voltaram ao centro de investigações do Gaeco, desta vez como supostos compradores de drogas desviadas por policiais da própria Denar. A Operação Infiltrados aponta que agentes revendiam entorpecentes apreendidos desde 2021, com intermediação de Lucas da Silva dos Santos. O delegado Hoffman D'Ávila Cândido e Sousa, que chefiou a delegacia por sete anos, é apontado como líder do esquema. Edimilson e Itamar são considerados foragidos.

A prisão de 2015 ocorreu no Jardim Itamaracá, após cerca de cinco meses de investigação. Na época, a Denar informou ter apreendido cocaína avaliada em R$ 260 mil, além de um Audi A4, um New Beetle e um Palio. Itamar foi abordado com dois quilos da droga. Depois, os policiais prenderam Edimilson durante uma entrega de 12 quilos. Outros 18 quilos foram encontrados na casa de Itamar, conforme a reportagem publicada naquele ano.

A relação investigada começou anos depois daquela prisão. Os “irmãos do tráfico” passaram de alvo a “clientes” do estoque da Denar. Nos autos da Operação Infiltrados, o Gaeco sustenta que, a partir de 2021, policiais civis passaram a usar o acesso a apreensões para retirar drogas dos registros oficiais ou dos depósitos da delegacia e revendê-las.

O delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, que comandou a Denar por sete anos, é apontado como responsável por comandar o esquema e LK teria feito a ponte entre os agentes e os compradores.

Segundo o Gaeco, ele fornecia informações sobre carregamentos, negociava a parcela de droga destinada ao grupo e cuidava da revenda. Uma das linhas da investigação é que essa aproximação começou após Lucas ser levado à Denar em abril de 2021 pelos policiais Neverson Vieira de Araújo e Adriano Luiz Graeff. A ocorrência foi registrada como desobediência e desacato, sem apreensão de droga.

Posteriormente, os investigadores identificaram três transferências de Lucas a Neverson, que somam R$ 1,5 mil, e, em uma conversa interceptada, outro investigado relata que LK teria começado a trabalhar com policiais depois de ser abordado.

As negociações – Um dos episódios examinados pelo Gaeco ocorreu em novembro de 2022. Os investigadores Neverson Vieira de Araújo e Nilton Cesar Sales dos Santos participaram de uma apreensão de 30 quilos de pasta-base de cocaína formalizada pela Denar no dia 29 daquele mês.

Em 1º de dezembro, Edimilson e Itamar conversaram sobre a carga. Para o Gaeco, o diálogo indica que policiais pretendiam vendê-la ao grupo dos irmãos, mas acabaram divulgando a apreensão, o que deixou LK com o “pé atrás”.

Duas semanas depois, outra apreensão entrou nas conversas. Em 14 de dezembro de 2022, uma carga de 326 quilos de cocaína recolhida em operação da PRF (Polícia Rodoviária Federal) e do Dracco (Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado) chegou à Denar às 13h04. Às 13h52, segundo o relatório do Gaeco, Edimilson e LK já tratavam da possibilidade de comprar parte da droga. A investigação associa essa negociação aos policiais Neverson Vieira de Araújo, Nilton Cesar Sales dos Santos e Roberto Palmeira da Silva.

Três dias depois, LK teria enviado a Edimilson a fotografia de um tablete com a inscrição “BUGATTI”, marca também identificada em parte da carga apreendida. Nas conversas seguintes, os envolvidos discutiram valores e a possibilidade de obter 40 quilos da droga.

Para o Gaeco, a foto e os diálogos reforçam a suspeita de que policiais ofereciam droga mantida sob custódia da delegacia. Os autos atribuem a outros policiais funções no núcleo operacional suspeito de rastrear carregamentos, participar de apreensões e repassar entorpecentes.

Além dos três nomes ligados pela investigação à negociação da carga de dezembro, o núcleo inclui os policiais civis Augusto Torres Galvão Florindo, Douglas Tobias, Luiz Carlos de Souza, Marcos André Santos Chaves e Nelson Ricardo Barros de Oliveira.

Edimilson também aparece em outra frente da apuração sobre a infiltração do tráfico no Estado. Na Operação Blindspot, o Gaeco apontou que o policial penal Jonathas Wilson Moraes Cândido compartilhava com ele informações restritas sobre presos, veículos e operações. Os irmãos foram denunciados naquela ação penal.

As defesas dos policiais e de outros alvos da Operação Infiltrados afirmaram que não haviam recebido acesso integral aos autos e que se manifestariam após analisar os elementos da investigação. Mas o espaço segue aberto para futuras manifestações.

A defesa de LK deu resposta semelhante e questionou a prisão de seus familiares. Segundo o Gaeco, Edimilson e Itamar são considerados foragidos.