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Capivara Criminal

A "parábola" de Frank: pregador, estuprador, assassinado

História de Frank de Lima Alvisso, morto em março de 2021, expõe contrassensos sobre a maldade humana

Por Marta Ferreira | 16/05/2021 07:45
Local onde o corpo de Frank de Lima Alvisso foi desovado pelos assassinos, no dia 3 de março. (Foto: Arquivo/Campo Grande News)
Local onde o corpo de Frank de Lima Alvisso foi desovado pelos assassinos, no dia 3 de março. (Foto: Arquivo/Campo Grande News)

Não há limites para o debate das coisas ruins que o ser humano pode fazer.  Está na Bíblia, frequenta o pensamento filosófico, político, intriga a psicologia e a psiquiatria, perpassa o entendimento de sociedade. Lateja, pelo menos na maior parte de nós, a interrogação sobre como enfrentar os produtos da maldade "banal", que mata, que violenta sexualmente, que causa luto e traumas insondáveis.

Existe a lei, é claro, mas o dia a dia de quem lida com o lado feio das pessoas mostra como ele pode aflorar "do nada". Ou estar presente sempre.

Não raro, o mesmo cidadão é vítima e algoz. A edição deste domingo da "Capivara Criminal" fala de Frank de Lima Alvisso, morto aos 49 anos, vítima de espécie de justiçamento, no dia 3 de março de 2021, em Campo Grande.

Num canto obscuro das bordas da cidade, Frank foi assassinado porque devia 78 reais de cerveja.

Primeiro, foi agredido com taco de sinuca, depois ferido fatalmente a tiro, disparado pelas costas. O corpo, desovado igual carcaça de bicho, em rua Bairro Los Angeles, onde escorre água podre e há lixo acumulado.

Os matadores, identificados pela DEH (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Homicídios), estão presos. São eles o dono do bar improvisado na janela de casa na mesma região e mais quatro pessoas, parte delas ligadas à facção criminosa PCC.

Vítima e algoz - Frank, como eu e você, tinha passado. E na vida pregressa dele reside o paradoxo exposto no início do texto.

O mesmo homem morto de forma cruel, era acusado de maldades severas, ou infrações penais, tal qual define a legislação. A lista de crimes dos quais era suspeito tem roubo,  estupro, lesão corporal em acidente de trânsito no qual estava bêbado e violência sexual dentro da própria família.

Em vídeo de setembro de 2017, Frank aparece durante pregação religiosa em Cuiabá. (Foto: Reprodução do Youtube)
Em vídeo de setembro de 2017, Frank aparece durante pregação religiosa em Cuiabá. (Foto: Reprodução do Youtube)

Estupro em boate - Junto com outro homem, Frank era réu por roubo e contra duas mulheres em "lupanar", segundo descrito no processo, da cidade de Costa Rica, município sul-mato-grossense próximo da divisa com Goiás. O caso aconteceu em 13 de novembro de 2013.

A dupla foi ao lugar, consumiu bebidas, roubou R$ 210 e os celulares das mulheres, cometeu violência sexual, e ainda levou uma motocicleta.

O fato foi dividido em duas investigações.A acusação por roubo qualificado estava parada quando ele morreu. Havia pedido da defesa para declaração de insanidade mental de Frank.

Quando ao estupro, ainda estava na fase de inquérito, pois não havia representação das vítimas pela investigação nem exame de corpo de delito anexados, conforme apurado.

A "Capivara Criminal" localizou as mulheres. Ao saber que um dos estupradores morreu, a primeira delas se divide entre alívio e sensação de impunidade eterna.

Me passava pela cabeça: será que ele pagou o que fez conosco ? Será que se ele tivesse feito diferente aquele dia ele teria uma morte menos sofrida?", indaga a ex-funcionária da boate.

O impacto da violência vivida não foi embora, e ela nem sabe se irá algum dia. "Eu vivo com medo. Esses dias mesmo passou um homem numa carreta aqui que parecia demais com o outro agressor, até a cara ruim, sabe?", conta.  "Passei muito mal, fiquei ruim por dias com medo e tudo mais", cita.

A outra vítima, quando procurada, se negou a falar do assunto. Contou ter ido embora de Mato Grosso do Sul para refazer a vida.  Não quer reviver nem em palavras.

Frank é nascido em Porto Vilma, distrito de Deodápolis, em Mato Grosso do Sul, mas pelos levantamentos feitos, teve vida nômade.

Suspeita de violência sexual da parte dele também foi encontrada no meio familiar. O boletim de ocorrência foi feito em Curitiba (PR). A informação dada à polícia por alguém próximo do homem é que três crianças contaram ter sido abusadas, por vários anos.

A partir do relato de uma sobre contato de cunho sexual, as outras duas admitiram a violência. Entre as cenas resgatadas, está a de Frank obrigando criança de 4 anos a fazer sexo oral. Não vão ser fornecidas idades nem grau de proximidade para proteger as vítimas.  Esse tipo de processo é sigiloso. Não foi identificado o desfecho.

No Mato Grosso, onde também viveu, Frank deixou para trás ação penal por provocar acidente de trânsito bêbado, no dia 6 de outubro de 2010, em rodovia cuiabana. Duas mulheres ficaram feridas. O motorista fugiu sem prestar socorro.

Esse ilícito não teve punição porque simplesmente prescreveu. Ou seja, o judiciário perdeu o prazo para aplicar a Frank de Lima Alvisso a pena prevista. Pelo que consta dos autos, ele apenas pagou fiança em torno de R$ 800 quando houve o acidente e depois não mais apareceu para prestar contas.

"Parábola do pássaro" - Não bastassem todos esses fatos, outro elemento torna o personagem deste domingo repositório da possibilidade humana de transgredir a compreensão sobre os contrassensos de homens e mulheres.

O mesmo homem cuja vida foi ceifada de forma  violenta, acusado de atos reprováveis, para dizer o mínimo, foi também líder religioso, cristão pentecostal. Pregava o respeito aos ensinamentos de Jesus Cristo.

"Irmão Frank" foi missionário da CCB (Congressão Cristã do Brasil), viajando por exemplo para estados do Norte do País, além do vizinho Mato Grosso. Vídeo ao qual a coluna teve acesso mostra pregação de 13 minutos, na qual ele conta a "parábola do pássaro", para fieis reunidos em chácara de Cuiabá.

Na gravação, feita no feriado de 7 de setembro de 2017, em tom emocionado, Frank lidera o momento de louvor, falando sobre um pássaro vítima do "caçador maldito", que o prendeu em gaiola, cortou as asas, o bico, para impedir o voo e o canto que alegravam a cidade.

A moral da mensagem é de que a ave, ainda que com as mutilações feitas pelo malfeitor, teve a benção de Deus para voar e cantar novamente.

Para Frank, no ano de 2021, o caçador maldito foram os bandidos que decidiram fazer, com as próprias mãos, a justiça dos homens. Os cinco acusados mandando para o túmulo, junto com o morto, as chances de Frank pagar pelas provações impostas por ele a outras pessoas.

Com a morte, o corriqueiro é a Justiça oficializar a extinção da punibilidade.  Quanto aos assassinos de Frank, estão engaiolados, à espera de julgamento.



 (*) Marta Ferreira, que assina a coluna “Capivara Criminal”, é jornalista formada pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), chefe de reportagem no Campo Grande News. Esse espaço semanal divulga informações sobre investigações criminais, seus personagens principais, e seu andamento na Justiça.

Participe: Se você tem alguma sugestão de história a ser contada, mande para o e-mail marta.ferreira@news.com.br. Você também pode entrar em contato pelo WhatsApp, no Canal Direto das Ruas, no número  67 99669-9563.



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