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Campo Grande, Quarta-feira, 24 de Abril de 2019

02/11/2018 15:59

Cido cuida sozinho de cemitério no meio do nada onde filha foi sepultada

Angélica teria 25 anos se uma pneumonia não a tivesse levado aos 11 meses de vida

Geisy Garnes e Guilherme Henri
Há seis meses, Cido assumiu a limpeza do cemitário (Foto: Kísie Ainoã )Há seis meses, Cido assumiu a limpeza do cemitário (Foto: Kísie Ainoã )

Longe do centro da cidade e cercado por propriedades rurais, o pequeno cemitério foi construído para abrigar os parentes que partiram da vida de quem sobrevive da terra. É ali, no cenário tranquilo, que Cido enterrou a filha há 25 anos e que agora escolheu para cuidar e cultivar a saudade daqueles que ama.

A história de Aparecido Rodrigues da Silva, o Cido Braquiária, no Cemitério Três Barras começou há 25 anos, quando perdeu a filha de 11 meses para a pneumonia. A menina, que se chamava Angélica, foi enterrada ali, junto com os tios e sobrinhos do pai.

Foi a saudade da família que levou Cido ao cemitério há seis meses, mas onde antes se via cerca de 200 túmulos, ele só conseguiu enxergar mato e abandono. “O matagal tinha consumido tudo. Tinha muito bicho, muito tatu”, lembrou. “Fiquei muito triste com o abandono”.

A solução para ele foi arregaçar as mangas. Aos poucos Cido começou a limpar não só os túmulos dos parentes, mas também de todos os desconhecidos enterrados ali. Nesta sexta-feira, Dia dos Finados, todo o terreno de 10 mil m² estava limpo, sem lixo, destacando ainda mais as lembranças e histórias em cada pedacinho do local.

Foi com ar de surpresa que o advogado Nei Salviando, de 58 anos, entrou no cemitério nesta tarde. Acostumado a visitar os avós no dia dos finados, se admirou com o cuidado e limpeza do local.

O contraste são os túmulos desgastados, que servem como prova do tempo em que o cemitério “sobrevive” no meio do nada. “Esse cemitério foi criado para enterrar um parente de um proprietário da região”, lembrou Cido. Antes uma casinha marcava o local em que a primeira pessoa foi enterrada. hoje o ponto se transformou um cantinho de terra cercado por arame, com um pedaço de madeira azul, já desgastado.

Para continuar cuidando do cemitério, Cido resolveu rifar uma bicicleta que tinha em casa. Com uma foto do prêmio em uma das mãos e a cartela de nomes em outra, ele oferece a quem encontra. O dinheiro vai ajudar na compra de material e veneno, tudo o que falta para continuar com a limpeza do terreno.

Apesar do movimento de parentes nesta sexta-feira, é fácil encontrar aqui e ali túmulos abandonados, mas para Cido isso não importa, ele cuida de todos como se cada pessoa enterrada ali fosse parte de sua família.




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