Ciúmes por mensagem pode ter motivado feminicídio a golpes de foice
Amigo relata histórico de ameaças, agressões e comportamento violento do suspeito, que segue foragido
Amigo de Joseane Oliveira Nunes, de 33 anos, morta com golpes de foice na cabeça na noite desta quarta-feira (19), no Bairro Cristo Redentor, em Campo Grande, acredita que o crime tenha sido motivado por ciúmes. O homem, que pediu para não ser identificado, esteve no local na manhã desta quinta-feira (20) e relatou à reportagem o que teria acontecido nas horas que antecederam o feminicídio.
RESUMO
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Segundo ele, na noite do crime, duas amigas estavam com Joseane na casa, mas ele disse não conhecê-las. Os três filhos da vítima não moravam no imóvel. Na residência viviam apenas Joseane e o companheiro, Lourival da Cruz Neto, conhecido como “Bola”, suspeito do crime e ainda procurado pela polícia.
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O amigo contou que Lourival trabalhou durante todo o dia e, em determinado momento, usou o celular de um colega de serviço para enviar uma mensagem a Joseane, pedindo que ela preparasse o almoço. Durante a conversa, segundo o relato, ele teria visto no aparelho uma mensagem acompanhada de um emoji com um dos olhos fechados e a língua para fora, o que teria despertado ciúmes.
Ainda de acordo com a testemunha, depois disso Lourival retornou para casa. No caminho, passou pelo amigo e encontrou Joseane sentada na varanda do imóvel. Conforme o relato, o suspeito pediu o celular da companheira.
“Me dá seu celular”, teria dito. Joseane respondeu que o aparelho não pertencia a ele. Mesmo assim, Lourival tomou o telefone da mão dela, disse que queria apenas verificar uma coisa, abriu o aparelho, olhou o conteúdo e depois o devolveu.
Na sequência, conforme o amigo, Lourival saiu de bicicleta. A testemunha acredita que ele tenha ido comprar droga. Depois, o viu comprando cerveja e retornando muito nervoso. Segundo o relato, o suspeito chegou a passar por cima de um cachorro enquanto pedalava.
O amigo disse que deixou o local e foi para casa tomar banho. Quando retornou, encontrou a rua tomada por viaturas. Foi então informado por uma mulher de que “Bola” havia matado Joseane.
Para a testemunha, o ciúme pode ter sido o estopim para o crime. Ele afirmou, porém, que Lourival já apresentava comportamento agressivo anteriormente e fazia comentários indicando que sabia que poderia acabar preso.
“Ele falava para mim que estava metendo o louco porque sabia que, quando fosse preso, não ia mais sair tão cedo”, relatou.
O amigo também afirmou que já havia sido ameaçado de morte pelo suspeito e que Joseane também teria sofrido ameaças. Segundo ele, Lourival era agressivo com outras pessoas da própria família.
“Um cara que bate na própria mãe tem coragem de matar qualquer um. Batia na própria mãe, batia nos primos. A família dele toda tem medo dele”, afirmou.
A testemunha relatou ainda que Joseane já havia aparecido com marcas de agressão em outra ocasião. Segundo ele, recentemente ela chegou com um dos olhos roxos.
O histórico de violência também consta em registro anterior. Joseane havia solicitado medida protetiva contra Lourival no dia 11 de julho de 2026, após registrar boletim de ocorrência por violência doméstica. Os fatos, naquela ocasião, teriam ocorrido na casa da sogra, no Bairro Jardim das Cerejeiras.
Posteriormente, Joseane manifestou interesse em retirar a proteção. A manifestação pela revogação foi formalizada em 16 de agosto, três dias antes de ela ser morta. Ela procurou a Defensoria Pública, informou que continuava com Lourival e declarou não ter mais interesse na manutenção da medida.
Segundo o amigo, apesar do pedido de proteção, o casal praticamente não chegou a ficar separado. “Ela foi lá, fez a medida protetiva e veio embora. No outro dia ele já estava aqui com ela”, contou.
Na avaliação da testemunha, o comportamento de Lourival já indicava risco havia algum tempo. Ele voltou a classificá-lo como uma pessoa agressiva e afirmou que a morte de Joseane causou revolta entre moradores e crianças da região que conviviam com ela.
“É uma crueldade do caramba uma pessoa fazer uma coisa dessas. A vida não vale por causa disso. É complicado”, disse.
Ameaças e medo - Uma vizinha da vítima afirmou que conhecia Joseane desde que nasceu e que era bastante próxima dela. Segundo a moradora, a vítima era uma pessoa tranquila, mas reagia quando era ameaçada ou provocada. “Ela era de boa, mas não gostava que ficassem ameaçando ela. Se mexesse com ela, ela ficava brava”, contou.
A vizinha afirmou ainda que Joseane não demonstrava medo das ameaças feitas pelo companheiro porque acreditava que ele não teria coragem de concretizá-las. “Ela não tinha medo, porque pensava que ele não tinha coragem”, disse.
Segundo os moradores, Lourival já teria ameaçado e agredido Joseane outras vezes. “Ameaçava. Já bateu nela várias vezes”, relatou uma das entrevistadas.
A vizinha também contou que Joseane teria sido agredida durante uma gravidez e, posteriormente, perdido o bebê. “Quando ela estava grávida, ele bateu nela e ela perdeu o neném”, afirmou. Essa informação não foi confirmada pela polícia. A reportagem apurou que nunca foi registrada ocorrência sobre o fato.
Questionada sobre o período da gestação, a moradora disse que Joseane estaria com nove meses. Ela também mencionou uma agressão com um facão, descrita como uma “pranchada”, golpe feito com a lateral da arma.

Os moradores disseram que também já haviam sido alvo de ameaças do suspeito. Uma das vizinhas afirmou que o encontrava com frequência e que ele costumava fazer comentários ameaçadores. “Eu via ele toda vez. Ele ficava fazendo graça comigo, falando que ia me bater”, contou.
Outra moradora relatou que Lourival chegou a dizer que daria um soco nela. As entrevistadas disseram não saber se as falas eram feitas em tom de brincadeira. Uma delas também afirmou que ele “tomava remédio”.
Sobre o paradeiro de Lourival, os vizinhos disseram acreditar que ele tenha fugido da região. Segundo os relatos, o suspeito teria vínculos com o Jardim das Cerejeiras e poderia ter seguido para uma propriedade da família.
Os vizinhos também mencionaram uma propriedade rural pertencente ao pai do suspeito, descrita por eles como uma “horta” ou “fazenda”.
“Provavelmente ele foi para alguma horta que ele tem em outra cidade”, disse uma das entrevistadas. “O pai dele tem uma horta”, acrescentou outra.
A possibilidade de Lourival ter seguido para a propriedade é apenas uma hipótese levantada pelos moradores. Até o momento, não há confirmação sobre o paradeiro do suspeito.
Entenda - Joseane foi encontrada morta dentro da residência onde morava com Lourival, na Rua Luiz Hilário Campos Leite. Ela apresentava ferimentos graves na cabeça provocados por golpes de foice. O Corpo de Bombeiros Militar chegou a realizar manobras de reanimação, mas a morte foi constatada ainda no local.
Uma testemunha afirmou ter visto o companheiro da vítima fugir em uma bicicleta azul. Durante a saída, um celular Xiaomi preto caiu em frente ao imóvel. Equipes da Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher), da PM (Polícia Militar) e do GOI (Grupo de Operações e Investigações) estiveram no endereço.
Joseane deixa três filhos, com idades entre 11 e 17 anos. Lourival ainda não havia sido preso até a manhã desta quinta-feira.
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