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Capital

“Doeu ver o rostinho deformado”, diz avô na cara de filha, ré por morte da neta

Stephanie de Jesus da Silva, 24, teve de encarar os pais e o ex-marido durante audiências nesta tarde

Anahi Zurutuza e Ana Beatriz Rodrigues | 17/04/2023 19:51
Pai de Stepanhie, Rogério da Silva (de costas), durante depoimento. (Foto: Paulo Francis)
Pai de Stepanhie, Rogério da Silva (de costas), durante depoimento. (Foto: Paulo Francis)

Na frente da filha, Stephanie de Jesus da Silva, 24, mãe e ré pelo assassinato de menina de 2 anos, em Campo Grande, Rogério da Silva revelou o quanto foi difícil para ele ver no rosto da neta as marcas do sofrimento. “O que mais doeu foi o dia do velório. O rostinho dela, que era a coisa mais linda, estava deformado, muito machucado, cheio de hematomas”, disse na tarde desta segunda-feira (17), durante audiência na 1ª Vara do Tribunal do Júri.

O homem admitiu não ter relação muito próxima com a filha. “Ela conversava mais com a madrasta, mandava fotos”, afirmou, dizendo que mesmo assim chegou a observar hematomas na neta, pelas imagens, e questionava Stephanie sobre o que havia acontecido, mas a filha dizia que a menina era muito ativa e se machucava brincando.

Apesar do pouco contato com a jovem, Rogério diz ser um pai presente. “Stephanie se fazia de vítima para todo mundo, dizendo que não tinha mãe e pai presentes, se fazia de pobre sofrida. Mas, mesmo eu sendo separado da mãe dela, nós dois sempre estávamos juntos em tudo. A Stephanie fazia questão de ser taxada de ‘tadinha’”.

Por não ter intimidade com a filha, admitiu também que tinha pouco contato com a neta. Certa vez, decidiu visitá-las e encontrou vários homens na casa onde a filha vivia com as netas – além de garotinha de 2 anos, uma recém-nascida –, o enteado e o marido, Christian Campoçano Leitheim, de 25 anos, acusado de espancar a enteada até a morte. “Eu acredito até que minha neta sofreu um estupro coletivo, pois quando os dois foram presos [mãe e padrasto] os amigos que frequentavam a casa deles sumiram tudo”.

O depoimento do pai foi acompanhado por Stephanie que não conteve as expressões de raiva cada vez que o homem falava. Já quando foi a vez da mãe dela, Delziene da Silva de Jesus, depor, a ré se emocionou.

Stephanie acompanhou depoimentos de testemunhas chamadas pela acusação. (Foto: Paulo Francis)
Stephanie acompanhou depoimentos de testemunhas chamadas pela acusação. (Foto: Paulo Francis)

Depoimento da ex – Ainda no plenário, Stephanie acompanhou o depoimento da ex-mulher* de Christian, mãe do garoto que morava com o casal acusado de assassinato. Com a cabeça a ré concordava com quase tudo que a jovem, de 22 anos, dizia. “Eram muito agressivos com a menina. Presenciei agressões com tapas, socos na cabeça e uma vez, meu filho contou que a trancaram no quarto como forma de castigo porque ela tinha apanhado e não parava de chorar. Os dois batiam na criança”.

A ex também relatou ter sofrido agressões de Christian, quando os dois ainda se relacionavam. “O Christian era muito violento e quando ele pega para bater não é só tapinha, é pra machucar mesmo”.

Frente a frente – Stephanie, presa desde 26 de janeiro, ficou frente a frente, pela primeira vez desde a morte da criança, com cinco pessoas, na tarde desta segunda-feira (17): o investigador de polícia, Babington Roberto Vieira da Costa; o pai biológico da criança, Jean Carlos Ocampo da Rosa; o pai dela e a mãe dela; e a ex-mulher do réu. Foram os primeiros depoimentos coletados em juízo para o processo.

A jovem deixou presídio do interior escoltada e entrou no prédio por acesso restrito, direto para um dos plenários do Tribunal do Júri, onde serão ouvidas as testemunhas.

Christian também foi levado para o Fórum, mas não chegou a encarar as testemunhas convocadas pela acusação. Ouviu tudo em sala reservada, atrás da parede onde o juiz se posiciona.

Stephanie e Christian foram presos em flagrante pelo homicídio no dia 26 de janeiro. (Foto: Reprodução)
Stephanie e Christian foram presos em flagrante pelo homicídio no dia 26 de janeiro. (Foto: Reprodução)

O caso – No dia 26 de janeiro deste ano, a menina de 2 anos e 7 meses deu entrada na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Bairro Coronel Antonino, no norte de Campo Grande, já sem vida. Inicialmente, a mãe, que foi até lá sozinha com a garota nos braços, sustentou versão de que ela havia passado mal, mas investigação médica apontou lesões pelo corpo, além de constatar que a morte havia ocorrido cerca de quatro horas antes de chegar ao local.

O atestado de óbito apontou que a menininha sofreu lesão na coluna cervical. Exame necroscópico também mostrou que a criança sofria agressões há algum tempo e tinha ruptura cicatrizada do hímen – sinal de que também sofria violência sexual.

O padrasto responde pelo homicídio com as três qualificadoras e pelo estupro, já a mãe da menina pelo homicídio, como o Christian, mesmo que não tenha agredido a filha, mas porque no entendimento do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), responsável pela acusação, ela se omitiu pelo dever de cuidar.

A morte jogou luz sob processo lento e longo que a menina protagonizou com idas frequentes à unidade de saúde – mais de 30 em 2 anos –, tentativa do pai em obter a guarda após suspeita de que a criança era vítima de agressão e provocou série de audiências públicas, protestos e mobilização para criação da Casa da Criança, bem como soluções ao falho sistema de proteção à criança e ao adolescente em todo o Brasil.

(*) O nome da ex-mulher de Christian foi preservado para evitar a identificação do filho do casal, como prevê o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).

(**) As fotos estão borradas por determinação do juízo. As audiências de instrução e julgamento não são abertas ao público, como júris populares, e o processo de homicídio tramita em sigilo.

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