Mulheres são 70% nos ônibus e mostram onde o transporte público falha todo dia
Ontem, a comissão especial criada pela prefeitura recomendou a intervenção no Consórcio Guaicurus

Acordar às 4h da manhã, enfrentar ônibus lotados, passar horas em deslocamento e ainda dar conta dos filhos, do trabalho e das tarefas domésticas. Essa é a realidade de mulheres que dependem diariamente do transporte coletivo em Campo Grande, que representa 70% das usuárias do sistema, segundo a Agereg (Agência de Regulação dos Serviços Públicos Delegados de Campo Grande).
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Mulheres representam 70% dos usuários do transporte coletivo em Campo Grande e relatam rotina diária marcada por superlotação, atrasos, insegurança e falta de conforto nos ônibus do Consórcio Guaicurus. A prefeita Adriane Lopes destacou o dado após audiência pública, enquanto comissão especial da Prefeitura recomendou intervenção no consórcio por indícios de descumprimento contratual, incluindo problemas na qualidade do serviço e renovação da frota.
Enquanto Prefeitura, Justiça e órgãos de fiscalização discutem possível intervenção no Consórcio Guaicurus, as mulheres relatam rotina marcada por atrasos, superlotação, falta de conforto e insegurança.

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Trabalhadora do comércio, Taylaine Monteiro da Silva, de 23 anos, acorda às 4h da manhã para conseguir embarcar às 5h. Mãe de uma criança de 2 anos, ela precisa levar o filho à escola antes de seguir para o trabalho. "Depender do transporte público é muito ruim. Geralmente o ônibus está muito cheio e isso acaba sendo estressante tanto para quem usa quanto para os motoristas", afirma.
Entre ida e volta, Taylaine passa cerca de três horas por dia dentro dos ônibus. Segundo ela, os atrasos são frequentes e acabam impactando diretamente sua rotina profissional e familiar. "Às vezes eu perco o ônibus, chego atrasada no serviço e ainda tenho a dificuldade de estar com meu filho, porque muitas pessoas não dão lugar. Falta transporte para atender a demanda de pessoas que precisam. No geral, o serviço é péssimo."

A técnica de enfermagem Leonarda Souza Mendonça, de 65 anos, também descreve a experiência como desgastante. Ela utiliza três ônibus para chegar ao trabalho e deixa casa antes das 5h da manhã. "É um sufoco usar o transporte público. Tem dias em que o ônibus está tão lotado que mal dá para colocar os pés. Isso acontece tanto de manhã quanto à noite."
Além do trabalho, Leonarda ainda divide seu tempo entre os cuidados com a casa e um neto com necessidades especiais. "É uma rotina muito cansativa. Muitas vezes nem lugar para sentar eu consigo, mesmo sendo idosa. Os jovens [estudantes] ocupam os assentos e a gente acaba viajando em pé."
Para a trabalhadora doméstica Clarita Gimenez, de 64 anos, a superlotação também é o principal problema. Moradora do Nova Campo Grande, ela acorda às 5h para trabalhar próximo ao Shopping Campo Grande."Os ônibus já saem lotados desde os primeiros pontos. Sou idosa e muitas vezes não consigo sentar porque os alunos ocupam os bancos."
Quando retorna para casa, Clarita diz que a jornada está longe de terminar. "Chego em casa e ainda preciso fazer todos os serviços domésticos. Além disso, a passagem é cara. Quem trabalha todos os dias acaba gastando muito dinheiro com ônibus."

A estudante Larissa Rocha, de 17 anos, chama atenção para outro aspecto enfrentado pelas mulheres: a sensação de insegurança. "Usar o transporte público hoje é complicado porque os ônibus são muito cheios. A gente acaba se acostumando com a rotina, mas continua sendo difícil."
Ela relata que nunca sofreu assédio diretamente, mas já presenciou situações desconfortáveis. "Tem muitos homens inadequados que mexem com as mulheres. Eu nunca passei por isso, mas já percebi olhares desconfortáveis."
Larissa também reclama das condições dos veículos e da demora nas viagens. "Muitos ônibus são barulhentos, têm cadeiras quebradas, janelas danificadas e vivem apresentando problemas. Além disso, demoram muito e isso faz com que eu me atrase para a escola e para o serviço."
No dia 2 deste mês, a prefeita Adriane Lopes (PP) destacou a predominância feminina entre os usuários. "Eu acredito que, depois da audiência pública, a gente terá uma tomada de decisão para esse enfrentamento, que é difícil, mas necessário, para melhorar a qualidade do transporte público, tendo em vista que 70% dos usuários são mulheres", afirmou.
Ontem, a comissão especial criada pela Prefeitura recomendou a intervenção no Consórcio Guaicurus após apontar indícios de descumprimento do contrato de concessão. Entre os problemas identificados estão questões relacionadas à qualidade da prestação do serviço, renovação da frota, fornecimento de informações ao poder público e manutenção dos seguros obrigatórios.
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