Quando o tráfico dita a rotina, famílias criam filhos sob vigilância diária
Mesmo cercado por delegacias, problema crônico segue onde o crime e a infância dividem espaço
Em cada esquina do quadrilátero formado pelas ruas Flauta, Tuba e Pandeiro, no Bairro Tiradentes, a venda de drogas em pequenas quantidades acontece durante o dia. As idas e vindas são constantes nas vias estreitas, onde funcionam pontos conhecidos pelos moradores como "biqueiras". No mesmo espaço, crianças circulam de bicicleta e brincam perto das casas.
RESUMO
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Em uma região cercada por três delegacias em Campo Grande, moradores do "Beco do Tirão" enfrentam diariamente o desafio de criar seus filhos em meio ao tráfico de drogas. O local, formado pelas ruas Flauta, Tuba e Pandeiro, é palco constante do tráfico "formiguinha", mesmo com a proximidade das forças policiais. Pais e responsáveis desenvolvem estratégias para proteger as crianças, como acompanhamento escolar e participação em projetos sociais. Segundo especialistas, a presença de adultos atentos e emocionalmente disponíveis é fundamental para que as crianças compreendam a realidade sem se identificar com o ambiente de risco.
A poucos metros dali estão três delegacias. Ainda assim, moradores relatam que a sensação de segurança é frágil. A proximidade das unidades policiais não impede a circulação do tráfico no local conhecido como “Beco do Tirão”, na região norte do bairro.
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Conviver desde cedo com situações de violência e tráfico pode impactar o desenvolvimento das crianças. Segundo a psicóloga Giovanna Paola Charão Escanaichi, ambientes assim exigem que elas criem mecanismos de sobrevivência, em vez de relações baseadas em confiança e segurança.
A especialista explica que o comportamento infantil é moldado pelo que se repete no cotidiano. O ambiente influencia, mas não determina, desde que haja adultos atentos e presentes.

“O tráfico não perdoa” - O “Beco do Tirão” fica a cerca de 900 metros do Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubos a Banco, Assaltos e Sequestros), a 1,2 quilômetro do Centro Integrado de Polícia Especializada e a aproximadamente 2 quilômetros da Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico).
Na Rua da Orquestra, próxima ao quadrilátero, uma jovem de 29 anos, moradora do Tiradentes desde a infância, lembra da perda do irmão mais novo, morto em frente à casa da família em maio deste ano. Ela prefere não se identificar. Segundo a moradora, a mãe tentou orientar o filho, mas as escolhas seguiram outro caminho. “Às vezes a pessoa se envolve com amizades diferentes. É isso que eu não quero para os meus filhos”, afirma.
Mãe de um bebê de nove meses e de uma menina de nove anos, ela diz que a preocupação com a criação começou cedo. Para ela, o contato diário com o tráfico cria riscos constantes. “Quando a criança vê o dinheiro fácil, a esquina vira uma tentação. Por isso a gente acompanha de perto”, relata. A filha mais velha estuda na Escola Municipal Professor Carlos Henrique Schrader, enquanto o mais novo aguarda vaga em creche.

“Como você consegue?” - Moradora da Rua Pandeiro desde criança, uma mulher de 48 anos afirma que criar filhos na região exige vigilância diária. Mãe de dois meninos, de 12 e 18 anos, ela também cuida do neto de 10 como filho. “Tem gente que cresceu junto com meus filhos e hoje está envolvida com coisa errada”, conta. Segundo ela, não há como isolar as crianças do entorno. “O exemplo ruim está na esquina. O que a gente faz é orientar todos os dias.”
Empregada doméstica, ela trabalha fora de casa por longas jornadas e diz que a estratégia para manter os filhos longe do crime é simples, dentro do possível. “Eles estudam e trabalham. É isso que dá para fazer”, resume. Os mais novos participam das atividades do Instituto Bola de Ouro, projeto comunitário que oferece formação esportiva e social no contraturno escolar.
Presidente do instituto, Jairo César explica que a iniciativa busca ocupar o tempo livre de crianças e adolescentes. Segundo ele, o projeto chegou ao limite de atendimento e precisa de melhorias na estrutura para ampliar o alcance. “A gente tenta segurar o máximo possível, mas muitos entram cedo no tráfico”, relata.

“É um pandemônio isso aqui” - Morador do “Beco do Tirão” há mais de três décadas, um segurança aposentado de 75 anos afirma ter criado os três filhos longe do crime e das drogas. “Um é empresário, outro é jardineiro e minha filha trabalha há 15 anos na Proncor”, conta.
Ele diz que sempre apostou no diálogo. “Para cuidar, precisa conversar e mostrar a realidade. Eu mostrava e dizia para não seguir esse caminho. Aqui, na frente tem uma boca de fumo, atrás outra e na esquina mais uma. É um pandemônio.”
“A gente dá conselhos” - Outra moradora da Rua Pandeiro, de 80 anos, cria os bisnetos na região. Segundo ela, o cuidado é constante. “É da escola para casa. Eu não deixo se misturar”, conta. Ela afirma que sempre orientou os filhos e netos a não se envolverem com drogas.
Para a psicóloga Giovanna Escanaichi, a presença de responsáveis emocionalmente disponíveis é um dos principais fatores de proteção. O vínculo afetivo, a escuta e a orientação ajudam a criança a reconhecer riscos e a construir limites, mesmo em contextos de vulnerabilidade social.
A reportagem solicitou posicionamento da Polícia Civil e da Polícia Militar sobre o monitoramento da área, investigações relacionadas ao tráfico em pequena escala e ações de prevenção. Até o fechamento desta edição, não houve retorno.
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