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Interior

Aldeias de Aquidauana tem mais 5 mortes sob suspeita de covid-19 desde ontem

Com problemas em testagem, demora na confirmação dos resultados leva até uma semana

Por Izabela Sanchez | 30/07/2020 15:37
Imagem de encontro no Distrito de Taunay. (Foto: Eric Markay)
Imagem de encontro no Distrito de Taunay. (Foto: Eric Markay)

Os terena colapsam em meio à pandemia de covid-19 nas aldeias de Aquidauana, a 133 km de Campo Grande. Enquanto a curva em Dourados segue mais lenta e a cidade registrou 3 mortes de indígenas maio até agora, 11 podem ter falecido em aldeias da Terra Indígena Taunay Ipegue, em Aquidauana. Já são 7 óbitos confirmadas pela Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), mas outras 5 pessoas faleceram desde ontem.

Conforme apurou a reportagem com equipe médica e indígenas que monitoram os casos, as 5 vítimas apresentaram sintomas da doença. Parte do problema envolve a deficiência para aplicar testes e diagnosticar precocemente as 15 aldeias que compõem o polo base de Aquidauana, mas que compreendem também Anastácio e Nioaque.

As aldeias de Taunay Ipegue representam o cenário de maior colapso. Entre o final da noite de quarta-feira (29) e a manhã desta quinta-feira (30), três pessoas faleceram, três homens idosos, segundo informou cacique da região à reportagem. São três mortes seguidas em menos de 12 horas, entre às 23h de ontem e a manhã desta quinta.

Assim como em Dourados, a médica infectologista Mariana Croda da secretaria estadual de saúde tem orientado as equipes de saúde indígena sobre a coleta de testes, mas não há equipes suficientes.

O problema até provocou a vinda de representantes da organização humanitária Médicos sem Fronteiras, que avaliam se vão manter equipe de saúde e ajuda material na região de Aquidauana.

De modo geral instituições como MPF (Ministério Público Federal) e Defensorias do Estado e União têm emitido ofícios e até ajuizado ações para acelerar a tomada de medidas, o que não tem ocorrido.

Ainda assim, outros fatores chamam a atenção na região. Até a quarta-feira (22), havia apenas um médico com uma equipe de saúde para atender as 15 aldeias em terras indígenas distantes umas das outras. Só nesse dia é que a Prefeitura enviou mais duas equipes de saúde e o Dsei, mais uma médica.

O número de profissionais afastados no polo base inclui até a chefia, além de profissionais de saúde, o que só pressiona ainda mais o trabalho das equipes. O presidente do Dsei, baseado em Campo Grande, Eldo Elcídio Moro, também está de atestado médico.

Isolamento - A comunidade ainda espera a construção de um espaço de isolamento para os casos suspeitos e até assintomáticos, que ainda não ocorreu. Atualmente, se discute o uso de escolas municipais em Aquidauana. A infectologista da SES confirmou à reportagem que essa estratégia deve ser colocada em prática com a primeira escola ainda nesta semana.

Outra questão que intensifica a covid-19 nessas aldeias é a incidência de diabetes e hipertensão, maior entre os terena do que entre as aldeias do sul do Estado, conforme a reportagem ouviu de médicos das duas localidades, que preferem ficar no anonimato.

Calapso –  Cacique da aldeia arara azul, em Taunay Ipegue, Pedro Luis Gomes Lulu, 55, é conselheiro estadual de saúde indígena e disse que as três mortes registradas em menos 12 horas “estão confirmadas”, mas não soube dizer quais haviam sido apontadas por exame laboratorial.

A diferença entre as confirmações que entram no boletim do Dsei, da SES e da saúde local de Aquidauana têm feito com que os indígenas, a exemplo do conselho terena, organizem levantamento próprio.

O Campo Grande News teve acesso ao boletim divulgado pelo conselho, que é uma organização política da etnia. O documento aponta 16 mortes confirmadas de pessoas da etnia Terena em todo o Estado de Mato Grosso do Sul até agora. O número abrange também a região de Miranda e as aldeias do sul.

O conselho contabiliza 12 óbitos entre suspeitos e confirmados de pessoas naturais das aldeias do polo base da Sesai de Aquidauana, incluindo vítima que faleceu em Campo Grande, mas entrou no levantamento das aldeias da região. Só em Taunay Ipegue, a organização aponta 130 casos de covid-19 confirmados.

O levantamento, segundo a organização cita no boletim, é feita tanto com dados da Sesai quanto com equipes locais nas aldeias.

Nas últimas horas -  O cacique da arara azul afirma que faleceu aos 85 anos, Pedro Luiz, morte que ocoreu ontem por volta das 23h, segundo informou. O cacique disse que o idoso foi levado ao hospital às 19h da noite de ontem e que apresentava quadro de diabetes.

Segundo o cacique, a outra vítima chama-se Antonio Francisco, que não teve a idade informada, e era morador da aldeia Imbirussu, também em Taunay Ipegue. A última morte registrada ocorreu durante a manhã. Segundo o cacique, trata-se de um idoso, Timóteo Sobrinho, com idade superior aos 60 anos e morador da aldeia bananal.

O Campo Grande News tentou contato com a secretária municipal de saúde, por telefone, mas ela não atendeu as ligações. O chefe responsável pelo Dsei durante a ausência do presidente disse que não podia responder pois estava em reunião.