Maior presídio indígena do país regulariza documentos étnicos de 313 detentos
Ação atualizou dados, identificou línguas faladas e garantiu acesso à documentação civil para indígenas presos
A Penitenciária Estadual de Dourados, unidade que abriga a maior população carcerária indígena do país, recebeu um mutirão inédito para identificação étnica, regularização documental e atualização cadastral de indígenas privados de liberdade. Ao todo, 313 custodiados foram atendidos em uma ação que busca garantir direitos básicos e fortalecer políticas públicas voltadas aos povos originários dentro do sistema prisional de Mato Grosso do Sul.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
Realizada por meio de uma parceria entre órgãos do sistema de Justiça, Agepen (Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário), Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) e o Cartório do 2º Ofício de Dourados, a iniciativa teve como foco identificar corretamente as etnias dos internos, levantar informações sobre as línguas faladas e emitir ou regularizar documentos civis.
A proposta é assegurar que a identidade étnica dos indígenas esteja devidamente registrada nos sistemas oficiais, permitindo que o Poder Judiciário e os demais órgãos públicos tenham acesso a informações mais precisas para desenvolver atendimentos e políticas compatíveis com as especificidades culturais dessa população.
O diretor do Departamento de Acompanhamento e Fiscalização do Sistema Carcerário do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, Eduardo Ferreira, destacou a importância dos resultados obtidos durante o mutirão.
"Conseguimos atualizar informações sobre etnia, línguas faladas e outros dados que serão inseridos nos processos judiciais e nos sistemas do Poder Judiciário. A participação das lideranças indígenas e o apoio da Agepen foram fundamentais para o sucesso da ação", afirmou.
A presença de representantes da Funai e de lideranças indígenas do Grupo Avaeté foi essencial para o desenvolvimento dos trabalhos. Eles atuaram como intérpretes e mediadores culturais, facilitando a comunicação e garantindo que os atendimentos fossem realizados de forma respeitosa e adequada às diferentes realidades dos povos atendidos.
Para Edson Miranda, da Coordenação Regional da Funai em Dourados, a iniciativa ajuda a superar uma das principais barreiras enfrentadas por muitos indígenas: a falta de documentação civil.
"Muitas vezes, a falta de documentação civil impede o acesso a direitos fundamentais. Essa atuação conjunta é estratégica para garantir cidadania e fortalecer a proteção aos povos indígenas", ressaltou.
A importância da documentação também foi destacada pelo oficial registrador do Cartório do 2º Ofício de Dourados, Luiz Defani. Segundo ele, a participação do cartório em uma ação dentro da unidade prisional ocorreu pela primeira vez.
"O cartório é uma porta de entrada para diversos direitos. Foi a primeira vez que participamos de uma ação dentro da penitenciária e ficamos impressionados com a organização e o alcance do trabalho desenvolvido", observou.
Referência nacional no atendimento à população indígena privada de liberdade, a Penitenciária Estadual de Dourados mantém uma série de iniciativas voltadas à preservação da identidade cultural e à garantia de direitos. Entre elas estão alas específicas para indígenas, ensino bilíngue com oferta de atividades também nas línguas maternas e capacitações destinadas aos policiais penais para um atendimento mais alinhado às características culturais e sociais dos povos originários.
Segundo o diretor da unidade, Leoney Martins, o mutirão reforça uma política já adotada pela instituição de respeito às particularidades dessa população.
"A ação fortalece o atendimento à população indígena privada de liberdade e contribui para assegurar o respeito à identidade cultural, à dignidade e aos direitos dessas pessoas, criando condições mais efetivas para a reintegração social", afirmou.
A diretora de Assistência Penitenciária da Agepen, Maria de Lourdes Delgado Alves, destacou que a iniciativa faz parte de um trabalho permanente desenvolvido no sistema penitenciário estadual.
"Trata-se de um trabalho contínuo de atenção, assistência e tratamento penal voltado à população indígena. A garantia de direitos e o respeito às particularidades dos povos originários fazem parte das diretrizes da Agepen e das políticas de ressocialização desenvolvidas no sistema penitenciário estadual", concluiu.
A ação integra as medidas adotadas em Mato Grosso do Sul para adequar o atendimento aos indígenas em conflito com a lei às diretrizes nacionais, ampliando o acesso à documentação, fortalecendo a cidadania e garantindo que a identidade cultural dos povos originários seja reconhecida e respeitada também dentro do sistema prisional.


