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Campo Grande, Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018

16/11/2017 17:23

Intermediação em esquema rendia até R$ 250 mil por mês a pecuarista

Ivanildo entregava dinheiro diretamente a Puccinelli, no apartamento do ex-governador

Osvaldo Júnior
Ivanildo Miranda, durante a delação (Foto: Divulgação/PF)Ivanildo Miranda, durante a delação (Foto: Divulgação/PF)

Numa pontualidade britânica, o empresário e pecuarista Ivanildo da Cunha Miranda, 59, comparecia nos primeiros dias de cada mês, antes das 6h, no Edifício Champs Elysées, na Rua Euclides da Cunha, em Campo Grande. Era recebido pessoalmente por André Puccinelli e conversavam, apenas os dois, em uma sala do apartamento do então governador de Mato Grosso do Sul. Nas rápidas reuniões, eram entregues altas somas de dinheiro, propina paga pela JBS e outros frigoríficos. Pelo serviço, o pecuarista recebia diferentes montantes, que chegavam a R$ 250 mil mensais.

Detalhes desse esquema – que fazem parte de outros que ajudaram a JBS a se tornar gigante mundial no processamento de carne bovina – foram dados por Ivanildo na noite do dia 14 de agosto deste ano na sala de audiências da 3ª Vara Federal de Campo Grande, durante delação premiada, presidida pelo juiz Fábio Luparelli Magajewski.

O envolvimento de Ivanildo teve início em 2006, quando é apresentado ao então candidato ao governo, André Puccinelli, mas o arranjo envolvendo frigoríficos, incentivos fiscais e propinas já vinha de anos anteriores.

O pecuarista servia de canal, por onde eram escoados milhões de reais vindos dos frigoríficos JBS, Bertim, Independência e Marfrig (com destaque ao primeiro) e destinados a André Puccinelli. Parte do dinheiro era usada para pagamento de dívidas de campanhas ou simplesmente repassados a algumas empresas e entidades.

Entre os credores, estava o próprio Ivanildo. Ele conta que emprestou R$ 1 milhão ao então candidato peemedebista. O pagamento foi feito via propinas recebidas do setor frigorífico, principalmente da JBS. Com os serviços de intermediação, o pecuarista teve o retorno, até 2008, do dinheiro emprestado a Puccinelli. Depois disso, passou a constar na relação dos beneficiários de propina.

No começo, ganhava de R$ 80 mil a R$ 100 mil. Depois, exigiu de André Puccinelli aumento desse “pró-labore” para R$ 200 mil ou R$ 250 mil. “Falei ó, se for assim eu paro, não quero mais, tal. Aí ele aumentou pra 200, 250, mais”, conta Ivanildo, durante a delação. Com esse incremento de 212%, o intermediador continuou em sua função até 2013.

Mensalidades dos frigoríficos – De acordo com o Termo de Audiência Criminal da delegação premiada de Ivanildo, além dos valores pagos pela JBS como propina para ter generosos incentivos fiscais, também fazem parte do esquema, mas com montantes “mais modestos” o Independência, o Marfrig e o Bertin.

O Independência pagou de 2007 a 2010, de R$ 60 mil a R$ 80 mil mensais; o Marfrig, de 2007 a 2011, de R$ 100 mil a R$ 150 mil por mês; e o Bertin, de 2007 a 2010, de R$ 250 mil a R$ 300 mil mensalmente.

Em 2010, a JBS, que expandia negócios no processo que a levou ao topo mundial do segmento de carne bovina, comprou o Bertin e o Independência. Consolidou-se a partir desse ano como a principal pagadora de propina em Mato Grosso do Sul.

Bancário, pecuarista e intermediário – Ivanildo Miranda foi bancário de 1976 a 1990. Tornou-se pecuarista em 1985, quando comprou a Fazenda Santa Terezinha, em Corguinho. Também atua como empresário em setores diversos, como o de cerveja.

Em 2006, vendeu parte de seus negócios em Goiânia e se mudou para Campo Grande para trabalhar na campanha de André Puccinelli ao governo do Estado. Sua função era conseguir doadores de dinheiro para a campanha do peemedebista.

No mesmo ano, conhece Joesley Batista, dono da JBS, que se torna o principal financiador da campanha de Puccinelli. O encontro foi na sede da empresa em São Paulo. A reunião, da qual nasceria grande esquema de propinas dos anos seguintes, foi realizada na chamada “confraria”, um restaurante dentro do prédio da JBS.



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