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Em Pauta

Adiós Pantanal: Tonho Beró, chegou para desonçar o mundo

Por Mário Sérgio Lorenzetto | 27/09/2021 06:30
Campo Grande News - Conteúdo de Verdade

"Senti o cheiro de carne queimada. Minha cara não aguentava mais aquele calor, que agravava. Fumaça entrando, a gente chorando. Não tinha mais cuspe no engolir, minha boca cascava virada do avesso. Voava pedaço de fogo, caindo em boi, e fazendo eles berrarem pior, sofrente". É com essas imagens que o vaqueiro Mariano descreve uma queimada no Pantanal, em conversa com João Guimarães Rosa. O escritor, que esteve na região de Corumbá, Aquidauana e Ponta Porá, em 1947, escutava atento tudo que lhe contavam e anotava em sua famosa caderneta. É um grito de despedida. Adiós Pantanal. Depois de um milhão de matas queimadas pelos criminosos, todos são cúmplices.


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85% da terra das onças foram queimadas.

Festa na roça. Nada menos de 85% do território destinado às onças, foi queimado. Com o fogo, o além as espera. O fogo-agronegócio. O maior felino das Américas, a onça-pintada, não tem onde morar.


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Meu tio o Iauaretê.

Não há como não invocar outro texto de Guimarães Rosa, no qual o autor imortalizou a onça. Trata-se de "Meu tio Iauaretê", uma das mais admiráveis e radicais criações de Guimarães Rosa. A história do matador de onça - onceiro - que se transforma em onça, teria sido escrito em 1949, portanto, ainda sob o impacto da viagem ao Pantanal.


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Tonho Trigueiro.

A história de Guimarães é contada na voz de Tonho Beró, também chamado de Tonho Trigueiro, que recebe um hóspede adoentado, isolado no mato. Tonho conta ao hóspede sobre o tempo em que fora caçador de onças. Capturava os felinos por dinheiro e matara mais de 150 onças. Mas se arrependeu. E adquirira a capacidade de se transformar em onça. O hóspede leva a mão ao revólver. O ambiente criado por Guimarães é tenso. Há esturros ou urros de agonia da onça, supostamente interrompidos pela arma de fogo.


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"Desviar esse revólver ".

"Desvira esse revólver! Mecê brinca não, vira o revólver pra outra banda... Mexo não, tou quieto, quieto. Tira, tira o revólver pra lá", diz Guimarães. Tira, tira esse fogo pra lá, incendiários. Tira, tira sua incompetência gananciosa, ô autoridade. Desonçar o mundo. Adiós Pantanal!

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