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Em Pauta

Como destruímos o mundo em quatro episódios

Por Mário Sérgio Lorenzetto | 05/06/2020 08:13
Campo Grande News - Conteúdo de Verdade

Frágil. Essa característica do planeta nos foi mostrada nas últimas semanas. O mundo é frágil. Basta olhar em volta. Nos últimos 20 anos temos removido todos os amortecedores, regulamentos e normas que fornecem proteção quando grandes sistemas - sejam sanitários, ecológicos, geopolíticos ou financeiros - ficam estressados. Em nome da eficiência e da obsessão pelo crescimento a curto prazo, quebramos o mundo.


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Episódio 1: O 11 de setembro de 2011 (os norte-americanos escrevem as datas com o mês antes do dia: 9/11).

A melhor visão sobre o 11/9 é enxergar a Al Qaeda e Osama Bin Laden como patógenos políticos que surgiram no Oriente Médio após 1979. O Islã perdeu o freio em 1979. Perdeu a resistência ao extremismo. Foi nesse ano que a Arábia Saudita recuou no combate ao jihadismo, depois que extremistas islâmicos tomaram a Grande Mesquita em Meca e levaram o aitolá Khomeini ao poder. Esses eventos criaram uma competição entre o Irão xiita e a Arábia Saudita sunita sobre quem era o verdadeiro líder do mundo muçulmano. Essa batalha coincidiu (a primeira coincidência que narraremos) com um aumento nos preços do petróleo que deu aos dois regimes fundamentalistas os recursos para propagar suas marcas do Islã puritano, através de mesquitas e escolas, em todo o mundo. Foi assim que enfraqueceram todas as tendências emergentes que galgavam os patamares do pluralismo religioso e político. E fortaleceram o fundamentalismo violento. Lembrem-se: o mundo muçulmano foi o mais culto, científica e economicamente na Idade Média, quando era uma policultura rica e diversificada. O mundo árabe tornou-se uma monocultura à partir de 1979. Passaram a acreditar que o jihadismo violento seria o motor do renascimento. Esse patógeno se espalhou. Criou monstruosidades como a Al Qaeda. O que aconteceu a seguir, todos sabemos. O ataque às duas Torres Gêmeas levaram o mundo a gastar trilhões para proteger seus sistemas de transporte. E a resposta do ofendido sempre tem o mesmo potencial do agressor. Estavam avisado, nenhuma providência foi tomada. Torturas voltaram à moda. Espionagem de todos os governantes do mundo foram realizadas. O sigilo das contas bancárias foram abertos à fórceps e golpes de machado. Algo como 25% do mundo estava irremediavelmente quebrado.


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Episódio 2: A grande recessão.

A crise bancária global de 2008 ocorreu de maneira semelhante. O aviso foi entregue por um vírus conhecido pela iniciais LTCM - Long-Term Capital Management. Era um fundo, criado em 1994, por uma equipe de matemáticos, veteranos da indústria e dois Prêmios Nobel. Desejavam fazer apostas massivas no mundo todo e obter lucros nunca vistos. Tudo funcionou - até que não funcionou. Em agosto de 1988 a Rússia deixou de pagar sua dívida. Três dias depois, mercados de todo o mundo começaram a afundar. Os investidores começaram a sair em massa. Em um dia, a Long-Term perdeu US$553 milhões. Em um mês perdeu US$ 2 bilhões.Eles tinham tomado dinheiro de tantos bancos ao redor do mundo que todos perderam imensas fortunas ao mesmo tempo. Foi necessário um pacote de resgate de US$3,65 bilhões do Federal Reserve para criar imunidade de grupo. A crise foi contida e a lição era clara: não deixem ninguém fazer apostas tão elevadas, especialmente no mundo bancário onde a transparência jamais entra. Uma década depois, a lição estava esquecida. Veio o desastre de 2008. Novamente, todos estavam avisados, nenhuma providência foi tomada. Infelizmente, não há imunidade de grupo para a ganância descomedida.


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Episódio 3: A sala 9/11.

O primeiro coronavírus ( o que hoje enfrentamos e o segundo) pulou da China continental para Hong Kong em fevereiro de 2003, quando um professor visitante, Dr. Liu Jianlun, que sem saber tinha o SARS (nome do primeiro coronavírus). Ele entrou na sala 9/11 ( segunda coincidência, data do ataque às Torres Gêmeas) do Metropole Hotel de Hong Kong. Espalhou o vírus mortal para pelo menos oito convidados, que o levaram para Cingapura, Canadá e Vietnam. Aquele coronavírus se espalhou. Das mais de 7.700 pessoas infectadas inicialmente, a OMS acredita que mais de 4.000 tenham sido infectadas à partir do nono andar do Metropole Hotel. Graças à cooperação global super rápida, o primeiro coronavírus foi contido. Pela terceira vez, mas não última, todos estavam avisados, nenhuma providência foi tomada.


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Episódio 4: Catástrofe ambiental.

Prefiro o termo "esquisitice global". O clima está ficando estranho. A frequência, intensidade e custos econômicos de eventos climáticos extremos aumentam. As regiões úmidas ficam mais úmidas. Os lugares quentes ficam mais quentes. Os períodos secos ficam mais secos. As nevascas ficam mais pesadas. Os furacões ficam mais fortes. O mais sábio seria preservarmos todos os amortecedores ecológicos que a natureza nos dotou. Diferentemente das pandemias biológicas, como o covid-19, as mudanças climáticas não atingem o pico e depois começam a decair. É sempre uma curva para cima, para a catástrofe. Pela quarta vez, todos estão avisados....