Furiosa, a saga da mulher soldado no MS
“Capitoa”, como era conhecida Maria Aparecida Belmonte, uma gaúcha que peleou em uma revolução em sua terra. Foi por lá que, ao ver o marido caído na batalha, não vacilou, tirou-lhe a farda, o revolver e a espada e continuou comandando a tropa. Lutava com entusiasmo, coragem e sangue frio. Ao ver seu lado derrotado, veio para os lados de Nioaque, no Mato Grosso do Sul, com alguns irmãos de luta. Ao aparecer por estas bandas, envergava a bombacha grande, um 44 de cabo preto, uma faca grande e um belo chicote, além da túnica de soldado. Cabelos negros, olhos esverdeados, voz grossa, autoritária e rompante, a Capitoa encheu de pavor muitos lares da região.
Bailava só com mulheres.
Com macho não gostava de bailar, por isso, seu décimo amante, um tal Antão, sujeito magricela, alto e moreno, de faces bexigosas, ficava sempre jururu num canto, segurando nos joelhos a sanfona da Capitoa. Foram dez anos - entre 1.903 e 1.913 - rondando entre Nioaque e a Vacaria. Fez até uma rocinha nas matas de uma cabeceira. Nessa região sacudida violentamente por malfeitores procedentes do Paraguai, quem dela tripudiava, sem piedade alguma, mandava fazer-lhe a barba a facão, quando não matava.
Feiticeira tremenda.
A Capitoa preparava o feitiço com o sapo mais apropriado. Usava o couro deste com cera de vela queimada em velório, besouro de chifre cor de ouro, osso moído encontrado na beira de algum rio, raiz de planta arrancada na encruzilhada, cabelo de negro e bico de tucano. Para feitiço de amor mandava roubar uma peça de roupa que a virgem usou em sua primeira noite de núpcias.
Amava as moçoilas.
A Capitoa tinha três desejos mórbidos: furar sanfona com a ponta da espada, acabar com bailes entre gritos e sapateados e acariciar moças donzelas. Seus olhos sinistros pareciam lançar fogo quando por uma delas se apaixonava. Retorcia a boca, rilhava os dentes e soltava profundos suspiros em uma especie de êxtase da paixão. É sabido que, durante longo tempo, manteve em sua companhia meninotas bem fornidas de corpo. E com elas dormia.
O fim em Campo Grande.
Uma tarde uns cavaleiros brotaram de surpresa na fazendinha da Capitoa. Eram soldados do tenente Gomes. Perguntaram por ela e a prenderam. O tenente chamou um barbeiro de Nioaque e mandou que lhe passasse a navalha pela cabeça e em todas suas curvas. Trocou-lhe as vestes masculinas e tirou a sanfona, a espada e o revólver. E assim soltou-a no campo. Um grupo exótico e mulambento, formado por uma mulher e quatro homens. A Capitoa, de coco raspado, veio a Campo Grande. Os continuados fracassos, a idade, o reumatismo, a fuga dos companheiros e a morte do cavalo de estimação, quebraram-lhe o ânimo. Mudou de vida. Na rua D.Aquino, numa miserável choça, armou uma tendinha e ali vendia curau, doce de amendoim, mamão, garapa e pamonha. Depois desapareceu. Diziam que acompanhou um negro manquitola que foi para os lados de Camapuã. E dela nunca mais alguém teve notícia….
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