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Em Pauta

Uma historieta, nada conservadora, das tatuagens

Por Mário Sérgio Lorenzetto | 15/12/2019 08:04
Uma historieta, nada conservadora, das tatuagens

O que há de mais profundo no homem é a pele. Todo tipo de inscrição nela estampada deveria ser objeto de atenção. As tatuagens nada têm de superficiais. Ao contrário, elas são capazes de condensar candentes inquietações humanas. Mas a história das tatuagens nos mostra que durante muito tempo - até os anos setenta, do século passado - elas estiveram voltadas ao que podemos chamar de baixo social e baixo corporal. As agulhas levavam as tintas aos corpos dos pobres e, especialmente, em suas virilhas. Foi só nos anos 70 que a alta sociedade aderiu massivamente às tatuagens.

Uma historieta, nada conservadora, das tatuagens

A tatuagem europeia.

Ainda que suas tribos pintassem os corpos, os europeus só foram intensificar a tatuagem pelo fim do século XVIII, após as expedições comandadas por James Cook no Taiti. Sua expansão deveu-se, portanto, aos marinheiros. Logo ganhou adeptos entre detentos e soldados. Estendendo-se aos grupamentos de malandros e vadios. Rejeitada pela gente de "bem", como selvageria, se popularizou entre os homens, como um atestado de virilidade. Para os pobres, só era "machão", quem ostentasse uma tatuagem. Só bem mais tarde alcançou a população feminina, embora quase limitada às prostitutas.

Uma historieta, nada conservadora, das tatuagens

Tattoo: o negro e o índio.

A história brasileira das tatuagens é muito diferente. Quando os primeiros espanhóis e portugueses entraram nas selvas procurando ouro, encontraram uma profusão de homens e mulheres com seus corpos totalmente tatuados. Nada entenderam e nem se interessaram. Mas elas contavam muitas histórias. Contavam suas guerras e amores. Eram histórias de vitórias e de seus temores.
Quando os negros aportaram em nossas terras, se distinguiam por dois tipos de tatuagens, de "marcas", como diziam em seu tempo: uma de pertencimento, identificando suas nações de origem, e a outro de posse, expunha as torturas impostas às mercadorias humanas.

Uma historieta, nada conservadora, das tatuagens

As mariposas.

Coração com nome de mãe. Não há tatuagem que ganhe do amor filial. Mas as borboletas vem logo a seguir, na história das tatuagens. É um signo constante entre as putas. Escusado lembrar que, no Brasil, as prostitutas atendem pela palavra "mariposas", reforçando a pecha de inconstância desse métier.

Uma historieta, nada conservadora, das tatuagens

A tatuagem no pé, no calcanhar.

A tatuagem das detentas é algo pouco conhecido. As mulheres mandam marcar suas peles com corações e nomes dos amantes. Brigam, desmancham a tatuagem. E marcam o mesmo nome no pé, no calcanhar. É a maior das ofensas. Nome no calcanhar, roçando a poeira, amassado por todo o peso da mulher...

Uma historieta, nada conservadora, das tatuagens

Para bom entendedor, meia tatuagem basta.

Um certo Joãozinho foi tatuado por um colega soldado a frase: "Luiza, meu amor", sob o rosto de uma mulher. Luiza era prostituta e Joãozinho era um homem brasileiro, amante, meio soldado, meio ladrão. Depois disso, tatuou também o nome de Leonor. Em seguida, veio um emblema da República. Logo a seguir, duas cobras se beijando. E, para encerrar, dois peixes entrelaçados. Um deles ficou inacabado. Joãozinho tatuou as duas cobras na prisão. A pena se findou e um peixe que ficou incompleto. O moço parece não ter se importunado. Afinal, para bom entendedor, meia tatuagem basta!

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