Recuperação judicial não é lugar para aprender fazendo
Existe uma frase que tenho ouvido com uma frequência preocupante:
“Doutor, acho que nossa recuperação judicial deu errado.”
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Normalmente, quando essa conversa chega até nós, o problema já não é mais apenas a crise que levou aquela empresa à recuperação judicial. Agora existe uma segunda crise. A própria recuperação judicial. E talvez esse seja um problema sobre o qual ainda se fale muito pouco.
O Brasil atravessa um período de forte crescimento das recuperações judiciais. No agronegócio, por exemplo, 2025 terminou com 1.990 pedidos, o maior número desde o início da série histórica da Serasa Experian e 56,4% acima do ano anterior. Juros elevados, restrição de crédito, endividamento acumulado, margens apertadas e problemas de fluxo de caixa ajudam a explicar esse cenário.
Mas existe outra questão acontecendo paralelamente.
Quanto mais cresce o número de recuperações judiciais, mais profissionais passam a atuar nesse mercado. E não há nada de errado nisso. O problema começa quando uma das situações mais delicadas da vida de uma empresa é tratada como apenas mais um processo judicial.
Porque Recuperação Judicial não é apenas Direito.
Ela envolve finanças, negociação com bancos, fornecedores e credores, fluxo de caixa, operação, patrimônio, comunicação, estratégia e, principalmente, tempo. Uma petição pode colocar uma empresa dentro de uma recuperação judicial. Mas não é uma petição que tira uma empresa da crise. Talvez esteja aí um dos equívocos mais perigosos.
Quando percebe que a situação financeira ficou grave, o empresário naturalmente procura alguém em quem confia. Muitas vezes é o advogado que acompanha a família há anos. É quem conhece a empresa, fez contratos, resolveu questões trabalhistas, acompanhou negócios e esteve presente em diversos momentos. Isso é absolutamente compreensível.
O problema é confundir confiança com especialização. Eu posso conhecer profundamente alguém e nem por isso estar preparado para realizar uma cirurgia cardíaca nessa pessoa.
No Direito, às vezes esquecemos essa obviedade.
Recuperação judicial é uma especialidade muito particular porque o processo jurídico é apenas uma parte do problema. Enquanto os advogados discutem o processo, a empresa continua funcionando. A folha vence. O fornecedor precisa decidir se continua entregando. O banco reavalia o crédito. O cliente começa a ouvir rumores. O funcionário fica inseguro. E o caixa não espera o processo terminar.
É por isso que uma recuperação mal estruturada pode criar um problema maior do que aquele que pretendia resolver. E talvez os casos mais difíceis que recebemos hoje não sejam necessariamente os de empresas que acabaram de perceber a crise. São aqueles em que precisamos reconstruir uma estratégia depois que meses preciosos já foram consumidos.
Quando isso acontece, o trabalho muda completamente. Já não estamos apenas tentando salvar uma empresa. Estamos tentando salvar uma empresa depois de uma tentativa frustrada de salvá-la. E tempo, em uma crise empresarial, talvez seja o ativo mais difícil de recuperar.
É curioso observar como o empresário se comporta diante de outras decisões importantes. Passa meses escolhendo uma máquina. Pesquisa antes de comprar uma fazenda. Faz contas antes de abrir uma nova unidade. Contrata engenheiros para construir uma indústria. Procura especialistas antes de realizar determinados investimentos.
Mas, quando a empresa que levou vinte ou trinta anos para construir está em risco, às vezes escolhe quem conduzirá sua recuperação pelo critério mais simples de todos: proximidade. Confiança importa. Mas confiança não substitui experiência. E existe uma responsabilidade também do profissional. Reconhecer os próprios limites não diminui ninguém. Pelo contrário. Talvez uma das maiores demonstrações de responsabilidade profissional seja saber quando determinado problema exige alguém que vive aquilo todos os dias.
Um bom advogado não precisa saber fazer tudo. Precisa saber o que não pode fazer sozinho. Uma empresa em recuperação judicial já está lutando contra o tempo. Contra o caixa. Contra os credores. Contra a perda de confiança. E contra os próprios erros que a levaram até ali. Ela não precisa ganhar mais um problema: a própria recuperação judicial.
Por isso, talvez exista uma pergunta que todo empresário deveria fazer antes de escolher quem conduzirá esse processo.
Não apenas: “Eu confio nesse profissional?”
Mas também: “Quantas empresas ele já ajudou a sair daqui?”
Porque recuperação judicial pode até admitir uma segunda chance para a empresa. Mas nem sempre admite uma segunda chance para a própria recuperação.
(*) Rodrigo Gonçalves Pimentel é advogado (OAB/SP 421.329 | OAB/DF 68.003 | OAB/MS 16.250), empresário e corretor de imóveis (CRECI/MS 11.939). Sócio do Pimentel & Mochi Advogados e gestor da Todeschini MS e RP Imóveis. Foi Secretário de Governo e Presidente da Fundação de Cultura de Campo Grande.
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