O caos que há dentro de nós; série The Bear (o Urso)
Existe algo profundamente humano na série The Bear que tem no streaming da Disney Plus, ela não fala apenas sobre uma cozinha, sobre gastronomia ou sobre a busca pela excelência, a série fala sobre pessoas tentando continuar vivendo depois de experiências que as atravessaram. A história de Carmy Berzatto, um chef renomado que retorna a Chicago após a morte do irmão, Michael, para assumir o restaurante da família. Ao voltar para aquele espaço carregado de memórias, ele não encontra apenas um negócio em crise, mas também um passado que continua presente. A série fala sobre perdas que permanecem, sobre feridas que não cicatrizam completamente, sobre o desejo de reconstruir aquilo que foi quebrado e sobre a difícil tarefa de aceitar que nem tudo na vida pode ser controlado, o restaurante torna-se um lugar onde se misturam luto, culpa, amor, raiva e a tentativa de transformar sofrimento em criação.
O luto não é simplesmente esquecer ou superar uma perda, viver o luto nos mostra que perder alguém implica em um trabalho psíquico. Ao perder alguém é preciso reorganizar a relação com aquilo que foi perdido e encontrar uma nova forma de existir diante da ausência. O problema pode surgir quando o luto se torna complicado e patológico, a dor fica “presa”, sem possibilidade de elaboração, transformando-se em culpa, autocobrança ou repetição. Carmy, o protagonista da série representa esse sujeito que tenta reparar o irreparável, sua busca pela perfeição na cozinha parece ir além da excelência profissional, existe ali uma tentativa de controlar o caos interno através do controle externo. Organizar pratos, processos e pessoas torna-se uma forma de tentar organizar uma vida marcada pela perda e pelo sofrimento. A série nos lembra algo fundamental: nenhum planejamento é capaz de impedir a existência da falta, da imprevisibilidade e da dor.
Pensando em uma perspectiva psicanalítica que o ser humano é marcado por uma falta estrutural, e que não somos sujeitos completos, então, estamos sempre em busca de algo que finalmente nos preencherá. Os personagens de The Bear vivem essa busca constante, assim como representado fora da vida ficcional, há sempre algo a mais a ser conquistado, algo que parece faltar. Essa dinâmica é uma característica própria da condição humana e não um defeito individual.
A série também apresenta uma importante reflexão sobre identidade. Quem somos nós quando deixamos de cumprir aquilo que esperam de nós? Carmy carrega o peso do legado familiar e da imagem do irmão. Ele não está apenas tentando construir um restaurante, está tentando responder a uma pergunta silenciosa: “quem eu sou diante da história que recebi?”.
A psicanálise nos mostra que nossa identidade não é construída de maneira isolada, somos atravessados pela vida e a morte, por expectativas e marcas deixadas pelos outros. Muitas vezes, passamos grande parte da vida tentando corresponder a lugares que nos foram atribuídos, antes mesmo de conseguirmos descobrir aquilo que realmente desejamos.
A série mostra que a angústia está presente nas relações, no trabalho, na família e na maneira como cada sujeito lida consigo mesmo. Os personagens são competentes, criativos e apaixonados pelo que fazem, mas também estão cansados, ansiosos e emocionalmente sobrecarregados.
A série evidencia uma realidade contemporânea: muitas pessoas conseguem funcionar, produzir e cumprir suas responsabilidades enquanto carregam sofrimentos que permanecem invisíveis.
Vivemos em uma cultura que frequentemente transforma sofrimento em desempenho, a exaustão passa a ser interpretada como dedicação, a dificuldade de parar como ambição e o excesso como sinônimo de sucesso. Porém, o sujeito não é uma máquina de produtividade. Existe um limite, uma dimensão emocional e uma história singular que precisam ser consideradas.
A cozinha caótica de The Bear funciona como uma metáfora da própria existência, pois tem momentos em que tudo parece desorganizado, em que os planos falham e em que as emoções ultrapassam aquilo que conseguimos suportar e a grande questão não é eliminar completamente o caos, pois é algo impossível, mas pensar e desenvolver recursos internos para lidar com ele.
(*) Lia Rodrigues Alcaraz Spengler é formada em psicologia (2011), Especialista em orientação Analítica (2015), Especialista em neuropsicologia (2026) e está em Formação para Psicanalista. Trabalha como psicóloga clínica em consultório particular.

