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Economia

Trabalhadores fogem de salário mínimo e vagas ficam “encalhadas” por até 60 dias

Empresas chegam a republicar oportunidades quatro vezes

Por Izabela Cavalcanti | 18/08/2026 11:43
Trabalhadores fogem de salário mínimo e vagas ficam “encalhadas” por até 60 dias
Funcionária da Funsat mostra vagas disponíveis para candidato (Foto: Juliano Almeida)

Para quem está desempregado, aceitar qualquer oportunidade deixou de ser uma decisão simples. Em Campo Grande, trabalhadores que procuram uma colocação no mercado de trabalho estão fazendo as contas antes de aceitar vagas que oferecem apenas o salário mínimo, atualmente de R$ 1.621.

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Trabalhadores desempregados em Campo Grande estão recusando vagas com salário mínimo de R$ 1.621 por não cobrir despesas básicas como aluguel, alimentação e transporte. Dados da Funsat mostram que ofertas nessa faixa podem ficar abertas por até 60 dias. Relatos de candidatos indicam que o mínimo necessário para viver sozinho gira em torno de R$ 2.500, levando muitos a rejeitar oportunidades com jornadas de 44 horas semanais ou escala 6x1.

Despesas como aluguel, alimentação, transporte, manutenção de veículos e até o tempo gasto no deslocamento pesam na decisão e ajudam a explicar por que algumas oportunidades permanecem abertas por semanas.

Conforme análise do departamento de gestão da Agência de Empregos da Funsat (Fundação Social do Trabalho de Campo Grande), nos casos em que o anúncio informa apenas um salário mínimo e vale-transporte, sem outros benefícios, e prevê jornada de 44 horas semanais, o tempo de permanência da vaga pode chegar a 60 dias.

O período não significa que um mesmo anúncio fique automaticamente disponível durante todo esse tempo. Uma oferta é aberta inicialmente para expirar em 15 dias e só permanece ativa quando há atualização que mantém o cadastro vigente. No cenário de uma vaga que chega a ficar encalhada por 2 meses, isso pode representar quatro tentativas de publicação.

O setor de Vagas e Emprego da Funsat mantém contato com as empresas anunciantes para acompanhar o andamento das oportunidades, desde a abertura até o fechamento, além de informar quando é necessária uma nova atualização para que a oferta continue ativa.

Nesse diálogo com os empregadores, a equipe tem observado, nos últimos anos, que é comum a republicação de anúncios ocorrer com salários maiores ou com a inclusão de benefícios.

Segundo dados do Painel de Intermediação da Agência de Empregos, em média, as ofertas com remuneração entre um salário mínimo e um salário mínimo e meio representam 70% do total de oportunidades anunciadas.

Realidade - Mais do que perguntar se R$ 1.621 é suficiente, a realidade de quem procura emprego mostra que a decisão passa por uma conta detalhada: quanto sobra depois do aluguel, da comida, da locomoção e das demais despesas? Quanto custa trabalhar? E quanto vale uma jornada de seis dias por semana?

Edna de Carmen Freitas, de 57 anos, está desempregada há três dias. Ela trabalhava em uma residência com serviços de limpeza.

Trabalhadores fogem de salário mínimo e vagas ficam “encalhadas” por até 60 dias
Edna de Carmen conversando com a reportagem, após ser atendida na Funsat (Foto: Juliano Almeida)

Nesta terça-feira foi até a Funsat procurar emprego e saiu com um encaminhamento para uma vaga na mesma área, com salário mínimo. Antes de decidir, pretende entrar em contato com a empresa para confirmar as condições.

Para ela, o problema aumenta quando o trabalho doméstico envolve também o preparo das refeições e o atendimento a várias pessoas na residência.

“O salário é pouco, realmente. A gente trabalha aos finais de semana, tem lugar que trabalha mais de oito horas. A gente não ganha exatamente o que tem que ganhar. A maioria das residências pede para cozinhar para duas, três, quatro pessoas”, comentou.

A remuneração também já foi motivo para Edna desistir de oportunidades. Ela conta que chegou a recusar vagas quando o salário não compensava as atribuições exigidas.

“Já cheguei a recusar por ser salário mínimo e quando é um serviço além do normal, que é para duas, três pessoas fazerem”, disse.

Para ela, o mínimo seria a partir de R$ 2 mil. “Daí para lá. Porque hoje em dia, como não estamos vivendo um tempo bom, precisaria trabalhar pra sobreviver. Eu pago minha casa, pago 550. Água e luz já sobe para 800 reais, manter mais o que comer. Tenho cartão de crédito”, lamentou.

Áquila Souza, de 20 anos, está desempregado há uma semana e saiu da Agência de Empregos com dois encaminhamentos para vagas de auxiliar administrativo. As oportunidades oferecem salário de R$ 1.900.

Trabalhadores fogem de salário mínimo e vagas ficam “encalhadas” por até 60 dias
Áquila sendo atendido por funcionária da Funsat (Foto: Juliano Almeida)

Mesmo com uma remuneração acima do mínimo, ele afirma que ainda pretende complementar a renda com trabalhos informais.

“Vou fazer uns bicos para poder completar. Se fosse salário mínimo, recusaria. Se para mim, que sou uma pessoa que não tem tantos gastos, já não é suficiente, quem dirá um pai de família que tem filhos, tem mulher para sustentar, tem escola, tudo isso”

Para ele, a jornada de trabalho também entra diretamente na conta. Uma vaga com escala 6 por 1 e 8 ou até 10 horas de trabalho por dia pode deixar de compensar quando a remuneração é baixa.

“Depende da escala. Se for uma escala 6 por 1, onde eu trabalho 8 horas do meu dia até 10, 6 dias por semana, por 1.600 não compensaria. Compensaria ou fazer freelancer ou arrumar um emprego que não é da minha área, mas pelo menos eu ganharia mais até eu me estabelecer”, exemplificou.

Na conta feita por Áquila, R$ 2.500 seriam suficientes apenas para cobrir as despesas. Para ter alguma margem financeira, seria necessário ganhar mais.

“2,500 só pagaria as contas. Para poder sobrar mesmo, tinha que ser uns 3 mil e sobraria uma margem de 300 reais por mês de emergência”, pontuou.

As despesas incluem a moto, manutenção, internet, água e alimentação. O trabalhador estima que gasta entre R$ 20 e R$ 25 por dia com uma marmita durante a semana. A conta de água varia entre R$ 110 e R$ 130. A manutenção da moto custa em média R$ 150 e combustível R$ 300. O cartão de crédito fica em torno de R$ 400.

Há dois meses desempregado, Thierry Fran Romeiro, de 27 anos, também procura uma oportunidade que represente avanço em relação à remuneração que recebia anteriormente, que era de R$ 1.900.

Para ele, aceitar um salário menor não faz sentido quando as despesas permanecem as mesmas.

Trabalhadores fogem de salário mínimo e vagas ficam “encalhadas” por até 60 dias
Thierry aguardando atendimento na Funsat (Foto: Juliano Almeida)

“Eu procuro serviços que tenham salários acima do que eu já ganhava antes. Procuro sempre evoluir, nunca ficar abaixo, mas sempre acima ou até mesmo no mesmo nível”.

A jornada de trabalho é outro fator que pesa na decisão. Thierry cita a frequência de vagas com escala 6 por 1 e remuneração próxima do mínimo.

“Hoje em dia é muita vaga que tem seis por um e eles pagam um salário mínimo, pouco benefício. Salário mínimo hoje em dia, para mim, está bem difícil. Não dá para viver com um salário mínimo”, disse.

Ele calcula que uma parte significativa da renda desapareceria antes mesmo de considerar alimentação e outras despesas.

“Eu moro de aluguel. Então, só um aluguel já vai, basicamente, 50% da minha renda. As contas são aluguel, água, luz, internet e mais comida. Hoje em dia, esse mínimo, é muito difícil para a gente conseguir fazer um lazer”. O aluguel custa R$ 700. A conta de luz fica em torno de R$ 150 e a água, R$ 100.

Com essa estrutura de gastos, Thierry estabelece um valor que considera necessário para viver.

“Eu vejo que, para uma pessoa que vive sozinha, hoje em dia, conseguir viver, não sobreviver, precisa de, no mínimo, 2,500. Eu deixo passar o salário mínimo, infelizmente, porque não tem condição. É insuficiente para eu conseguir viver”, ressaltou.

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