ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
JULHO, QUARTA  29    CAMPO GRANDE 23º

Editorial

Parque dos Poderes pede ordem para continuar sendo patrimônio de todos

Uso desordenado ameaça a segurança e o lazer dos frequentadores

Por José Cândido | 29/07/2026 06:01
Parque dos Poderes pede ordem para continuar sendo patrimônio de todos
Grupo usa pista de caminhada como se fosse espaço particular, com itens para prática de exercício no meio do passeio público (Foto: arquivo)

O Parque dos Poderes Governador Pedro Pedrossian é, sem exagero, um dos maiores patrimônios urbanos de Mato Grosso do Sul. Poucas capitais brasileiras têm um espaço que reúne, ao mesmo tempo, os três Poderes do Estado, uma extensa área preservada de Cerrado, fauna silvestre, vias arborizadas e milhares de pessoas praticando atividades físicas diariamente.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

O Parque dos Poderes, em Campo Grande, enfrenta desorganização crescente apesar de ser um dos maiores patrimônios urbanos de Mato Grosso do Sul. Conflitos entre pedestres, ciclistas e ambulantes, uso indevido de ciclovias e falta de fiscalização comprometem o espaço. Especialistas apontam que o parque não precisa de obras, mas de gestão eficiente, com regras claras, sinalização adequada e organização do comércio para garantir convivência segura a todos os frequentadores.

É um lugar onde convivem quatis, capivaras, aves, corredores, ciclistas, crianças, idosos e famílias inteiras. Um cartão-postal que deveria ser referência nacional em mobilidade, lazer e convivência. Mas há um problema cada vez mais evidente: o crescimento do uso do parque não foi acompanhado por organização, fiscalização e regras claras.

Nos fins de semana, quando as vias são fechadas para veículos, o parque se transforma em um grande centro de lazer. O aumento da frequência é positivo. Demonstra que a população valoriza espaços públicos de qualidade. O desafio começa justamente aí.

A disputa por espaço tornou-se uma rotina.

Ambulantes ocupam áreas improvisadas. Empresas e comerciantes alugam bicicletas, triciclos, patinetes, patins e outros equipamentos praticamente sem critérios visíveis de ordenamento. Em alguns pontos, os canteiros centrais passaram a funcionar como áreas comerciais improvisadas, descaracterizando um ambiente pensado para convivência e preservação ambiental.

O problema, entretanto, não está apenas na atividade econômica. Está na ausência de regras efetivamente cumpridas.

Pedestres caminham sobre a ciclovia. Ciclistas preferem circular pelas pistas destinadas aos veículos. Academias levam grupos para treinos justamente onde o espaço deveria ser exclusivo para bicicletas. Em vez de compartilhar o parque com respeito, cada grupo cria suas próprias regras.

Como consequência, aumentam os conflitos, os riscos de acidentes e o desconforto para quem apenas deseja caminhar ou pedalar com tranquilidade.

Nem mesmo quem deveria dar exemplo escapa das críticas.

O policiamento montado frequentemente utiliza a ciclovia para deslocamento dos cavalos. Além do conflito com ciclistas, os animais deixam esterco sobre a pista, criando uma situação incompatível com um espaço voltado à prática esportiva e à higiene pública. O problema não é a presença da Polícia Militar, cuja atuação é importante para a segurança do parque, mas a forma como determinados deslocamentos são realizados.

Outro aspecto pouco discutido é a proteção da fauna.

Durante a semana, as vias permanecem abertas ao trânsito de veículos. Motoristas precisam reduzir a velocidade e respeitar a travessia de animais silvestres, algo que nem sempre acontece. O aumento do fluxo de pessoas e equipamentos também exige cuidado permanente para preservar um dos últimos grandes fragmentos urbanos de Cerrado da Capital.

O Parque dos Poderes não precisa de grandes obras. Precisa de gestão.

É possível organizar áreas específicas para aluguel de bicicletas e equipamentos esportivos, disciplinar o comércio ambulante, reforçar a sinalização, fiscalizar o uso correto das ciclovias, estabelecer espaços apropriados para treinamentos coletivos e definir protocolos para circulação de cavalos e veículos de apoio.

Tudo isso sem retirar de ninguém o direito de usar o parque.

Ao contrário. Organização amplia direitos. Reduz conflitos. Melhora a segurança. Valoriza o patrimônio público.

O Parque dos Poderes é democrático justamente porque pertence a todos. E, quando um espaço é de todos, ninguém pode agir como se fosse dono dele.

Campo Grande conquistou um dos mais belos espaços públicos do Centro-Oeste. Agora precisa dar o próximo passo: administrá-lo com o mesmo cuidado dedicado à preservação da natureza que o torna único.

A beleza do parque continua encantando. Mas sua convivência exige regras, respeito e fiscalização. Sem isso, o principal patrimônio ambiental e esportivo da capital corre o risco de ser vítima do próprio sucesso.