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Educação e Tecnologia

Faculdades e alunos de MS aprovam mudança no Enamed, mas cobram melhorias

Para eles, abertura de cursos sem estrutura comprometeu a formação médica e exige mais investimentos

Por Ketlen Gomes e Gabi Cenciarelli | 27/06/2026 15:44
Faculdades e alunos de MS aprovam mudança no Enamed, mas cobram melhorias
Alunos de medicina da Universidade Federal de MS, em aula no campus da Capital. (Foto: Divulgação/UFMS)

A exigência de aprovação no Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica) para obtenção do registro profissional foi recebida de forma positiva por universidades e estudantes de medicina de Campo Grande. Apesar do apoio à medida, representantes das instituições e alunos afirmam que o exame, sozinho, não resolverá os problemas da formação médica no país, defendendo também mais investimentos em infraestrutura universitária, campos de prática e no SUS (Sistema Único de Saúde).

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Universidades e estudantes de medicina de Campo Grande receberam positivamente a exigência de aprovação no Enamed para obter o registro profissional, medida assinada pelo presidente Lula em 19 de junho. Apesar do apoio, representantes e alunos alertam que o exame isolado não resolverá os problemas da formação médica, sendo necessários investimentos em infraestrutura, campos de prática e no SUS.

As novas regras foram estabelecidas por medida provisória assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e passaram a valer em 19 de junho. A partir de agora, os estudantes que ingressarem em cursos de medicina precisarão ser aprovados no Enamed, ao final do sexto ano, para conseguir o registro no CRM (Conselho Regional de Medicina). Também será aplicada uma prova obrigatória no quarto ano, de caráter diagnóstico.

Chefe da Divisão de Gestão do Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) e Indicadores da Educação Superior da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), o professor Vivaldo Lopes Oliveira explica que a exigência valerá apenas para os estudantes que ingressarem nos cursos após a publicação da medida provisória. Os alunos que já estavam matriculados precisarão fazer as avaliações, mas o resultado não impedirá o exercício da profissão.

Na avaliação dele, a mudança fortalece o controle sobre a qualidade da formação médica, mas precisa ser acompanhada de investimentos nas universidades.

"Por outro lado, a gente sabe que não é só a avaliação que vai promover essa melhora de qualidade. Para que essa melhora, que é o objetivo final, aconteça, as instituições precisam investir na infraestrutura, em laboratórios, equipamentos, bibliotecas. Então, o investimento tem que acontecer juntamente com a avaliação. E eu acho que essa é uma forma de induzir as instituições a fazerem isso", afirmou.

Segundo Vivaldo, processos de avaliação costumam levar os cursos a reverem metodologias, estrutura e projeto pedagógico.

Diretor da Faculdade de Medicina da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), o médico Augustin Malzac também vê a medida como positiva. Para ele, o exame pode elevar o padrão mínimo da formação médica, principalmente diante da expansão acelerada de cursos no país e da responsabilidade da profissão, que trabalha com o sofrimento e a dor humana.

"Essas novas regras pelo menos tentam nivelar o jovem médico por cima, colocando um nível mínimo de aproveitamento para que ele possa exercer. Eu vejo, com bons olhos, toda e qualquer avaliação para o jovem médico ter o seu credenciamento junto à população", disse.

O diretor acrescenta que a melhoria da qualidade depende de investimentos permanentes em laboratórios, cenários simulados, hospitais de ensino e atualização do corpo docente, sobretudo em faculdades mais recentes.

"Tendo em vista o número exorbitante de escolas médicas que surgiram no nosso país nos últimos dez anos, isso vem preocupando porque a quantidade não está atrelada ao número de médicos no mercado", pontua.

Faculdades e alunos de MS aprovam mudança no Enamed, mas cobram melhorias
Estudantes de medicina da UFMS, realizam atividade com modelo anatômico. (Foto: Divulgação/UFMS)

Em nota, a Uniderp informou que considera o Enamed "um avanço importante" para o ensino médico, mas destacou que a qualidade da formação deve ser analisada de forma ampla, levando em conta projeto pedagógico, corpo docente, infraestrutura, atividades práticas e avaliações do MEC (Ministério da Educação).

A instituição afirmou ainda que tem reforçado simulados, revisões, análise de desempenho e revisão do projeto pedagógico, além de manter investimentos em qualificação docente e infraestrutura.

Entre os estudantes, a avaliação também é majoritariamente favorável, embora acompanhada de críticas à expansão de cursos sem estrutura adequada.

Aluno do sexto ano, João Pimenta acredita que o exame ajudará a garantir um padrão mínimo de qualidade na profissão. Segundo ele, a abertura acelerada de cursos de medicina nos últimos anos ampliou o acesso, mas também trouxe diferenças significativas na formação dos novos médicos.

"Eu acredito que a ideia de você criar uma prova é muito válida e muito correta, porque quando você procura um médico, você precisa confiar nesse profissional. É uma prova que está cobrando o mínimo para que a pessoa possa atuar", afirmou.

Para ele, o Brasil enfrenta um problema crônico em relação à assistência à saúde, principalmente nos locais mais afastados. Ele lembra que o governo federal fez diversas tentativas ao longo dos anos para melhorar a saúde, como a criação do SUS e a facilitação de novas universidades de medicina, mas o problema persistiu.

"A gente teve uma grande criação de cursos de medicina, principalmente particulares, mas também de universidades federais, e essas faculdades foram surgindo em muitos locais sem ter estrutura. E o problema disso foi que os alunos começaram a ficar velhos no curso, ninguém via nada, mas esse pessoal começou a chegar no quarto, quinto ano e não tinha cenário de prática. Foi dando muito jeitinho, o aluno precisa rodar em urgência e emergência no hospital, e tem lugar que não tem hospital de urgência e emergência", expõe.

Para a estudante do 4º ano Maria Luiza Carvalho, fazer mais uma prova não é o cenário ideal, já que os alunos de medicina têm muitas coisas para estudar, mas se tornou necessário diante da queda na qualidade de parte dos cursos.

"Mas, no cenário de hoje, acho necessário. A gente está vendo a qualidade da formação médica cair e muito. De dentro da faculdade a gente consegue ver que está ficando cada vez mais precária a formação e o médico sabendo cada vez menos, mas não é por falta de estudo, é porque hoje em dia qualquer um pode ter um CRM, é só estar disposto a pagar por ele", destacou.

Já Elton Oliveira, também aluno do sexto ano, considera que o Enamed é apenas uma parte da solução. Para ele, o principal desafio é reestruturar o ensino médico no Brasil, que foi piorando com a abertura de mais faculdades sem capacidade mínima de formar profissionais da saúde.

"Hoje existem cidades que têm curso de Medicina, mas sequer possuem hospital. Essas instituições acabam enviando os alunos para fazer internato e estágios em outras cidades. Temos exemplos de estudantes de Goiás que vêm fazer internato em Campo Grande. Isso, para mim, é um absurdo, porque Medicina sem prática é quase nada", relata.

Nesse cenário, o estudante destaca que o Enamed é a única medida concreta apresentada até agora e, por isso, é favorável, porque o exame ajuda a avaliar a formação e restringe um pouco mais o acesso ao CRM.

"Mas sou ainda mais favorável à reestruturação do ensino médico. O ideal seria padronizar os cursos, melhorar a qualidade das faculdades e fechar aquelas que não têm condições de formar profissionais. Não falo em dificultar o acesso à medicina, mas em garantir que o curso seja bem estruturado, com bases técnicas e teóricas sólidas", disse.

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