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Educação e Tecnologia

Pesquisador de MS ajuda a criar teste da covid-19 100% nacional

Universidade Estadual de Campinas validou a realização de testes nacionais; até então, havia dependência dos kits importados

Por Lucia Morel | 07/04/2020 15:34


O cientista saiu de MS aos 17 anos e hoje, aos 29, mantém startup que produz enzimas para exames. (Foto: Arquivo Pessoal)
O cientista saiu de MS aos 17 anos e hoje, aos 29, mantém startup que produz enzimas para exames. (Foto: Arquivo Pessoal)

Pesquisadores e cientistas brasileiros, entre eles um sul-mato-grossense, começam uma nova jornada na detecção da covid-19. A Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) validou a realização de testes nacionais para que o Brasil não dependa tanto dos kits importados. Com isso, a universidade e também laboratórios privados podem identificar o novo coronavírus com materiais e insumos 100% brasileiros.

Robson Tramontina, que saiu de MS aos 17 anos e hoje, aos 29,  mantém uma startup de produção de insumos para exames em Campinas (SP), conta ao Campo Grande News que em parceria com a instituição de ensino paulistana, passará a produzir enzimas para os kits nacionais.

“A Unicamp montou uma força-tarefa para conseguir, junto com o Ministério da Saúde e empresários, produzir o kit aqui”, destaca. A validação chegou hoje, mesmo com a expectativa que a resposta positiva de início dos testes saísse dentro de 20 dias.

Tramontina explica que a celeridade decorre porque “precisa ter como fazer esses testes”, diante da atual situação nacional de avanço do novo coronavírus. A força-tarefa foi montada em 17 de março.

Robson, à frente, faz parte da força-tarefa da Unicamp que começou a realizar testes 100% nacionais para detecção do novo coronavírus. (Foto: Arquivo Pessoal)
Robson, à frente, faz parte da força-tarefa da Unicamp que começou a realizar testes 100% nacionais para detecção do novo coronavírus. (Foto: Arquivo Pessoal)

Ele ressalta que a necessidade é tamanha, que ainda que tais kits não sejam os mais adequados – já que não têm validade internacional – há urgência em seu uso.

“Não importa que não seja o teste ideal, autorizado, validado internacionalmente, um teste padrão. Chegou num ponto que precisa fazer e o que importa é que esses testes funcionem e os laboratórios validem entre si os resultados”.

Com essa validação da Unicamp, somente a Ecra Biotec, startup de Robson, vai disponibilizar, a cada dez dias, 100 mil reações para identificação da covid-19 através do teste molecular, o RT PCR, que é o que já é feito no Brasil, mas através de kits importados, já que, até então, não havia produção nacional de todos os componentes necessários.

“Esse teste”, explica o cientista sul-mato-grossense, “é feito com amostra da secreção com coleta via Swab e o resultado demora de um a dois dias para sair”. Tramontina ainda detalha que esse modelo de teste “detecta o vírus antes mesmo dele manifestar os sintomas”.

Em Mato Grosso do Sul, os kits para exames de detecção do novo coronavírus são do modelo RT PCR  e são compostos por uma amostra positiva do material genético do vírus, uma mistura otimizada com componentes (enzimas, primes ou sondas e insumos químicos), além do Swab, que nada mais é que um cotonete específico para esse tipo de exame.

Vale ressaltar que esses kits são diferentes dos chamados testes rápidos, que também chegaram ao Estado, mas ao invés de testar a secreção comprometida, identificam os anticorpos virais, através do sangue.

O cientista ressalta que as enzimas que ele produz em sua startup servem tanto para testes relacionados ao coronavírus, quanto para outras detecções, como HPV, tuberculose, câncer e mesmo testes de paternidade.

“Juntando nossas enzimas, primers e sondas de outras empresas e outros insumos mais também produzidos aqui, o teste fica mais barato”, comemora.

CENÁRIO ATUAL – Ao avaliar o estágio do sistema científico brasileiro em relação a atual epidemia de coronavírus no Brasil, Robson afirma que em anos anteriores, houve investimento forte em ciência e também devido outras crises, como a do vírus Zika, tudo isso “preparou os cientistas para trabalharem com vírus e testes moleculares”.

Assim, há pessoal capacitado, “mas os investimentos caíram e isso prejudica o tempo-resposta ao coronavírus”. Isso porque, se houvesse mais investimento, a produção dos kits, por exemplo, já seria uma realidade.

Por fim, Tramontina, que é natural de Itaquiraí, a 404 Km de Campo Grande, analisa que há onda de negacionismo à ciência no Brasil, o que acaba negligenciando o trabalho científico e os próprios pesquisadores.

“O desmonte da ciência e também da saúde prejudica muitas pessoas por causa de medidas sem base científica”.