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Campo Grande, Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017

05/05/2015 08:46

O Monza do Lima, a torcida do Corinthians e uma polícia com fama de violenta

Paulo Nonato de Souza
O sul-mato-grossense Lima, ídolo do Corinthians nos anos 80 (Foto: Arquivo)O sul-mato-grossense Lima, ídolo do Corinthians nos anos 80 (Foto: Arquivo)

Em 1984, o atacante Lima, revelado pelo Operário de Campo Grande, era uma das estrelas do Corinthians na final do Campeonato Paulista diante do Santos. Disputava gol a gol a artilharia da competição com Serginho Chulapa, do Santos, e Chiquinho, do Botafogo de Ribeirão Preto, e na semana da grande decisão ele estava diariamente em toda a mídia de São Paulo e do resto do País.

Famoso e badalado, em pleno clima da final com o Santos, Lima tornou realidade uma de suas paixões materiais. Comprou um Monza Zero Km, simplesmente o carro mais vendido no Brasil no ano de 1984, um carrão, e, claro, ele tinha que mostrar o novo “brinquedo” aos amigos e parentes que chegavam de Mato Grosso do Sul para torcer pelo seu sucesso na grande decisão do Paulistão.

Na véspera da final, logo após o tradicional treino recreativo realizado no Parque São Jorge, lá fui eu passear de Monza. O Lima ao volante, eu, um primo e um irmão dele, todos sul-mato-grossenses. Quando chegamos na altura do Bela Vista, bairro nobre da Capital paulista, o artilheiro corintiano disparou a repetir palavras como, “Olha os homi, olha os homi”.

Recém chegado em São Paulo, budista e completamente alheio ao universo policial, só fui entender do que ele falava ao ver emparelhada uma Veraneio de cor cinza, e dela vinha, aos berros, a ordem: “Pare o carro, pare o carro...” Era a Ronda Ostensiva Tobias de Aguiar, mais conhecida pelo acrônimo de ROTA, uma polícia vista pelos paulistanos como sinônimo de violência e intolerância.

Assim que o Lima parou o carro, vieram quatro policiais fortemente armados. Um deles ordenou que ficássemos com as mãos para o alto e de costas pra eles. Eu não tinha noção do que estava acontecendo. Pensava que fosse brincadeira, mas tive certeza que não era quando um dos policiais encostou o cano da arma do meu rosto. Aí comecei a tremer de medo e cochichei pro Lima: “Eles estão achando que somos bandidos. Diz pra eles quem é você, se apresenta”. E o Lima: “Não precisa. Eles sabem”.

E sabiam, claro. Quando criei coragem de levantar a cabeça vi que havia uma multidão acompanhando toda aquela cena. E não demorou muito e todo aquele povo começou a cantar o hino do Corinthians, intercalando com um grito característico das arquibancadas: “Ei ei o Lima é nosso Rei, ei ei o Lima é nosso Rei....” Mas os policiais da ROTA não pareciam nenhum pouco comovidos e continuaram o trabalho minucioso deles como se tudo aquilo estivesse acontecendo numa rua deserta.

Revistaram cada um de nós e fizeram uma busca geral no carro. Só fomos liberados quando se convenceram de que não havia nada que nos incriminasse. Antes de nos liberar, um deles, com patente de capitão, parou na frente do Lima e disse: “Oh Lima, vê se pelo menos faz um golzinho pra nós amanhã”.

No dia seguinte, o Santos venceu o Corinthians por 1 a 0, gol de Serginho Chulapa, diante de um público de mais de 100 mil pessoas no Estádio do Morumbi. O campeonato teve dois artilheiros: Serginho Chulapa e Chiquinho, 16 gols cada. Lima foi o vice-artilheiro com 15 gols.

O lema da ROTA estampado na imagem da Veraneio dispensa apresentação (Foto: Arquivo)O lema da ROTA estampado na imagem da Veraneio dispensa apresentação (Foto: Arquivo)


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